O artista plástico, arquitecto, ilustrador e cartoonista João Abel Manta morreu esta sexta-feira, em sua casa em Lisboa, aos 98 anos, confirmou ao PÚBLICO fonte próxima da família. João Abel Manta fez muito em muitas áreas, como o projecto do Conjunto Habitacional na Avenida Infante Santo, em Lisboa, os desenhos para as tapeçarias do Salão Nobre da sede da Fundação Calouste Gulbenkian ou as ilustrações para A Cartilha do Marialva, de José Cardoso Pires. Mas, o que talvez toque mais fundo o imaginário português, definitivamente desenhou os contornos da Revolução do 25 de Abril em cartoon.Sempre activo mas já resguardado da vida pública há algum tempo, segundo a mesma fonte próxima da família, João Abel Manta deixa um legado multidisciplinar que atravessa décadas da criação artística portuguesa e da defesa da democracia.Dizia o jornalista Baptista-Bastos, nas páginas do PÚBLICO a 24 de Abril de 1999, que Manta não gostava que lhe chamassem o “cartoonista da Revolução”. Mas é com essa linha, grossa ainda por cima, que se descreve inevitavelmente o trabalho deste artista plástico multipremiado, militante no MUD Juvenil, autor do ziguezaguear da calçada portuguesa da Praça dos Restauradores ou do mural de azulejos da Avenida Calouste Gulbenkian. A mesma linha negra que sublinhava, logo após o 25 de Abril, que “O Povo está com o MFA”, cartaz que até hoje se vende por aí para celebrar a aliança entre os portugueses democratas e o Movimento das Forças Armadas, pivô do golpe que deitou abaixo o Estado Novo.João Abel Manta nasceu em Lisboa a 28 de Janeiro de 1928, filho de pintores – Abel Manta e Maria Clementina de Moura Manta, que eram também professores do ensino técnico, amigos do escritor Aquilino Ribeiro e ávidos viajantes. Até ao início da Segunda Guerra Mundial, viajou com eles pela Europa e viu Benito Mussolini em pessoa numa dessas saídas, em Veneza, e a Guernica de Pablo Picasso na Exposição Mundial de Paris de 1936. Estudou Arquitectura na então chamada Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, licenciando-se em 1951. Poucos anos depois, os seus cartoons começaram a surgir na imprensa portuguesa.Soube do 25 de Abril na manhã desse dia de 1974 e quando chegou à redacção do extinto jornal Diário de Lisboa confirmou que era “um golpe de esquerda. Fiquei tão entusiasmado que nunca mais parei – comecei, nesse mesmo dia, a fazer tantos bonecos que até sobravam para o dia seguinte!”, disse a Baptista-Bastos em 1999.“Nunca mais parei durante um ano, era bonecada que aparecia no Diário de Lisboa, no Diário de Notícias”, contou então. “Desenhava freneticamente. Fazia aqueles cartazes todos para as campanhas de dinamização cultural.”