A revista The Economist afirmou que o governo do Brasil é “obcecado por vacinas”, em uma reportagem publicada nesta quinta-feira (21) sobre o "renascimento no complexo médico-industrial" do país. A revista diz que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está em busca de "soberania médica" após a pandemia de covid-19. Segundo a Economist, Lula "assumiu a bandeira" da melhoria da indústria farmacêutica nacional depois das mortes na pandemia – mais de 700 mil – e da baixa porcentagem da produção doméstica de Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs). A revista dá como exemplo o desenvolvimento da única vacina de apenas uma dose contra a dengue, do Instituto Butantan. "Aprovada em novembro, a Butantan-DV é a primeira imunização do mundo em dose única contra a dengue (uma dose é mais fácil do que duas, especialmente ao vacinar pessoas pobres e rurais). É também a primeira vacina a ser totalmente desenvolvida no Brasil. O Instituto Butantan, uma instituição de pesquisa pertencente ao estado de São Paulo, cuidou da formulação, dos testes e da fabricação", diz a revista. A Economist também apontou razões para o enfraquecimento da indústria farmacêutica no Brasil. Entre elas, estão a queda em pesquisa e desenvolvimento no país, o impulso na produção de genéricos e o aumento na dependência de empresas estrangeiras para etapas como formulação e acabamento dos medicamentos. A revista afirma que, nos primeiros mandatos de Lula (entre 2003 e 2010), as tentativas de mudar esse cenário e formar “campeões nacionais” enfrentaram vários entraves. Segundo a publicação, empresas não tinham interesse em sair do mercado de genéricos, houve pouca adesão às linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e outros países avançaram mais rapidamente no setor. Por outro lado, ao comparar com o atual governo do petista, a Economist ressaltou fatores que podem explicar o sucesso das novas descobertas e vacinas do Butantan. Entre eles, estão o crescimento em 30% no orçamento do Ministério da Saúde desde 2023, o maior volume de empréstimos do BNDES para empresas da saúde em 2024 e a mudança das regras para testes clínicos para aprovação de vacinas. A revista aponta que o Brasil ainda enfrenta obstáculos para desenvolver sua indústria farmacêutica. Segundo a análise, a preferência por genéricos, de menor risco, reduz o incentivo à inovação. Também critica a postura de Lula em relação à propriedade intelectual e o controle de preços de medicamentos, que pode desestimular investimentos em pesquisa. Para a Economist, um boom da indústria dessa área no país só será possível caso Lula abandone a desconfiança com o setor privado, o que classificou como “improvável” em ano de eleição. *Estagiária sob supervisão de Diogo Max