Em outubro do ano passado, em San Francisco, entre reuniões, peguei um Uber na Union Square. O motorista, Vjay, rapidamente saiu do script esperado. Havia clareza, estrutura de pensamento e uma capacidade de articulação incomuns. Perguntei onde havia estudado. Ele me contou que era recém formado com mestrado em computer science pela New York University. Em seguida, o dado que realmente importa: tinha feito mais de 300 processos seletivos, mas não havia recebido nenhuma oferta. Dirigia para sobreviver enquanto tentava reconciliar formação, expectativa e dívida. Longe de ser um caso isolado, uma reportagem recente do The New York Times aponta o mesmo padrão: jovens graduados em boas universidades sem conseguir ofertas nas áreas que gostariam e aceitando alternativas bem diferentes que previam. O que esses episódios revelam não é uma anomalia conjuntural. É um sinal de mudança estrutural. A inteligência artificial já começou a alterar a lógica de empregabilidade antes mesmo de capturar plenamente o seu potencial dentro das empresas. No estágio atual, a IA tem sido aplicada sobretudo à eficiência: redução de custos, enxugamento de estruturas, automação de tarefas repetitivas. A fase de crescimento exponencial ainda está por vir, mas o mercado de trabalho já reagiu. Recentemente, em conversa com um executivo C-Level global, ouvi uma leitura direta e provocativa: “no médio prazo, histórico profissional será condição necessária, mas não suficiente. O diferencial será quem você é e como você amplia sua capacidade por meio de seus agentes de IA.” Colunista observa que a IA já começou a alterar a lógica de empregabilidade antes mesmo de capturar plenamente o seu potencial dentro das empresas — Foto: Envato Essa é a mudança central. O curriculum vitae foi concebido para um mundo em que experiência acumulada era o melhor proxy de valor futuro. Esse mundo está ficando para trás. O novo critério é capacidade de execução ampliada. Chame como quiser; a lógica é inequívoca: seu CV vai virar VA (você + agentes). O que começa a diferenciar executivos não é apenas o que fizeram, mas o que conseguem fazer agora e com alavancagem, quais problemas de negócio resolvem, com que velocidade, com que escala e com quanta dependência de estrutura tradicional. Isso redefine o jogo do talento. Se, por décadas, programar foi uma barreira de entrada, essa fronteira está desaparecendo. Em seu lugar, emergem novas competências críticas: clareza de raciocínio, capacidade de estruturar problemas e formular perguntas de alta qualidade. Executivos que dominam essas habilidades ampliam exponencialmente seu impacto ao interagir com a IA. É aqui que entra um fator frequentemente subestimado e decisivo na prática: repertório. O repertório é a capacidade de leitura de contexto. Executivos com repertório identificam nuances, antecipam movimentos e formulam as perguntas certas mais cedo. Sem isso, a interação com a IA tende à superficialidade, e os resultados acompanham. Repertório não é um subproduto. É uma construção deliberada: exposição a contextos diversos, conversas fora da bolha, curiosidade disciplinada. É agenda, não acaso. A terceira história ilustra o ponto de forma concreta. Mauro (nome fictício) operava no limite: agenda fragmentada, sobrecarga constante, impacto direto na qualidade das decisões e na vida pessoal. Na última semana, encontrei um executivo diferente: mais focado, mais calmo, mais efetivo. A mudança tinha nome: Alfred. Seu agente pessoal. Alfred absorve grande parte do operacional: comunicações não críticas, acompanhamento de prioridades, síntese de reuniões, organização de agenda , acompanhamento de prioridades e logística pessoal. O ganho não é marginal. Mais de 50% da carga operacional de Mauro foi transferida, evidência confirmada pela análise de sua agenda. Com isso, ele saiu do modo reativo e reposicionou sua atenção no que realmente transforma o negócio e amplia seu impacto. Perguntei como ele tinha construído o Alfred. "Tirei uma semana de férias, gastei uma grana boa em tokens do Claude e resolvi isso“. Quando eu ia questionar o fato dele ter dedicado tempo de férias para questões profissionais, ele se adiantou: "com o Alfred, tenho certeza que minhas próximas férias serão de muito mais qualidade que todas as últimas“. Esse é o ponto. As três histórias — Vjay, os recém-formados e Mauro — convergem para a mesma conclusão: o mercado deixou de precificar apenas experiência. Começa a precificar capacidade ampliada. E isso tem implicações diretas para qualquer executivo em posição de liderança. A pergunta não é se a IA vai impactar o seu papel. Ela já impactou. A pergunta relevante é outra: quanto da sua agenda ainda depende exclusivamente de você e quanto já está alavancado? Porque, no limite, o novo “currículo” não será o que você fez. Será o que você — e seus agentes — conseguem fazer. É isso que irá aproximar ou afastar seu próximo salto na carreira. Sergio Chaia é coach de CEOs e de treinadores de atletas de alto rendimento. Atua em conselhos e faz mentoria. Foi CEO da Nextel e da Sodexo Pass.
O currículo está mudando de nome
O colunista Sergio Chaia escreve sobre a transição do CV tradicional para uma nova era de profissionais alavancados por inteligência artificial












