Em outras palavras, é praticamente certo que o fenômeno se desenvolverá na segunda metade do ano. Atualmente vários jornais vêm noticiando a previsão de um El Niño de forte intensidade para o período 2026-2027. Mas é possível prever a intensidade do fenômeno com tanta antecedência? A verdade é que a previsão da intensidade do El Niño para a próxima primavera de 2026, atualmente, é motivo de especulações e, às vezes, de informações sensacionalistas. Os modelos acoplados de última geração permitem prever a evolução do El Niño com meses de antecedência, estimando as anomalias na temperatura do ar e seus possíveis impactos, o que possibilita a adoção de ações preventivas em áreas estratégicas. Por outro lado, modelos complexos que simulam o oceano e a atmosfera permitem prever, com antecedência de 1 a 3 meses, os possíveis impactos com precisão. Mas previsões com prazos maiores podem apresentar mais incertezas e levar a prognósticos incorretos. Vídeos em alta no g1 Primeiras observações do El Niño No século XIX, pescadores do norte do Peru e do Equador observaram, em algumas ocasiões próximas ao Natal, que um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial impactava a pesca, o que foi interpretado como um “sinal” para deixar de trabalhar e celebrar o nascimento do “El Niño” Jesus, dando, assim, nome ao fenômeno. Mais tarde, na década de 1920, o cientista Gilbert Thomas Walker (1868-1958) identificou que este fenômeno estava associado a diferenças na pressão atmosférica observadas entre regiões do Oceano Pacífico, bem como a mudanças na velocidade dos ventos na região equatorial, que, por sua vez, alteravam as correntes oceânicas que regulam a temperatura do mar. A partir da década de 1980, o fenômeno passou a ser extensamente estudado, após o El Niño intenso de 1982-83. O que é El Niño? El Niño é um fenômeno climático-oceânico que ocorre no Oceano Pacífico tropical, quando as águas da região equatorial centro-leste do oceano ficam mais quentes do que o normal. Ele faz parte de um ciclo natural chamado El Niño – Oscilação Sul (ENOS) e pode afetar o clima em todo o mundo. Neste ciclo ENOS, o oposto do El Niño é a La Niña, que consiste no resfriamento das águas superficiais no centro-leste do Oceano Pacífico tropical. Na América do Sul, o ENSO também causa alterações na precipitação e na temperatura, embora de forma distinta em cada região. Entre os vários impactos do El Niño, destacam-se o aumento das chuvas no sul do Brasil e ao longo do litoral do Peru e do Equador; secas na Amazônia e no Nordeste brasileiro; maior frequência de ondas do calor no centro do Brasil; menor frequência de furacões no Atlântico Norte; e aumento das temperaturas globais. Grandes secas na Amazônia ocorreram durante anos de El Niño: 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24. No entanto, secas também ocorreram na ausência do El Niño, como em 1963 e 2005 na região amazônica e em 2012 no Nordeste do Brasil, estas relacionadas à variabilidade da temperatura da superfície do mar (TSM) no Atlântico tropical Norte. Estudos conduzidos na década de 1990 precisam ser atualizados, considerando o El Niño e a nova realidade das mudanças climáticas. Além disso, o monitoramento contínuo torna-se fundamental para compreender o que está acontecendo no presente e, portanto, o que pode acontecer no futuro. El Niño e desastres relacionados ao clima O El Niño não causa desastres climáticos diretamente, mas aumenta ou reduz a probabilidade de eventos extremos no Brasil, o que permite subsidiar a elaboração de previsões de risco com antecedência. Chuvas intensas ou ondas de calor podem ocorrer com ou sem atuação do El Niño, embora o estabelecimento deste fenômeno possa aumentar as chances e os impactos, como aconteceu em 2023 e 2024, quando eventos combinados de calor e seca intensificaram a quantidade de incêndios de vegetação na Amazônia e no Pantanal, e quando mais de 200 botos-cor-de-rosa morreram devido ao estresse térmico. No Sul do Brasil, inundações generalizadas impactaram o estado do Rio Grande do Sul na primavera de 2023 e no outono de 2024. Ressalta-se que os riscos de desastres dependem não somente da ameaça de fatores climáticos extremos, mas também da exposição e da vulnerabilidade da população, bem como da capacidade de proteção e das ações de mitigação. El Niño em 2026-2027 Atualmente, a previsão indica que haverá a atuação de um novo El Niño entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Mas no momento as previsões sobre a sua intensidade ainda carecem de confiabilidade. Segundo fontes oficiais e autorizadas, atualmente há 25% de chance de ocorrer um El Niño de intensidade forte e outros 25% de probabilidade de se configurar um fenômeno de intensidade muito forte, o que ocorre quando a temperatura na porção central do Oceano Pacífico supera em mais de 2°C o valor normal. Contudo, o Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI), outro dos institutos internacionais mais renomados no tema, destaca que as previsões feitas nesta época do ano apresentam alta incerteza quanto à intensidade do ENOS. Desta forma, será necessário aguardar até o próximo inverno para dispor de previsões mais precisas sobre a intensidade e os possíveis impactos do El Niño em desenvolvimento. Finalmente, é importante ressaltar que a previsão climática sazonal para o trimestre de maio a julho não indica uma influência clara do El Niño nas precipitações no Brasil. Outro aspecto relevante é que não há relação direta entre a intensidade do fenômeno e a gravidade de seus impactos, embora, normalmente, durante episódios mais intensos, a influência do El Niño (aumento da chuva no sul e diminuição no norte do Brasil) se torne mais evidente. Algumas notícias recentemente divulgadas apontam secas severas na Amazônia e no Nordeste brasileiro, assim como chuvas com potencial catastrófico na Região Sul. Mas não estão sustentadas por dados científicos confiáveis e, em muitas ocasiões, resultam de meras especulações. *Regina Célia dos Santos Alvalá é diretora do Cemaden. *José Antônio Marengo é coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden. *Marcelo Seluchi é doutor em Ciências Meteorológicas na Universidade de Buenos Aires. **Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.