Embrapa desenvolve alimentos para a NasaSegundo presidente da empresa, Silvia Massruhá, estatal está reforçando investimento em
Inovação. Crédito: edição: Yago BassiGerando resumoEste ano, quem gosta de morango vai comprar uma fruta maior e mais doce: o morango Fênix, desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O “morangão”, que na verdade começou a chegar ao mercado em menor escala no ano passado, deve ser a estrela da estação em 2026. Além disso, pode salvar a cultura do fruto no Estado de São Paulo e o título de “Capital do Morango” na cidade de Atibaia. PUBLICIDADEHá pelo menos 15 anos, as cidades com maior produção da fruta não estão mais em São Paulo, mas em Minas Gerais. Atibaia, que chegou a ter aproximadamente 300 produtores no final dos anos 90, ficou só com algo entre 15 e 20 pequenas propriedades, persistindo no cultivo da fruta. Mesmo com toda a decadência, a cidade manteve as aparências e continuou promovendo anualmente a Festa de Flores e Morangos de Atibaia, com frutas “importadas” de Minas. “Muitos produtores daqui passaram a plantar flores ou foram para o Sul mineiro”, diz Marcos Roberto Albertini, engenheiro agrônomo e chefe de divisão na Prefeitura de Atibaia. Morango Fênix foi desenvolvido pela Embrapa; é maior e mais doce Foto: Paulo Lanzetta/site EmbrapaUma praga chamada flor preta, ou antracnose, devastou os morangueiros da região, que utilizavam uma variedade da planta não resistente à doença. A queda do preço e a falta de regras para produção de mudas (o que fazia muitas plantas doentes se espalharem pelas propriedades) também colaboraram para a derrocada do plantio na cidade. PublicidadeEnquanto isso, em Minas, os produtores passaram a importar mudas de variedades americanas, como a San Andreas, resistentes à antracnose, e a produção foi se espalhando pela localidade. Hoje, corresponde a 60% do cultivo brasileiro.Renascimento das cinzasA Prefeitura de Atibaia tentou reverter a situação a partir de 2006, com um programa de revitalização do morango na cidade. Em 2010, por exemplo, criou um viveiro de mudas. “Mas não havia interesse dos agricultores”, lembra Albertini. A esperança só voltou quando a prefeitura ficou sabendo de testes de campo da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas (RS), em 2018. Era a pesquisa de desenvolvimento do morango Fênix, iniciada em 2010. “O objetivo do estudo sempre foi desenvolver uma variedade nacional, que pudesse ser como os morangos asiáticos, grandes e doces, de fácil adaptação a vários lugares e com custo de produção semelhante ao que já existia”, conta o engenheiro agrônomo Sandro Bonow, um dos responsáveis pelo Programa de Melhoramento Genético de Morangueiro da Embrapa, junto com mais 15 pesquisadores gaúchos, paulistas e do Distrito Federal. Plantação de morango Fênix em São Paulo, em estufa Foto: Felipe Rau/EstadãoDepois de muitos testes e cruzamentos, surgiu o morango Fênix — nome que foi dado por conta da ave que renasce das cinzas e pela constelação sul-americana. É uma variedade que consegue se adaptar a todos os climas do Brasil, de São Paulo a Bahia, e é bem maior que o San Andreas — além de mais doce. Enquanto o morango californiano tem grau Brix, que mede a concentração de açúcar, entre 7º e 9º, o brasileiro passa facilmente de 9º — competindo com os morangos europeus. PublicidadeNão chega ainda ao patamar do Omakase, uma variedade de luxo japonesa, com Brix que alcança 15º. Produz o ano todo e se adapta bem ao calor. Os custos são semelhantes aos do San Andreas, mas no varejo, o apelo visual do fruto grande e bem vermelho garante ao produtor maior margem de lucro, com uma bandejinha de 250 gramas chegando a custar R$ 19,90 nas capitais. A rentabilidade também é atrativa: cada planta de Fênix produz em média 600 gramas de fruta (contra 500 gramas do San Andreas), conforme o manejo.Leia tambémSoja editada geneticamente pode dobrar produtividade no Brasil; veja videográficoLaboratório em MT testa espécies com rodízio inteligente do solo e aponta para futuro da agriculturaNo ano passado, a “trend” do morango do amor (com uma cobertura de leite condensado e calda de maçã do amor) abafou a estreia para valer do Fênix no mercado (em 2024, uma produção ainda tímida chegou às gôndolas de algumas cidades). “Vendeu-se muito, foi muito bom, mas ninguém promoveu o nome Fênix em termos de marketing”, conta Bonow. Este ano, os produtores pretendem trabalhar melhor a popularidade da nova variedade.Os resultados já estão acontecendo. Há cinco anos, conforme a Embrapa, o Brasil tinha 6 mil hectares de morango plantados. Hoje, já são 7 mil.PUBLICIDADEEm Atibaia, por exemplo, o número de propriedades cultivando a fruta multiplicou-se quase três vezes, para 50. “Todos os novos produtores estão plantando Fênix”, conta Albertini. No ano passado, o viveiro municipal distribuiu 400 mil mudas da variedade. Este ano, até agora, já são 430 mil. “Queremos aumentar significativamente a área plantada. Mas dificilmente voltaremos a ter os níveis dos anos 90, por conta da especulação imobiliária”, explica o engenheiro. Muitos sítios, com o passar dos anos, se transformaram em condomínios. No entanto, é difícil estimar um aumento de área plantada nacionalmente. “Quando uma nova cultivar entra no mercado, ela vai sendo adotada em detrimento de outras e não necessariamente gerando grande aumento de área plantada”, explica Bonow. Produtividade do morango Fênix é maior que o morango normal Foto: Felipe Rau/EstadãoNa propriedade de Kleber Magro, produtor atibaiense, a retomada, entretanto, foi total. Ele chegou a ter 1 milhão de pés na década de 90. Mas, no ano 2000, abandonou tudo para plantar crisântemos. Animado com a nova variedade, em 2025, ele fez uma experiência com o morango Fênix. Investiu R$ 480 mil e plantou 30 mil pés. Vendeu tudo com lucro de 50% sobre o investimento. Este ano, a meta era plantar ainda mais. “Mas só consegui 10 mil mudas no viveiro municipal. Queria bem mais, mas não tem. Então, no total, vou plantar 100 mil pés, mas de outras variedades também”, diz ele. “O morango está bem falado de novo, com uma divulgação excelente. Todo mundo quer consumir morango”, completa Magro, que espera sua colheita para o início de maio. Em cidades próximas a Atibaia, como Jundiaí, o novo morango já virou até ponto turístico. É o caso do Sítio Fragole, onde os visitantes são recebidos aos finais de semana para um café da manhã. Em seguida, cada pessoa pega uma cestinha e vai, bucolicamente, colher morangos na plantação elevada, em bancadas, num sistema semihidropônico. O turista pode levar para casa tudo que colher, pagando cerca de R$ 40 por quilo. Também é uma boa oportunidade para o produtor vender direto ao varejo, sem atravessadores. PublicidadeNo cultivo de morango há 49 anos, o Sítio Fragole já chegou a ter 300 mil pés. Com o declínio da cultura, diminuiu a área e passou a produzir amora e framboesa. Há um ano, Ricardo Paulino de Oliveira, um dos administradores do Fragole, conheceu a variante Fênix e plantou 24 mil pés. Colheu 43 toneladas, o que o deixou impressionado. “A rentabilidade foi bem alta. Por isso, este ano vou plantar 38 mil pés. Só não planto mais porque falta mão de obra”, diz ele. Oliveira vai cultivar parte da produção nas bancadas e outra no chão, com manejo orgânico. “O fruto fica ainda mais doce”, diz o agricultor. “Moro em Atibaia e, mesmo assim, não conhecia uma plantação de morangos tão bacana como essa”, diz a funcionária pública Jennifer Yoko Takaki, que visitou o sítio com sua dálmata Amora, em abril. “Procuro sempre passeios em que posso ir com ela. Essa foi uma experiência muito legal. A Amora adorou, e os doces que eles fazem no café da manhã são com as frutas que eles mesmos produzem”, diz Jennifer. Agora, quando a estação dos morangos começa, no final de abril, início de maio (quando é o pico de produção das plantas), Oliveira espera receber até 400 visitantes para a colheita dos morangões. “Plantei até umas variedades de ‘coleção’, japonesas, como o morango branco e o rosa, para deixar o turista ainda mais feliz.”Ex-publicitário, Diego Gomes Martins criou a fazenda vertical, batizada de 100% Livre Foto: Felipe Rau/EstadãoNa metrópole, ex-publicitário planta morangos de luxoNo bairro do Ipiranga, em São Paulo, um antigo depósito de meias agora virou plantação de morango Fênix. São 1,2 mil pés distribuídos em 20 andares de prateleiras, num sistema chamado fazenda vertical. O cenário é parecido com um centro de distribuição, só que, em vez de caixas empilhadas, são bancadas de produção controlada de vegetais. Publicidade“É um sistema em que a gente controla a polinização, o solo, a irrigação, a luz, o vento, a temperatura, a umidade, tudo. É totalmente sem agrotóxicos”, conta Diego Gomes Martins.Ex-publicitário, ele criou a fazenda vertical — batizada de 100% Livre — em 2021, com a ajuda de investidores. “Minha inspiração foram as plantações verticais que existem no Japão”, conta Martins. O aporte foi de R$ 10 milhões. Ele planta verduras, flores, cogumelos e temperos, não só no galpão do Ipiranga, mas também numa segunda unidade aberta em Osasco. “Testamos morango em ambiente controlado há três anos. Fomos fazendo em pequena escala. Agora, conseguimos plantar até 18 mil plantas e o objetivo é chegar a uma produção de 1,6 quilo por pé. Isso seria todo o potencial da planta”, afirma. O que a 100% Livre quer com o Fênix é fazer o que a japonesa Oishii faz: comercializar morangos de luxo. “São morangos super premium, vendidos como se fossem bombons”, diz Martins. No plantio controlado, ele espera que seu Fênix alcance um Brix de doçura de 17º. Nos Estados Unidos, cada morango Oishii chega a custar, em momentos de pico, US$ 5 (em torno de R$ 25) cada um. Publicidade














