Entrevista Marcos TroyjoEx-presidente do Banco do Brics fala dos desafios do agronegócio na nova ordem global. Crédito: edição: Larissa KinoshitaGerando resumoO Brasil permanece como um dos principais destinos de investimento estrangeiro direto do mundo, mas o perfil desses recursos vem mudando gradualmente, à medida que o funcionamento da economia doméstica também se altera.PUBLICIDADEDados do Banco Central (BC) sobre o Investimento Direto no País (IDP) apontam direcionamento maior desses recursos para o setor de serviços e queda da participação relativa da indústria e do setor primário — que inclui agropecuária e extração mineral — nos últimos anos.Em 2025, o País recebeu US$ 77 bilhões em investimentos estrangeiros diretos, alta de 23% em relação ao ano anterior, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O volume colocou o Brasil como o terceiro principal destino global de investimento estrangeiro, atrás só de Estados Unidos e China.Considerando apenas o investimento na participação no capital das empresas — que desconsidera aplicações em carteira e tende a refletir melhor os investimentos produtivos —, o IDP somou US$ 44,366 bilhões em 2025, conforme dados do BC. Desse total, US$ 25,398 bilhões, o equivalente a 57,2%, tiveram como destino o setor de serviços.PublicidadeLeia tambémBrasil fica para trás e amplia distância de PIB per capita em relação ao mundoLeilão de energia abre disputa bilionária, pressiona governo Lula e pode encarecer conta de luzNa média dos últimos cinco anos, os serviços concentraram 60,7% do fluxo anual de IDP, participação cerca de 10 pontos porcentuais superior à registrada nos cinco anos anteriores, de 2016 a 2020 (50,18%). O movimento foi acompanhado pela redução da fatia da indústria (30,9% para 27,25%) e do setor primário (18,5% para 11,20%).A mudança acompanha transformações no funcionamento da economia brasileira, cada vez mais apoiada no setor de serviços. Para o sócio e economista sênior da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto, o movimento é natural diante do peso crescente da prestação de serviços no Produto Interno Bruto (PIB). “À medida que o País melhora seu nível de renda média, o setor de serviços é o que mais se beneficia disso. E o investidor externo está de olho nesse movimento”, afirma.Segundo ele, a transformação tecnológica também ajuda a explicar esse avanço, por conta da demanda crescente por serviços ligados à Tecnologia da Informação (TI). Os dados do BC mostram que a média anual de IDP destinada aos serviços de TI cresceu cerca de 70% em valores nominais na comparação do quinquênio de 2016 a 2020 (US$ 1,026 bilhão) com o de 2021 a 2025 (US$ 1,717 bilhão).Entre as categorias de serviços que mais viram o fluxo estrangeiro aumentar, porém, o principal destaque são os serviços financeiros. Nesta atividade, segundo o BC, o IDP anual médio praticamente dobrou, saindo de US$ 930 milhões entre 2016 e 2020 para US$ 1,89 bilhão nos cinco anos seguintes. Publicidade“Houve uma expansão enorme desse setor”, destaca o coordenador de Relações Internacionais e Integração do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), André Pineli. “Hoje, o banco com o maior valor de mercado no Brasil é o Nubank, que nem existia há 10 anos e tem uma participação estrangeira grande no capital”, exemplifica.O pesquisador do Ipea ainda avalia que, nos demais setores, as mudanças no fluxo de IDP têm sido mais sutis e ligadas a ciclos ou eventos conjunturais. Na indústria, Pineli diz que boa parte da perda relativa no IDP total acompanhou a dinâmica da produção automobilística. Ele lembra que, na década passada, o governo federal lançou o “Inovar Auto” para incentivar a produção nacional, diante do avanço de importados. “Atraiu investimentos, mas o fluxo se esgotou com o fim do programa e depois com a pandemia”, destaca.No setor primário, ele diz que a redução da participação relativa no IDP total está ligada ao ciclo de investimentos em petróleo, que ganhou tração na década passada após a descoberta do pré-sal. “Com o pré-sal já em maturação, esses investimentos caíram”, justifica.PublicidadeEntre as categorias de serviços que mais viram o fluxo estrangeiro aumentar, o principal destaque são os serviços financeiros Foto: Rafael de Matos Carvalho/Adobe StockBrasil bem posicionadoPUBLICIDADEEspecialistas avaliam que o Brasil continua bem posicionado para atrair capital estrangeiro, a despeito de mudanças no perfil dos investimentos. Fatores históricos, como o tamanho do mercado consumidor e infraestrutura, se somam a elementos como maior previsibilidade institucional e à percepção de que o Brasil oferece segurança em um cenário global cada vez mais fragmentado.O sócio e economista sênior da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto, diz que o País convive com baixa taxa de poupança doméstica, o que amplia a necessidade de capital externo.Para o coordenador do Ipea, André Pineli, embora o Brasil seja aberto ao investimento estrangeiro, mantém tarifas elevadas para diversos produtos importados. Na prática, isso incentiva multinacionais a instalarem produção local para acessar o mercado consumidor brasileiro.Em nota enviada ao Estadão/Broadcast, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) reforçou que o momento é favorável ao Brasil para o fluxo de capital estrangeiro, citando condições de powershoring (produção de energia abundante e barata), neutralidade geopolítica e estabilidade democrática.Publicidade“Novos investimentos demonstram a confiança nos fundamentos econômicos e capacidade do País honrar contratos, com estabilidade regulatória e mercado que propicia escala suficiente para justificar a expansão produtiva”, argumentam.Se o cenário já é positivo, o Brasil pode se tornar ainda mais atrativo ao combinar vantagens em agendas que tendem a ganhar peso na economia global, como energia limpa, data centers e minerais críticos. A leitura de analistas e do setor produtivo é que o País reúne atributos difíceis de replicar, como escala de mercado, abundância energética e base relevante de recursos minerais. O desafio maior, portanto, é estabelecer marcos regulatórios e viabilizar a agregação de valor a essas novas cadeias.Também em nota, o Ministério da Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) destacou que as políticas adotadas pelo governo federal buscam adensar tanto as cadeias de bens como as de serviços, sendo a transformação digital uma das missões prioritárias. “Sobre minerais críticos e terras raras, em alguns casos o Brasil se posiciona entre as maiores reservas do planeta, sendo natural o aumento do interesse do investidor externo nesse setor. Ao Brasil interessa não apenas a exploração do minério, mas o desenvolvimento de cadeias produtivas associadas, com agregação de valor”, preveem.Na última semana, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, conhecido como PL das Terras Raras, que estabelece os primeiros marcos regulatórios da atividade e definições de políticas de crédito e incentivo ao setor. PublicidadeO governo também tenta, desde o ano passado, aprovar o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), que incentiva a instalação de data centers em território nacional.