O avanço dos criptoativos no sistema financeiro brasileiro deve passar menos pela substituição de meios de pagamento já consolidados, como o Pix, e mais pela integração com bancos, cartões, remessas internacionais, crédito e produtos financeiros programáveis. A avaliação foi feita por executivas de Nubank, Visa e Santander em painel sobre o "Futuro do Dinheiro" na primeira edição do São Paulo Innovation Week, realizada no prédio da FAAP, em São Paulo. Para Sabrina Zapparoli, especialista sênior em políticas públicas da Nubank, no Brasil não precisa dos ativos virtuais para resolver pagamentos do dia a dia, uma vez que o Pix já atende a essa função com escala, rapidez e custo menor. Na visão dela, o espaço para cripto está em outras aplicações, como remessas internacionais, interoperabilidade e uso de ativos digitais em produtos financeiros.“Aqui a gente pensa em pessoa física e pessoa jurídica. Tem espaço para melhorar a experiência em remessas para o exterior, mas os ativos não vêm para resolver uma questão de pagamento. O Pix faz isso melhor”, disse a executiva do Nubank. Segundo Zapparoli, a programabilidade pode reduzir custos em cadeias hoje dependentes de vários intermediários, como custodiantes, depositários e registradores. Ela também citou a possibilidade de uso da tecnologia para reduzir risco em operações de crédito, com impacto potencial sobre o custo do dinheiro. No debate, as participantes afirmaram que o setor deixou de ser um nicho restrito a usuários com maior domínio técnico e passou a se aproximar de produtos financeiros tradicionais. Zapparoli disse que, anos atrás, era preciso “dominar tecnologia” para comprar bitcoin ou transitar em ambientes descentralizados, enquanto hoje o acesso está mais simples. A diretora de cripto da Visa, Antonia Souza, afirmou que a experiência de uso no universo cripto “nunca foi a mais fácil” e que a atuação de empresas de pagamento tende a se concentrar na conexão entre o mercado cripto e o financeiro tradicional. Segundo ela, stablecoins já vêm sendo usadas em programas de cartões no mundo e podem ganhar espaço em pagamentos internacionais, especialmente em operações entre empresas. “O caminho que a gente está vendo, por conta da regulação, é o dos bancos tendo soluções dentro de casa para que o cliente possa comprar cripto para viajar, por exemplo. Em cross-border, principalmente B2B, faz diferença ter uma solução de pagamento em tempo real”, disse Souza. A executiva também afirmou que parte desse uso pode ocorrer de forma invisível para o cliente final. “Muitas vezes vocês vão começar a utilizar esses produtos e nem saber que estão utilizando stablecoin”, afirmou. Pelo Santander, a especialista em produtos de ativos digitais Isabelle Justino disse que a adoção no setor bancário tem sido cuidadosa e acompanhada de perto pela evolução regulatória. Segundo ela, a instituição observa aumento do interesse de clientes mais jovens por criptoativos, inclusive adolescentes perguntando quando poderão investir nesse tipo de ativo. A executiva também citou a possibilidade de conectar ativos digitais a produtos tradicionais, inclusive em operações de crédito. Um dos exemplos mencionados foi o uso futuro de bitcoin como garantia em uma operação, o que poderia permitir crédito mais rápido ou mais barato ao cliente. As participantes também citaram a regulação como fator relevante para ampliar a participação institucional no mercado. Zapparoli afirmou que o processo regulatório tende a trazer “segurança e robustez” ao setor, ao mesmo tempo em que exige das empresas estruturas de compliance, prevenção a fraudes e controles semelhantes aos já adotados no mercado financeiro tradicional.
Com Pix consolidado, cripto avança nos bastidores de bancos e cartões, afirmam especialistas
Regulação também é fator relevante para ampliar a participação institucional no mercado de ativos digitais








