Gerando resumoEm mais um movimento que tirou ativos podres de seus balanços, o banco Digimais, do líder da Igreja Universal, Edir Macedo, cedeu uma carteira de financiamentos veiculares que incluía até contrato rescindido judicialmente porque o carro vendido era roubado. A carteira foi repassada a um pastor de outra igreja em um negócio complexo envolvendo fundos de investimentos. Em troca, o banco devia investir em um negócio que envolvia a venda de imóveis por meio de crédito consignado. Mas o banco não teria depositado cerca de R$ 30 milhões prometidos. O bispo Edir Macedo: seu banco repassou carteiras alta inadimplência em financiamento de carros Foto: DivulgaçãoPUBLICIDADEComo mostrou o Estadão, nos últimos dois anos, o banco repassou centenas de milhões de reais em carteiras que dariam prejuízo a fundos de investimentos dos quais o Digimais é o próprio cotista. A manobra dificultou o trabalho de auditores independentes e fez com que eles não conseguissem tirar conclusões sobre pelo menos R$ 3 bilhões em investimentos do banco, que declarou lucro de módicos R$ 31 milhões em 2025. As principais carteiras envolvidas nessas transações com fundos são as de financiamentos de veículos de carros. Como mostrou o Estadão, somente uma delas tem inadimplência que beira os 50% dos financiamentos - percentual considerado crítico no mercado. Não são só os maus pagadores. Como o banco financia carros usados, alguns bem antigos, há um alto índice de processos em que os compradores pedem rescisão dos contratos. Leia tambémBanco de Edir Macedo passa carteira podre a fundos e esconde prejuízo multimilionárioUm desses casos que viraram briga nos tribunais é o do fotógrafo Rodrigo Menezes Martins, da Vila Jacuí, na zona leste de São Paulo. Ele decidiu ir à Justiça após comprar um carro que não saía do mecânico. Ele obteve indenização de R$ 5 mil a título de danos morais porque ainda descobriu que foi monitorado pelo revendedor credenciado pelo banco com um rastreador escondido no veículo. Era um Corsa 2013, comprado em 2024 por R$ 30,9 mil. Na época, Martins queria trabalhar com entregas e como motorista de aplicativos.Publicidade“Rodei uma semana, a junta queimou. Consertaram e rodei mais uma semana e a junta queimou de novo. Aí eu falei: ‘Aí tem coisa errada, eu não quero ir mais nesse carro.” Martins tentou desfazer o negócio, mas a revenda se negou a devolver o dinheiro e o banco passou a cobrar o financiamento.A Justiça suspendeu a cobrança. O carro dorme em sua garagem desde então. O motor não liga. Mesmo assim, as cobranças nunca pararam. “O Digimais cedeu o contrato a outra empresa. Já faz dois anos que eu estou parado nessa situação. E ele (o banco) só me cobrando. Só me cobrando e indo contra a ordem judicial. Até hoje.”Já o técnico de instalação de sistemas de segurança Rafael Cascardi, de São Bernardo do Campo, comprou um Celta, ano 2014, de um revendedor credenciado com financiamento no Digimais. Foi parado pela polícia porque o carro era roubado. Conseguiu na Justiça a rescisão do contrato.“Estava com o carro há apenas 15 dias quando a polícia me parou falando que o carro era “dublê”, que só tinha a placa do carro real, mas o chassi e o motor eram de um outro carro, que tinha sido furtado”, disse Cascardi.PublicidadeA exemplo de Martins, Cascadi moveu ação contra o banco. Mas nos dois casos o Digimais não responde mais a esses processos judiciais. Em seu lugar, quem trava a disputa, agora no Tribunal de Justiça, para reverter a condenação do Digimais, é a empresa Hatikvah Participações.Ela tem como sócio o empresário do mercado financeiro e pastor Tiago Gouvêa, que atua principalmente no ramo de consignados. Ele também é pastor de uma igreja evangélica, chamada Alive Church, que não tem relação com a Universal. Sua empresa leva o mesmo nome do centro de eventos que aluga para cultos, o Hatikvah Hall. O Corsa comprado por Rodrigo Menezes Martins: veículo financiado pelo Digimais está parado há dois anos na garagem esperando decisão da Justiça Foto: Felipe Rau/EstadãoA Hatikvah Participações recebeu do Digimais, os direitos creditórios de uma carteira de financiamentos veiculares, no dia 30 de dezembro de 2025. Segundo um contrato obtido pelo Estadão, a empresa comprou a carteira por R$ 255 milhões. Em troca dela, a Hatikvah cedeu, inicialmente, ao banco 35% do Fundo de Investimentos em Participações (FIP) Hatikvah. Hoje, o banco já é dono de 97% do fundo, que, em sua carteira, investe em duas empresas de empreendimentos imobiliários de Gouvêa. O fundo declara que os aportes são de R$ 711 milhões. A operação é complexa. Na prática, ao averiguar a carteira do fundo, o auditor vai se deparar apenas com o investimento do banco em duas incorporadoras. O fundo Hatikvah é novo e ainda não tem demonstrações financeiras auditadas disponíveis na base de dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), onde esse tipo de documento usualmente é analisado. PublicidadePUBLICIDADEMas o negócio faz com que os contratos de financiamento feitos pelo Digimais agora sejam cobrados pela empresa de Gouvêa. A empresa também vira titular de ações judiciais relacionadas a eles e precisa processar devedores para obter sentenças ou acordos pela quitação dos empréstimos. Procurado pelo Estadão, o empresário afirmou que ofereceu ao Digimais a operação de empréstimos consignados a servidores públicos de municípios com os quais ele já tem contrato. O negócio, segundo ele, envolve a possibilidade de servidores usarem o crédito para financiar imóveis, que estão em construção nessas cidades e pertencem às duas empresas de empreendimentos imobiliários de Gouvêa. Contrato mostra como o Digimais é cotista do fundo que investe na empresa que comprou sua própria carteira de financiamentos veiculares. Foto: ReproduçãoGouvêa disse que recebeu a carteira de empréstimos consignados como parte do pagamento do banco. Ele afirma que o Digimais devia ainda investir cerca de R$ 30 milhões no negócio. No entanto, freou toda a operação do consignado em meio à tentativa de venda ao BTG Pactual, mais recente pretendente à aquisição do banco. Afirmou ainda que está até hoje com a carteira, que tem alta inadimplência e que acredita ter tomado prejuízo com o negócio, mesmo após o negócio ter sido encerrado, pois o banco não pagou os R$ 30 milhões prometidos. Em dezembro de 2025, O Digimais declarou apenas ter investido R$ 1,7 bilhão em Fundos de Investimentos em Participações (FIPs), como é o caso do Hatikvah. Na base de dados da Comissão de Valores Mobiliários, não constam laudos de auditoria do fundo. À época, em sua carteira, constavam apenas investimentos em letras do Tesouro. A auditoria do banco afirma que havia R$ 997 milhões em FIPs que ainda não tinham apresentado demonstrações financeiras para serem escrutinadas. Publicidade