Além das taxas de juro exorbitantes, das apostas compulsivas nas bets e da educação financeira insuficiente, o que aumenta o endividamento das famílias é uma mudança estrutural profunda na dinâmica da concorrência no sistema de crédito, avalia o economista José Augusto Gaspar Ruas, do think tank Instituto de Pesquisa e Estudos Econômicos e Sociais, em pesquisa inédita. Segundo o economista, “essa transformação, além de conduzir a uma maior inadimplência, proporcionou novas possibilidades de fraudes e do uso criminoso de estruturas ainda opacas para os reguladores e para a sociedade, como mostram o caso Master e a operação Carbono Oculto”.

A mudança ganhou tração, entre 2023 e 2025, com a exaustão do aumento do crédito ocorrido no pós-pandemia e uma profunda alteração na regulação do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários. O economista investigou o modelo originate-to-distribute, no qual uma instituição concede um empréstimo com a perspectiva de vendê-lo a terceiros. Na prática, instituições financeiras impulsionadas pela digitalização e bancarização ampliaram a oferta de crédito de alto risco, em especial por meio de cartões de crédito, utilizando a securitização via Fundos de Investimento em Direitos Creditórios como mecanismo primário de gestão de risco.