O Presidente francês, Emmanuel Macron, diz que a Europa tem de aproveitar o seu “momento Gronelândia” e não pode “baixar a guarda” face a Donald Trump, que tem uma estratégia “abertamente anti-europeia” e gera “uma instabilidade permanente”.O líder francês deu uma entrevista conjunta a seis jornais europeus, que foi publicada esta terça-feira, na qual sublinha que o Presidente norte-americano “mostra desprezo pela UE” e deseja “o seu desmembramento”, pelo que os europeus devem mudar a sua atitude para com os Estados Unidos.“Quando há um acto claro de agressão, acho que o que devemos fazer não é ceder ou tentar chegar a um acordo. Acho que tentámos essa estratégia durante meses. Não está a funcionar”, afirmou Macron na entrevista a jornais como o Le Monde, Financial Times e El País.O Presidente francês entende que a UE não pode deixar-se levar pela ilusão de que as tensões com a Administração Trump sobre a Gronelândia, o comércio e a legislação aplicada às grandes tecnológicas terminaram."Quando há algum alívio após o pico de uma crise, não se deve baixar a guarda, pensando que tudo acabou para sempre. Isso não é verdade, porque agora existe uma instabilidade permanente", disse Macron, sublinhando que está na altura de a Europa "dar um salto" a grande potência e "grande Estado de direito democrático".Emmanuel Macron garantiu que irá pressionar os outros líderes da UE, na reunião informal sobre competitividade, agendada para quinta-feira, 12 de Fevereiro, para que o bloco embarque numa “revolução económica” que o torne finalmente uma verdadeira potência global.Que tipo de potência? “Uma potência previsível para os mercados e para os actores políticos. Mas forte, que responda com rapidez, eficácia e democraticamente quando é atacada”, refere Macron, que considera que “a grande força da Europa é continuar a preservar o Estado de direito”, ao contrário da China e em contraciclo com o que vem acontecendo nos Estados Unidos.“Temos o tsunami chinês na frente comercial e temos instabilidade minuto a minuto do lado americano. Estas duas crises representam um choque profundo — uma ruptura para os europeus”, sublinhou Macron.O Presidente francês diz que a Europa deve tomar medidas para se proteger perante a concorrência destes dois grandes blocos.“É preciso proteger a nossa indústria. Os chineses fazem isso, os americanos também. A Europa é hoje o mercado mais aberto do mundo. Perante isso, não se trata de ser proteccionista, mas de ser coerente, ou seja, não impor aos nossos produtores regras que não são impostas aos importadores não europeus”, afirmou.Retaliação na área digitalMacron também defendeu que a Europa deve avançar definitivamente para um mecanismo de endividamento futuro conjunto, os chamados eurobonds, para fazer os investimentos necessários à sua transformação económica e ao reforço da capacidade de defesa.Esta possibilidade de criar os títulos de dívida europeus tem sido sempre rejeitada pela Alemanha e outros Estados-membros, mas o Presidente francês frisa que é uma “oportunidade sem precedentes, que permitiria também combater a hegemonia do dólar”.“A UE está sub-endividada em relação aos Estados Unidos e à China. Num momento de corrida ao investimento tecnológico, é um erro grave não utilizar esta capacidade de endividamento”, afirmou Macron.Macron, que disse que foi “sempre respeitoso e previsível” ao lidar com o Presidente dos EUA, “mas não fraco”, prevê que um dos próximos grandes embates entre os europeus e a Administração Trump seja sobre a regulamentação tecnológica, área em que a UE aplica regras mais rigorosas sobre privacidade de dados, discurso de ódio e os impostos sobre as grandes plataformas tecnológicas norte-americanas e tem tido muito criticada por Trump.“Os EUA vão, nos próximos meses — isso é certo — atacar-nos por causa da regulamentação digital”, afirmou o Presidente Macron, acrescentando que a administração Trump poderia atingir a UE com tarifas se o bloco usasse a sua histórica Lei dos Serviços Digitais para controlar as empresas tecnológicas americanas.Os EUA também poderão vir a retaliar contra países da UE que estão a legislar para proibir as crianças e os adolescentes de usar as redes sociais.