Há sinais consistentes de que um fenómeno El Niño forte — potencialmente comparável aos episódios de 1997-98 e 2014-15 — se está a formar no Pacífico. Ricardo Trigo, climatólogo, geofísico e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explica por que razão os modelos convergem nessa previsão, o que significa para o clima global e porque é que, na Europa, o fenómeno tende a ser secundário face ao impacto das alterações climáticas.Sobre Portugal, o cientista avisa que o mais importante é olhar para o risco de incêndios, especialmente acrescido depois do comboio de tempestades do início do ano. Um ano quente ou talvez um dos mais quentes de sempre, como prevêem alguns modelos, só vai piorar a situação grave que enfrentamos em 2026.Há uma previsão de um fenómeno El Niño potencialmente muito forte. O que é que os modelos estão a mostrar?Nesta área, os modelos até têm alguma qualidade. Quando vemos praticamente todos a apontar para um El Niño entre forte e muito forte, a probabilidade de isso acontecer é elevada. É um fenómeno acoplado entre oceano e atmosfera, mas quem domina é o oceano. Temos uma enorme anomalia de água muito quente a deslocar-se desde a zona da Austrália e Indonésia em direcção à América do Sul, atravessando o Pacífico em profundidade — a 50, 100, 150 metros. Já se vêem anomalias positivas à superfície, mas a massa de água quente vai emergir já perto do Peru e depois estender-se por todo o Equador Central.Podemos falar de “super El Niño”?Há alguma probabilidade de ser um dos mais fortes registados nas últimas décadas. Comparável aos de 1997-98 ou 2014-15. Se será mais forte do que esses, não podemos ainda dizer. O de 2023-2024 não foi tão forte como esses.As previsões variam consoante as instituições. Porquê essa disparidade?Porque nem todas estão a olhar exactamente para o mesmo sítio ou para o mesmo indicador. El Niño é monitorizado em várias regiões do Pacífico — as chamadas zonas Niño 1, 2, 3 ou 3.4 — e a intensidade pode variar entre elas. As zonas 3 e 4 são as mais centrais; as 1 e 2 ficam mais perto da costa. Um El Niño muito forte junto à costa não é necessariamente forte na zona central do Pacífico, e vice-versa.Além disso, cada modelo usa metodologias diferentes. Acresce que uns estão a olhar para previsões de Março, outros de Maio. Ainda assim, no conjunto, o sinal é muito consistente. Tudo visto e ponderado, o centro com maior qualidade de previsão continua a ser o Centro Europeu de Previsão de Tempo a Médio Prazo, o ECMWF.
“Portugal pode estar a salvo do El Niño. Não das alterações climáticas e do fogo”
Ricardo Trigo, climatólogo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, avisa que um El Niño potencialmente histórico se aproxima — mas que para Portugal o maior perigo está nos incêndios.













