Será que ainda veremos um site de jogos de azar batizar uma sala de espetáculos? Mulher com o jogo do tigrinho na celular — Foto: Leo Martins RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Grandes nomes da MPB lançaram uma campanha contra o vício em apostas online. O movimento alerta para os graves impactos financeiros e psicológicos causados pelas plataformas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O ator Tauã Delmiro, um dos mais criativos e talentosos da sua geração, fez um post recente no Instagram com a seguinte provocação: quanto tempo vai levar para que uma bet patrocine um musical de teatro? Quão constrangedor seria para um ator ter que, ao fim de uma apresentação, agradecer o investimento de uma determinada casa de apostas? Será que ainda veremos um site de jogos de azar batizar uma sala de espetáculos? O constrangimento se justifica: as bets são o novo cigarro, capazes de causar danos irreversíveis não ao pulmão, mas ao bolso e à mente dos usuários. O presidente Lula lançou uma cruzada contra as bets dizendo que, se dependesse dele, a atividade estaria banida do Brasil. A ofensiva chega um pouco atrasada: elas estão espalhadas por diversas atividades no país e arrecadam tanto imposto quanto o cigarro e o agro. Não há campo de futebol sem patrocínio de casa de apostas no gramado. As empresas do ramo já abrem a torneira do dinheiro na maioria dos times do times de futebol, no carnaval do Rio, no Réveillon de Salvador, nos festivais de música, nos anúncios de televisão, nos outdoors pela cidade. Ano passado, as bets faturaram a impressionante cifra de R$ 36,9 bilhões, cerca de dez vezes o orçamento do Ministério da Cultura para 2026. Com tanto poder, ocupam um lugar que foi das marcas de cigarro nos anos 1990 (Free Jazz Festival, Hollywood Rock) e das telefônicas nos anos 2000 (Tim Music Festival, Oi Noites Cariocas, Festival Telefônica Sonidos, Vivo Open Air). O dinheiro para cultura, eventos e esporte minguou ao mesmo tempo em que as casas de apostas apareceram balançando o saco de moedas. As bets já andam de mãos dadas, sem pudores, com a música sertaneja, como na Festa do Peão de Barretos. Mas agora, a pretexto da Copa do Mundo, esses sites desembarcam em várias arenas de transmissão de jogos espalhadas pelo Rio, com shows de alguns dos nomes mais famosos da música brasileira, uma escalação de fazer inveja ao técnico Carlo Ancelotti. Artistas estabelecidos, bem-sucedidos, deveriam se apresentar em eventos patrocinados por bets? Eis a questão. É ilegal? De forma alguma. Mas, cientes de toda a devastação que elas causam nos lares brasileiros, não é imoral? Essa semana, outros craques — Caetano Veloso, Djavan, Chico Buarque, Gilberto Gil, Marieta Severo e muitos outros artistas — lançaram a campanha “Dê um block no Tigrinho”, justamente numa tentativa de chamar a atenção do público para os perigos desses sites: 11 milhões de pessoas enfrentam problemas relacionados ao vício em jogo e 57% dos brasileiros endividados dizem que seus problemas começaram por causa das bets. O universo do jogo, muito sedutor, sempre contou com o carisma dos artistas. Eram eles que embalavam as noites dos cassinos da Urca e do Copacabana Palace enquanto as roletas rodavam. Onde quer que tenha um cassino, haverá alguém no palco. O que é Las Vegas se não um grande cassino com a Cher ou a Céline Dion cantando? Vez ou outra, quando ressuscitam a ideia de liberar o jogo no Brasil (alguém ainda acredita que é proibido?), algum deputado tira da cartola o argumento do número de empregos que seriam gerados para os cantores. Artistas precisam trabalhar mas, com tudo que já se sabe sobre os estragos que as bets são capazes de causar à saúde mental e financeira dos apostadores e suas famílias, é possível andar de mãos dadas com casas de apostas com a consciência tranquila?