Renzo Gracie, mestre de jiu-jitsu e amigo de famílias reais dos Emirados Árabes, está envolvido em uma polêmica sobre o uso de seu CPF em um contrato para a compra do Banco Master, liquidado pelo Banco Central. Gracie, sócio da Lerco Consulting, nega envolvimento e critica o banco como 'lixo petista'. A Lerco, junto com a Royal Capital e a Fictor, tentou adquirir o banco, mas o negócio não se concretizou. A Fictor pediu recuperação judicial em janeiro de 2026, alegando crise após a liquidação do Master.Treinador e amigo de integrantes de famílias reais dos Emirados Árabes, o mestre de jiu-jitsu Renzo Gracie é sócio da empresa que intermediou a relação entre sheiks do país e o banqueiro Daniel Vorcaro. Seu CPF foi usado por um sócio para assinar um contrato em que a Fictor e uma gestora de fundos de investimento dos Emirados declararam manter interesse no Banco Master mesmo após sua liquidação pelo Banco Central. Depois de semanas em silêncio sobre o assunto, ele resolveu falar com o Estadão. Chamou o banco de “lixo petista” e disse ter aconselhado investidores árabes a recuar nas negociações. “Já falei para cancelarem tudo.”PUBLICIDADEGracie foi procurado pela reportagem no dia 15 de abril. Prometeu falar no dia seguinte e, depois, sumiu. No dia 27, o Estadão mostrou que o CPF do lutador consta no contrato firmado entre a Fictor e a gestora árabe Royal Capital, que estavam conversando sobre uma oferta conjunta para comprar o Master, mesmo depois da liquidação do banco. Sediada em Abu Dhabi, a Royal Capital diz, em seu site oficial, que faz a gestão de fortunas de famílias ricas da região. Contudo, a gestora não disponibiliza informações financeiras, como os valores que tem sob administração.Renzo Gracie junto ao Sheik Tahnoon Bin Zayed, conselheiro de segurança nacional dos Emirados Árabes Unidos, membro da família real de Abu Dhabi e aluno de Gracie. Foto: Reprodução @renzograciebjj via InstagramO documento foi assinado digitalmente pelas partes. Quem intermediou o negócio foi o francês Eric Leandri. Como a lei brasileira obriga que o contrato seja assinado por alguém com CPF no Brasil, ele usou o registro de Gracie. PublicidadeÀ época o Estadão mostrou que Gracie é amigo de um sócio de Leandri, o português Ludgero de Souza, conhecido intermediador de negócios no mercado árabe. Contudo, novos documentos obtidos pelo Estadão indicam que a relação entre os três vai além da amizade.Gracie, Leandri e Ludgero são sócios na empresa Lerco Consulting, registrada em Abu Dhabi. No contrato entre a Fictor e a Royal para a compra do Master, o francês Leandri aparece como um representante da Lerco e assina com o CPF de Gracie. O trio detém participações similares na Lerco, de aproximadamente 33% cada.Após novo contato com o lutador, Gracie finalmente falou sobre o negócio. Começou a conversa negando tudo, até conhecimento sobre seu próprio CPF: “Meu advogado quer processar vocês… Só uma pergunta, qual é o meu CPF? pois ninguém ali tem, e nem eu sei o número”, disse. “Sou Bolsonarista, não me confunde com petista, PSOL e o resto desse lixo”, emendou. A reportagem exibiu o número ao mestre de jiu-jitsu. Gracie, então, admitiu ser sócio da Lerco e deu sua versão sobre a tratativa da compra do Master. Apesar de um de seus sócios ter assinado o contrato e a empresa ter feito as negociações, ele afirma que foi contra o negócio. Publicidade“Quando me chamaram para perguntar se era um bom investimento comprar o Master, eu dei três telefonemas e já me avisaram que era um lixo... E já aconselhei a Royal Capital a não comprar ou se envolver nesse roubo. Eu já fiquei sabendo que não era nada mais do que outro golpe no nosso País. E já falei para cancelar tudo sem nem sequer precisarem confirmar”, disse o lutador, que não detalhou quando essas consultas ocorreram. “Já falei para cancelarem tudo. E foi exatamente o que eles fizeram.”Gracie ainda completou: “A Fictor oferecia a liquidação dos bens desse Banco Master, a Royal Capital queria que nós avaliássemos se era um bom investimento. Simplesmente não valia a pena nem rever esse lixo petista”. O lutador não deu mais contexto sobre se divergiu dos próprios sócios, que foram até o fim nas negociações até dezembro, pouco antes de a Fictor pedir recuperação judicial sob a alegação de que tem R$ 4 bilhões em dívidas. Gracie tem influência no mundo árabe. É amigo e professor do sheik Tahnoon Bin Zayed Al Nahyan, conselheiro de segurança nacional dos Emirados e conhecido por ter adquirido quase metade de uma empresa de criptomoedas de Donald Trump. Somente Al Nahyan administra ativos que passam de US$ 1,3 trilhão. Foi Al Nahyan quem patrocinou eventos do MMA nos Emirados, com a presença de Gracie, que ajudou a popularizar o jiu-jitsu no país.PublicidadePUBLICIDADEAntes de falar com o Estadão, Gracie havia apenas falado publicamente sobre o Banco Master em suas redes sociais. “A explicação simples e clara do Banco Master, e quem são os beneficiados por essa fraude bilionária. Faz o ‘L’, otário”, disse o lutador, amigo do ex-presidente Jair Bolsonaro. A publicação foi feita em 24 de março, no perfil oficial de Gracie no X, um mês antes de o Estadão revelar o uso do CPF dele em contratos relacionados à venda do Master.Matérias RelacionadasTentativa de compra do Master envolveu sheik árabe, Temer, advogado preso e CPF de Renzo GracieEmpresa global de criptomoedas emprestou R$ 1,5 bi ao Master e agora cobra a dívida na JustiçaComissão e participação em lucrosO contrato pela aquisição do Master foi firmado pela Fictor, a gestora de investimentos Royal Capital e a Lerco Consulting, em dezembro de 2025, quando o banco havia sido liquidado e Vorcaro preso pela primeira vez. Não foi só o CPF de Renzo que foi usado para que um estrangeiro assinasse o termo. Como mostrou o Estadão, um diretor árabe da Royal Capital tem sua assinatura digital atrelada ao CPF de Ludgero, o terceiro sócio da Lerco, além de Renzo e Leandri. Ludgero tem negócios e CPF no Brasil, apesar de ser português. Procurado pela reportagem, o executivo da empresa não se manifestou. Se o negócio fosse consumado, a Fictor viraria dona do banco. Segundo o contrato, a Royal Capital, responsável por trazer dinheiro de fundos árabes, receberia lucros e dividendos do banco que seria originado da aquisição. PublicidadeA Lerco atuou como intermediária da Royal Capital no contrato. A empresa de consultoria receberia 2,5% sobre o valor da aquisição do banco. Também consta que a Lerco receberia lucros e dividendos da holding que se propôs a adquirir o Master. O negócio nunca foi consumado. A Fictor havia anunciado que adquiriria o Master em 17 de novembro de 2025, supostamente em parceria com investidores estrangeiros, como a Royal Capital. Naquele dia, Vorcaro foi preso. No dia seguinte, o Master foi liquidado. Mesmo assim, a empresa procurou o Banco Central e informou que manteve interesse na compra do banco de Vorcaro. Poucos meses depois, em janeiro de 2026, a Fictor pediu recuperação judicial. A empresa justificou a crise com a alegação de que sofreu uma corrida bancária, com investidores sacando recursos de seus fundos, ao ser envolvida na crise do Master.
Lutador Renzo Gracie diz ter orientado árabes a não comprarem Banco Master
Mestre de jiu-jitsu é sócio de consultoria que intermediou negociação pela compra do Master pela Fictor e gestora de investimentos dos Emirados Árabes. Renzo falou pela primeira vez sobre o assunto ao ‘Estadão’ e negou ter apoiado as negociações, apesar de sua empresa de consultoria ter firmado contrato para viabilizar a aquisição do banco















