Gerando resumoFoto: Taba Benedicto/ EstadãoMarcos TroyjoEconomista, diplomata e ex-presidente do Banco dos BricsO economista e diplomata Marcos Troyjo avalia que a nova ordem global oferece boas oportunidades para a economia brasileira. Ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco dos Brics, ele destaca que o mundo caminha para uma ordem que define como ESG 2.0, com a prevalência “de questões econômicas, segurança e geopolíticas”.“Você transforma o seu comércio numa arma, a sua moeda numa arma, as suas reservas naturais numa arma, que vão ser instrumentalizadas na mesa de negociação”, diz. “É muito difícil para a grande maioria dos países, mas, curiosamente, oferece boas oportunidades para o Brasil.”AGENDAVeja a programação do São Paulo Innovation WeekNa avaliação de Troyjo, nesse novo contexto global, o Brasil se beneficia da força do seu agronegócio e do seu estoque de terras raras, mesmo com todas as incertezas que vêm dos desequilíbrios macroeconômicos, sobretudo da parte fiscal. Publicidade“De repente, a gente tem uma carta importante nesse jogo também dos minerais críticos. Eu acho que isso pode ser uma grande alavanca para o Brasil”, diz. Troyjo será um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week, que ocorre de 13 a 15 de maio no Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado. O festival é uma realização do Estadão.Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com Troyjo.Quais são as consequências das mudanças provocadas pela administração Trump?Nós saímos de um tabuleiro intensivo em globalização para um tabuleiro intensivo em geopolítica. O que marca um pouco a ordem global é uma transição do ESG 1.0, com ênfase nos aspectos ambientais, sociais e de governança norteando países, empresas e indivíduos, para a ascensão do que eu chamo de ESG 2.0, com a prevalência de questões econômicas, segurança e geopolíticas. Nessa nova ordem, nessa nova fase, me parece que o cenário é muito desfavorável para a grande maioria dos países. PublicidadePor quê?Porque você tem muita insegurança alimentar, energética e na cadeia de suprimentos. Entra para o centro do palco o conceito de ‘weaponização’. Ou seja, você transforma o seu comércio numa arma, a sua moeda numa arma, as suas reservas naturais numa arma, que vão ser instrumentalizadas na mesa de negociação. Estamos com essas várias características. Tem também uma disputa e uma busca muito interessante por garantir acesso aos insumos fundamentais da ciência do século 21, que responde pelo nome de minerais críticos ou terras raras. Mais uma vez, é muito difícil para a grande maioria dos países, mas, curiosamente, oferece boas oportunidades para o Brasil.Poderia detalhar por que oferece boas oportunidades para o Brasil?Se olhar para as economias do G-7, grupo que se reúne desde os anos 70 e é composto por Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido, França, Itália e Canadá. Hoje, esse grupo de sete países industrializados ou pós-industrializados contribui menos para o crescimento da economia mundial. Eles contribuem menos para formatar e para moldar a demanda global do que aquilo que eu gosto de chamar de E-7, que são as sete economias mais determinantes do mundo emergente: China, Índia, Brasil, Indonésia, Turquia, México e Arábia Saudita. E isso tem implicações muito específicas, dadas as características de cada um dos participantes.Nova ordem global oferece boas oportunidades para o Brasil, diz Marcos Troyjo Foto: Gabriela Biló/EstadãoPor exemplo?Se você tem um país, como é o caso da China, com 1,5 bilhão de pessoas, crescendo a taxas muito expressivas há mais de 40 anos, isso tem um impacto, por exemplo, na demanda na qual o Brasil possui grandes vantagens comparativas tradicionais. Em 2001, a valor presente, tudo aquilo que o Brasil exportava para a China, somado a tudo aquilo que o Brasil importava dos chineses, dava o valor atual de US$ 1 bilhão por ano. Em 2026, o comércio entre o Brasil e a China é de US$ 1 bilhão a cada 48 horas. É uma evolução dramática. Há vários países que têm demografia encolhendo. Agora, ao longo dos próximos 25 anos, nove países vão ter um crescimento populacional muito robusto. É o caso da Índia, do Paquistão, da Indonésia. Quando há um crescimento populacional tão dramático, acompanhado de um crescimento econômico muito expressivo, isso, em geral, aumenta e multiplica a demanda por ingestão de calorias, nutrientes, proteínas e insumos para o fortalecimento infraestrutural. São áreas em que o Brasil tem vantagens comparativas muito importantes. Essa é uma vantagem que o Brasil tem nesse jogo. É uma carta que o País tem nesse jogo.E a área dos minerais críticos? No ano passado, os Estados Unidos buscaram impor barreiras comerciais às exportações chinesas. Até que, durante a negociação, os chineses optaram por restringir voluntariamente as suas exportações de minerais críticos para os Estados Unidos. Os americanos perderam o chão. Tiveram de correr. Estão indo para a África. Começaram a olhar para outras regiões. Eu tenho acompanhado muito as compilações feitas pelo United States Geological Survey, o estudo geológico dos Estados Unidos. E, quando eles fazem uma lista dos países que mais detêm minerais críticos, em primeiro lugar aparece a China, com essencialmente 40% daquilo que o mundo tem. E, em segundo lugar, com 23%, o Brasil. E o Brasil ocupa um patamar em que ele tem mais reservas comprovadas do que o terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo colocados juntos. De repente, a gente tem uma carta importante nesse jogo também dos minerais críticos. Eu acho que isso pode ser uma grande alavanca para o Brasil. PublicidadeO sr. desenhou um cenário muito positivo para o agronegócio brasileiro com a expectativa de crescimento populacional nesses países. O setor está preparado para lidar com essa nova demanda? CONTiNUA APÓS PUBLICIDADESe é verdade que esse movimento das placas tectônicas é muito positivo para o Brasil, o País também tem muitas deficiências. Tem enormes deficiências na infraestrutura. Temos muita dificuldade em portos, em armazenagem, em levar energia para as várias localidades. Agora, tem coisa jogando a favor do agro brasileiro. Por exemplo, se estivéssemos num mundo em que a comida é abundante, houvesse gigantescos mananciais de água à disposição de chineses e indianos, as intempéries que afetam o agro norte-americano não fossem tão graves, não houvesse guerra, nesse cenário, você olha para o Brasil, vê as dificuldades logísticas e fala: ‘Bom, é problema seu’. Agora, no mundo em que é o contrário de tudo isso que eu descrevi, em que existe uma enorme insegurança jurídica, se você tem um protagonista tão importante como é o caso do Brasil, com deficiência infraestrutural, deixa de ser um problema brasileiro, mas é um problema de várias pessoas, de vários atores. E qual a consequência disso?Na semana passada, saíram alguns números da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre o fluxo internacional de investimentos estrangeiros diretos. Se pegar os dois últimos anos do governo do presidente Bolsonaro e os dois primeiros anos do atual governo, você vai perceber que há um certo tipo de investidor que está fazendo a leitura correta do que está acontecendo no mundo. Está de olho em oportunidades que vão além do ciclo político-eleitoral, ou seja, das características de gestão econômica cotidiana deste ou daquele governo, olhando mais estruturalmente e alocando recursos no Brasil. Nesse período, nos últimos 48 meses, o Brasil foi o segundo maior destino de investimento estrangeiro direto do mundo. Ele ultrapassou a China. Está em segundo lugar em relação aos Estados Unidos. Agora, se analisar nesse período o que entrou nos Estados Unidos com percentual do PIB (Produto Interno Bruto) nominal e o que entrou no Brasil como percentual do nosso PIB, nós recebemos comparativamente mais investimentos. Dito isso, nós estamos fazendo um monte de barbeiragem macroeconômica. O governo não para de gastar, o produtor agrícola brasileiro tem de competir por crédito com um sujeito muito mais forte que ele, chamado governo central. Isso joga as taxas de juros lá para cima e evita que a autoridade monetária consiga, de maneira sustentada, baixar a taxa de juros. A carga tributária continua lá em cima. Hoje, nesse momento, não apenas o Brasil tem uma carga tributária maior do que a dos Estados Unidos, mas maior do que a da Suíça e praticamente igual à do Japão, que são países muito desenvolvidos. Esses problemas macroeconômicos não podem virar uma barreira para esse investidor?Você pode deixar o ambiente mais propenso à chegada do investimento ou menos propenso. Em alguns casos, ainda que o ambiente seja muito pouco propenso, dada a dificuldade de alternativas, o Brasil se torna indispensável. O investimento vem mesmo assim. A perdurar o atual ambiente geopolítico global, mesmo com as nossas várias mazelas, vamos continuar atraindo investimento. Isso é bom? É melhor do que nada. Hoje, temos 33% do nosso PIB como carga tributária. A média dos países emergentes é 19%. Entre a média das economias emergentes e o que a gente onera o brasileiro, são 14%. Se nós percorrermos a metade desse caminho, passar a carga tributária de 33% para 26%, você deixa 7% na sociedade, que podem ser absorvidos, por exemplo, na forma de investimentos em infraestrutura.PublicidadeO sr. mencionou a mudança no contexto internacional. Qual pode ser a consequência para o Brasil de um eventual acordo comercial entre EUA e China?Eu acho que os chineses estão menos abertos a colocar a segurança alimentar deles em risco ou permitir que os Estados Unidos modulem a sua negociação comercial de modo a favorecer o agronegócio americano como no passado. Se você pegar de 2001, ano em que a China é admitida na Organização Mundial do Comércio, até 2019, o principal exportador de alimentos para a China eram os Estados Unidos. De 2019 para cá, os Estados Unidos foram ultrapassados por um outro país, o Brasil. A minha impressão é que os chineses estão menos maleáveis e flexíveis a uma barganha em que eles têm de comprar mais dos Estados Unidos para conseguir outros benefícios e que, portanto, hoje o risco de haver um deslocamento importante do fluxo de venda de alimentos brasileiros para a China é menor do que já foi no passado.E como o Brasil pode ser pragmático nas relações com vários países num cenário em que o mundo está tão difícil?Nós precisamos privilegiar os nossos valores e utilizar o comércio exterior como uma ferramenta de enorme relevância para a construção da prosperidade nacional. Vamos ter de fazer mais negócios com a China, vamos ter de fazer negócios com outras regiões dinâmicas do mundo, com a Índia, com países como a Indonésia, que estão crescendo bastante, com os Estados Unidos. Nos últimos anos, o Brasil não aproveitou a oportunidade do mercado americano. Os Estados Unidos têm um PIB nominal de US$ 31 trilhões e importam 12% do seu Produto Interno Bruto. Ou seja, importam alguma coisa como US$ 3,6 trilhões, US$ 3,7 trilhões. O que o Brasil, antes mesmo do tarifaço, ocupava desse mercado? US$ 40 bilhões por ano. Ou seja, nós temos 1,1% do mercado norte-americano. Tínhamos de ter muito mais. Nós precisamos criar outras alternativas, sem diminuir o nosso fluxo para a Ásia. Hoje, por exemplo, de cada dois dólares que o Brasil exporta, um vai para a Ásia. Muita gente fica criticando a Europa, mas a União Europeia tem um PIB de US$ 23 trilhões. A União Europeia é a segunda maior economia do mundo, tem um PIB 15% maior do que o da China. Não conheço milagre econômico nos últimos 70 anos que não tenha sido turbinado por exportações, pelo comércio exterior. O Brasil tem uma boa chance de evitar ser ideológico. O grande interesse é aumentar a fatura do Brasil no comércio internacional.Qual deve ser o impacto do acordo entre Mercosul e União Europeia?É o maior acordo comercial da história da economia mundial. São 750 milhões de pessoas e US$ 25 trilhões. Esse é o tamanho do jogo que vai começar. PublicidadeEu acho que tem pelo menos seis impactos. Um é o aumento das exportações. Dois é o impacto do aumento das importações. Vai ficar mais barato entre outras coisas para consumidores do Mercosul ou para as empresas do Mercosul utilizarem fontes europeias para insumos, para os elos da sua cadeia de produção. Três, tem o impacto do investimento direto. Em geral, a gente percebe que, quando há um acordo comercial, aumenta também o fluxo transfronteiriço. Quatro, eu acho que vai ter um efeito sobre o setor de joint ventures.Também vai haver um impacto sobre a questão do financiamento. O Banco Europeu de Investimento, por exemplo, é o maior banco multilateral do mundo e, recentemente, aprovou uma diretriz que vai permitir que até 15% dos seus projetos anuais se direcionem para atividades fora da União Europeia. Naturalmente, a América Latina e o Brasil, como maior economia da região, têm muito a ganhar com isso. E eu diria também que existe um sexto efeito, que é sobre a dinâmica de reformas internas. Se você sabe que vai entrar debaixo de uma mesma lona com uma economia como é o caso da União Europeia, você tem de ser adaptado para isso. E, para se adaptar a isso, precisa continuar se reformando internamente.Leia também‘Inovação não é só tecnologia, é estar aberto ao novo que funciona’, diz Luiza TrajanoNão teremos um ChatGPT brasileiro, mas podemos ter soberania com aplicações de IA, diz Manoel LemosCrianças precisam de aprendizado digital para serem criadoras de tecnologia, diz Saulo MontrondO sr. comentou a importância do comércio internacional na transformação de países para o patamar de economia avançada. Como conduzir o processo de abertura da economia brasileira?Um pouco antes de assumir a Secretaria Especial de Comércio do Ministério da Economia, em 2018, eu utilizei uma ferramenta que o Banco Mundial tem e que serve para medir quanto um país importa ou exporta como percentual do seu Produto Interno Bruto. Em 2018, olhando para o nível geral de importação do Brasil como percentual do seu PIB, só três países daquela série de compilação tinham um percentual menor do que o do Brasil: Cuba, Sudão e Turcomenistão. O Brasil importa muito pouco. Mudou: o Brasil está importando mais e está exportando mais também. Num período recente, nós passamos da faixa de 30% do PIB. Mas pode ser muito mais. Tem um outro desafio que tem a ver com a abertura não apenas pela ótica comercial, mas pela inserção de empresas brasileiras em outras jurisdições. Por exemplo, se somar o que os Estados Unidos importam e aquilo que exportam, dá mais ou menos 25% do PIB. É claro que, no conjunto, os Estados Unidos são a segunda maior nação comerciante do mundo. Perdem apenas para a China. Agora, quando se olha para o número de multinacionais, os EUA são o país que tem o maior número de multinacionais. Há várias maneiras de se medir esse grau de abertura. No caso do Brasil, nós somos ainda muito ensimesmados. É pequeno o número de empresas de capital majoritariamente nacional que estão espraiadas pelo mundo. Publicidade