O futuro da segurança alimentar na China15º Plano Quinquenal coloca a agricultura como prioridade de segurança nacional. Crédito: Ariel Liborio (Edição)Gerando resumoOs resultados do primeiro trimestre de 2026 divulgados por JBS, MBRF e Minerva Foods mostraram um esforço das grandes exportadoras brasileiras de carne bovina para transmitir ao mercado um cenário de normalidade para o segundo semestre. Nesse período do ano, deve ocorrer o esgotamento da cota chinesa para a carne bovina brasileira, limitada a 1,1 milhão de toneladas, cerca de 600 mil toneladas abaixo do volume embarcado pelo País no ano passado.PUBLICIDADENos balanços e nas teleconferências, as companhias passaram a enfatizar com mais força a diversificação geográfica, a capacidade de arbitragem entre mercados e o avanço da demanda em regiões como Estados Unidos, Oriente Médio e Sudeste Asiático. O Ministério do Comércio (Mofcom) da China anunciou em 31 de dezembro as medidas de salvaguarda contra a importação de carne bovina. O governo chinês adotou cotas específicas por país para importação de carne bovina com a imposição de uma tarifa adicional de 55% para volumes que excederem a cota, com entrada em vigor em 1º de janeiro e implementada por três anos, até 31 de dezembro de 2028.O Brasil é o principal fornecedor da carne bovina ao mercado chinês Foto: Itamar Miranda/EstadãoAo Brasil, principal fornecedor da proteína vermelha ao mercado chinês, coube uma cota de exportação de 1,106 milhão de toneladas sem tarifas adicionais em 2026; 1,128 milhão de toneladas em 2027; e 1,154 milhão de toneladas em 2028.PublicidadeAgora, mais do que apontar uma mudança já consolidada no fluxo global da carne, os frigoríficos buscam mostrar aos investidores que estão mais preparados para operar em um cenário menos dependente da China e mais apoiado em múltiplos polos de demanda.O CEO da Minerva Foods, Fernando Queiroz, afirmou que a empresa trabalha com a expectativa de esgotamento da cota chinesa no terceiro trimestre, mas sem que isso acarrete em redução relevante do volume exportado pela companhia. “Não enxergamos para a Minerva uma redução no nosso volume, ele simplesmente muda de A para B”, afirmou, em teleconferência com analistas. Segundo ele, a redução do volume vindo do Brasil deverá ser compensada por “um crescimento importante vindo de Argentina, Uruguai e Colômbia”.Na MBRF, o CEO Miguel Gularte adotou discurso semelhante. Segundo ele, a companhia está preparada para continuar atendendo clientes chineses mesmo após o fim da cota brasileira, utilizando operações no Uruguai e na Argentina. “Nós temos operação no Uruguai e na Argentina. Temos condições de atender de forma muito efetiva nossos clientes”, disse, em entrevista coletiva. “Terminada a cota brasileira, provavelmente em junho, continuaremos com a nossa produção do Uruguai. E nós temos uma operação relevante também na Argentina”, completou.MinervaDa receita de exportação de carne bovina da Minerva no primeiro trimestre, a China respondeu por 24%; e os Estados Unidos, por 18%. Já no acumulado de 12 meses, a Ásia concentrou 36% das exportações da companhia, seguida por América do Norte, com 21%; Oriente Médio, com 10%; e União Europeia, com 9%.PublicidadeA própria companhia destacou que a China representou 29% das exportações no período e reforçou que o mercado asiático segue central para o setor, mas já dividido com outros destinos relevantes. Ao mesmo tempo, a Minerva mostrou avanço relevante das exportações. Segundo a companhia, os embarques cresceram 24% em volume e 7,7% em preços na comparação anual, enquanto os mercados externos responderam por cerca de 55% da receita bruta.Queiroz afirmou ainda que o setor tende a passar por um processo natural de redistribuição dos fluxos globais de carne bovina. “Normalmente acontece um pouco de todas as coisas: uma redução de abate, um pouco mais de venda no mercado interno brasileiro, com efeito no preço, e outros mercados internacionais tomando mais volume do Brasil”, disse. Segundo o executivo, a companhia revisa semanalmente a atratividade dos mercados internacionais. “Buscamos sempre os mercados que geram mais valor”, afirmou.JBSNa JBS, o discurso também passou a enfatizar a ampliação de mercados fora da China. O CEO global, Gilberto Tomazoni, afirmou que o setor precisará ampliar atuação em outros destinos após o encerramento das cotas chinesas. “Será necessário ampliar a atuação em outros destinos. Um dos principais mercados é o norte-americano, para o qual o Brasil vem exportando volumes relevantes”, disse, em teleconferência.Além da ampliação das exportações aos Estados Unidos, a JBS passou a enfatizar o mercado interno como alternativa para absorver parte da produção no segundo semestre. Segundo Tomazoni, a companhia vem fortalecendo a marca Friboi Reserva e ampliando a presença em produtos de maior valor agregado. “Desenvolvemos uma estratégia de mercado interno bastante robusta com o Friboi Reserva, que não apenas melhora as vendas da categoria de carnes, mas também eleva o faturamento das lojas como um todo”, afirmou.PublicidadePUBLICIDADETomazoni afirmou ao Estadão/Broadcast Agro que o aumento do preço da arroba no primeiro semestre ocorreu em função da aceleração das compras chinesas para cumprimento das cotas. Segundo ele, o encerramento das cotas pode contribuir para acomodação dos preços do boi no Brasil. “Com o encerramento dessas cotas no primeiro semestre, é possível que ocorra uma redução no processamento de animais no Brasil, o que pode contribuir para uma acomodação dos preços do boi”, disse.MBRFNa MBRF, a estratégia de diversificação ganhou peso relevante com a expansão das exportações de aves e produtos halal. A companhia informou que março registrou recorde de exportações diretas de aves e suínos, favorecido pela retomada dos embarques para a União Europeia e pela volta das exportações de frango do Rio Grande do Sul para a China. No Oriente Médio, a Sadia Halal encerrou o trimestre com margem Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização, na sigla em inglês) recorde de 15,6%, enquanto a MBRF ampliou em 12 pontos porcentuais sua participação nas exportações para países do Golfo entre fevereiro e março.A companhia também ressaltou o avanço da estratégia internacional da BRF nos últimos anos. Segundo Gularte, a empresa acumulou quase 200 novas habilitações de exportação até 2025 e já adicionou novas autorizações em 2026. “A exportação brilhou no primeiro trimestre”, afirmou.PublicidadeGularte também relativizou os impactos de uma eventual redução das compras chinesas sobre o mercado brasileiro do boi gordo. Segundo ele, a expectativa de queda de 3% a 4% no volume de abates no Brasil em 2026 tende a compensar parte importante da menor demanda chinesa. “A produção menor do Brasil vai praticamente compensar a diminuição de compra da China”, afirmou.Como fica o papel dos EUA?Os Estados Unidos também passaram a ocupar papel central na estratégia das companhias. Além de aparecer como alternativa para absorção da carne bovina sul-americana, os frigoríficos veem espaço para avanço da demanda no país em meio à restrição na oferta de gado. Tomazoni afirmou que uma eventual suspensão temporária das tarifas americanas de importação de carne bovina aumentaria ainda mais a competitividade brasileira no mercado americano.Leia tambémChina anuncia restrição e tarifa de 55% para importação de carne bovina do Brasil e de outros paísesVamos conversar com União Europeia; qualidade da carne brasileira é inatacável, diz Mauro VieiraEUA lançam ofensiva contra JBS, subsidiária da Marfrig e mais 2 empresas por suposto cartelApesar disso, o país segue sendo um ponto de pressão operacional para o setor. A JBS registrou Ebitda negativo de US$ 230 milhões na Beef North America, enquanto a National Beef, da MBRF, encerrou o trimestre com margem de apenas 0,3%, refletindo a restrição na oferta de gado no mercado americano.PublicidadeA estratégia das companhias agora será colocada à prova no segundo semestre, quando o esgotamento da cota chinesa deverá exigir maior redirecionamento de volumes entre mercados e maior capacidade de arbitragem comercial das exportadoras brasileiras.