O game é primo distante do ‘Zork’; a bet é descendente direta do caça-níquel. Com a diferença de que, agora, o caça-níquel dorme na mesa de cabeceira Game Boy — Foto: Ricardo Leoni Pois pronto: estou viciada num joguinho. Me acontece com frequência, desde a época em que “Space Invaders” era um fenômeno cultural. E a “Trilogia de Zork”? “Zork” era um game que, contando hoje, ninguém acredita: a gente jogava por escrito. Você de um lado, o monitor do outro, letrinhas de fósforo verde que se formavam na tela escura. Não tinha gráficos. Era mais ou menos assim: “Você está de pé em uma sala vagamente iluminada. Há uma lanterna de latão aqui. As saídas levam para o Norte, para o Oeste e, improvavelmente, para cima.” — Examinar lanterna. “A lanterna parece pouco confiável, o que neste mundo geralmente significa indispensável.” — Norte. “Você caminha em direção à escuridão. Algo sai de mansinho. Você decide não perguntar o que era. Há uma caixa de correio aqui. Naturalmente, está vazia. Nada nestas cavernas está onde deveria estar, exceto o perigo.” Eram horas disso, horas. E era incrivelmente emocionante, porque, mais do que um jogo, “Zork” era uma ficção interativa, que se desenrolava de acordo com as nossas ações. A IA que me perdoe, mas parecia que havia vida lá, inclusive bem-humorada: “Zork” tirava sarro da gente. Isso tudo aconteceu no pré-cambriano, claro. O que me sequestrou por esses dias é algo mais trivial, um daqueles joguinhos perigosíssimos que parecem inocentes e, de repente, bum! já ficou escuro lá fora. É um jogo de combinação em versão restaurante: dois tomates viram pepino que, junto com outro pepino, vira cenoura, que com outra cenoura vira outra coisa, que vira outra coisa, que vira um prato que deve ser servido aos clientes para garantir moedinhas para comprar mais tomates e pepinos e cenouras e outras coisas. É tão envolvente que, quando você vê, está comprando cebolas virtuais com dinheiro real. Comentei o caso na rede social e, de repente, notei pelas respostas que há gente confundindo joguinhos com bets. É uma comparação que as bets se esforçam por criar, mas não é verdadeira. “Candy Crush” e o “Tigrinho” são animais bastante diferentes: nenhum joguinho jamais fingiu que era investimento. Joguinho é entretenimento: você paga por horas de prazer, como paga pelo cinema ou pelo streaming. Pode até jogar de graça, mas a ideia é que você queira comprar mais cebolas virtuais — e às vezes quer mesmo. Um game importante emprega mais gente do que um filme. O filme entra em cartaz e o trabalho está feito; games têm que se manter vivos, com novas fases e novas surpresas. Bet é outra coisa. Bet não vende cebolinhas, vende expectativas. Negocia com a esperança das pessoas. Não é entretenimento disfarçado de jogo: é extração bruta disfarçada de entretenimento. O Brasil proíbe cassinos físicos sob o argumento de proteger o cidadão de uma máquina profissional de ruína, mas liberou algo muito mais perigoso, o cassino portátil, disponível 24 horas por dia dentro do celular, sem constrangimento, sem porteiro, sem fechamento às duas da manhã. O game é primo distante do “Zork”; a bet é descendente direta do caça-níquel. Com a diferença de que, agora, o caça-níquel dorme na mesa de cabeceira.