António de Alcântara Machado nasceu com o século, em 1901, e em 1927 lançou um livro atípico e heterogêneo, Brás, Bexiga e Barra Funda, que retorna ao nosso panorama literário em edição fac-similar.

O autor, um prodígio – foi jornalista, cronista, crítico literário e teatral, historiador e fundador de periódicos – que morreu aos 33 anos, de apendicite, era um colecionador de notícias pitorescas. Ele fazia esse garimpo diariamente, onde quer que estivesse. “Vocês não sabem ler jornais”, ele dizia aos amigos sempre que os via impressionados diante de um recorte retirado de sua coleção.

Os 11 contos de Brás, Bexiga e Barra Funda – com destaque para clássicos como “Gaetaninho”, “Carmela” e “Corinthians (2) vs. Palestra (1)” – estão carregados de uma energia citadina que, à distância de cem anos, parece bucólica e simples, mas que, à época, era intensa, errática e inovadora:

“As bananas na porta da QUITANDA TRIPOLI ITALIANA eram de ouro por causa do sol”, escreve o narrador – “O Ford derrapou, maxixou, continuou bamboleando. E as chaminés das fábricas apitavam na Rua Brigadeiro Machado”.

Nascido um pouco antes, em 1899, na periferia de Voronej, na Rússia, Andrei Platonov começa a publicar seus primeiros contos na mesma época que Alcântara Machado, ou seja, em fins da década de 1920.