‘Estamos vendo o início de uma autocracia nos Estados Unidos’, diz ex-jornalista do Washington PostA jornalista americana Ruth Marcus destaca rachadura no sistema de freios e contrapesos nos Estados Unidos. Crédito: Ruth MarcusVocê provavelmente leu essa notícia nos últimos dias. Pela primeira vez em 50 anos, os Estados Unidos deixaram de ser considerados uma democracia liberal.PUBLICIDADEA pesquisa foi conduzida por um projeto chamado V-Dem. O principal indicador utilizado pelo estudo registrou uma queda de 0,75 em 2024 para 0,57 em 2025 – uma redução de 24% num único ano. Para efeito de comparação: esse patamar é equivalente ao de 1965.Os Estados Unidos caíram da 20ª para a 51ª posição entre os 179 países analisados.O instituto classificou essa erosão como algo sem paralelo moderno: a velocidade da autocratização americana supera não só a do primeiro mandato de Trump, mas a de Putin, Erdogan e Orbán nos seus primeiros anos de consolidação de poder.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acompanha a operação militar americana contra o Irã em Palm Beach Foto: Daniel Torok/AFPTrazer essa discussão para essa coluna não é uma tarefa fácil.PublicidadeNo atual debate público brasileiro, “democracia” funciona menos como um conceito político substantivo e mais como um marcador de tribo. Para uma parcela significativa do eleitorado – sobretudo mais à direita – a palavra foi capturada por um circuito específico de “especialistas”: o analista político do canal de notícias, o colunista do jornal tradicional, o professor universitário que invoca a expressão não para descrever um arranjo institucional concreto, mas como sinônimo implícito de “conjunto de valores do meu grupo político”.Quando um especialista sugere que algo é “uma ameaça à democracia”, o ouvinte cético já não escuta uma descrição de risco. A expressão virou propriedade de uma facção – um termo pretensamente universal, mas que, na prática, é muitas vezes alardeado de modo seletivo, aplicado com rigor a certas violações e convenientemente ignorado em outras.Portanto, é compreensível que uma parte dos leitores reaja à notícia da queda da qualidade democrática nos Estados Unidos de modo cínico.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caminha pela Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/APO problema é que o esvaziamento da palavra tem consequências que vão além da polarização: quando “democracia” perde sentido como um conceito compartilhado, o próprio vocabulário disponível para discutir os limites institucionais de um país se degrada. Se o eleitor comum já associa a palavra a um verniz moralista – a uma espécie de sinalização de virtude em formato de sistema de governo –, qualquer alerta genuíno sobre erosão democrática passa a ser recebido com o mesmo ceticismo que se reserva a um slogan partidário.Se a tal “ameaça à democracia” não passa de artifício retórico de um grupo eleitoral, é irresistível passar a entender que talvez não haja qualquer ameaça a combater – e, no limite, talvez a própria democracia não seja assim tão superior a qualquer outra forma de organização política.PublicidadeO resultado é um ciclo que se alimenta sozinho: o uso instrumental da palavra esvazia o seu significado; o significado esvaziado remove a urgência de proteger a coisa em si; e a coisa desprotegida vai, de fato, se deteriorando.O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, discursa em um ato eleitoral em Kaposvár, na Hungria Foto: Denes Erdos/APMas a democracia não é um monopólio de um grupo político. Em linhas gerais, nós podemos assumir que ela é um modelo onde:1. As leis são aplicadas de forma justa e consistente, o judiciário é independente e ninguém está acima da lei.2. O poder é distribuído entre diferentes ramos de governo para evitar a sua concentração e garantir um sistema de freios e contrapesos.3. Os direitos fundamentais são protegidos.Publicidade4. Os líderes políticos são eleitos em eleições livres e justas, e todos os adultos têm o direito legal de exercer as suas escolhas, sem segregação.5. Há ampla liberdade de associação e expressão para protestar e formar organizações e partidos políticos.6. Não há violência eleitoral, fraude, nem grandes doses de irregularidades ou compra de votos.7. A imprensa tem ampla liberdade para apresentar seus pontos de vista sobre o país, mesmo quando isso significa desagradar líderes políticos.O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma reunião no Kremlin, em Moscou Foto: Alexander Kazakov/APEsses valores, claro, nunca são absolutos. Há graus de democracia. Por isso, há diferentes institutos que medem a qualidade democrática mundo afora. O V-Dem, produzido pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia, é provavelmente o melhor deles. Ao contrário de outros índices do ramo – como o Freedom in the World – o V-Dem analisa a democracia através de 470 indicadores, cobrindo mais de 200 países ao longo de dois séculos.PublicidadePara dar conta dessa tarefa, o projeto conta com uma rede de mais de 4 mil colaboradores espalhados pelo mundo, que conhecem de perto a realidade política de cada país. E todos os dados são públicos e gratuitos, o que permite a qualquer pessoa verificar os resultados por conta própria. Na edição desse ano, o V-Dem analisou mais de 32 milhões de dados de 202 países.Todos os relatórios que medem os sistemas políticos no mundo são unânimes em assumir que a democracia está sob ataque nos últimos anos.Segundo o próprio V-Dem, existem hoje 92 autocracias no mundo contra 87 democracias. Cerca de 74% da população mundial – algo em torno de 6 bilhões de pessoas – vive sob autocracias, e apenas 7% habita democracias liberais plenas: o menor percentual em meio século. Em 2025, o experimento democrático no mundo atingiu o mesmo nível que em 1978.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de um evento na Casa Branca Foto: Sauel Loeb/AFPSão 44 países em processo de autocratização e apenas 18 em democratização. Quatro dos cinco países mais populosos do planeta – China, Índia, Indonésia e Paquistão – são autocracias. O quinto, os Estados Unidos, parece estar em queda livre.Por que isso deveria causar preocupação?PublicidadePrimeiro, porque democracias não são apenas um sistema de governo – são um mecanismo de correção de erros. Autocracias podem ser eficientes no curto prazo, mas carecem de instrumentos internos de autocorreção. Quando um líder autoritário toma uma decisão desastrosa – uma política econômica equivocada, uma guerra desnecessária – não existe mecanismo institucional robusto para forçar a mudança de curso. A imprensa é censurada, a oposição é criminalizada, o judiciário é cooptado. O erro se perpetua até se tornar uma catástrofe.A democracia, com todas as suas lentidões e frustrações, oferece freios para isso. E quando esses freios são removidos, o risco de desastres irreversíveis cresce exponencialmente.O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, discursa para apoiadores em Kolkata, na Índia Foto: Dibyangshu Sarkar/AFPAlém disso, há boas razões para se preocupar quando registramos 44 países em autocratização contra 18 em democratização. Isso indica uma tendência. E tendências políticas se retroalimentam. Quando uma democracia influente, como a americana, passa a erodir, o efeito é sistemático: os Estados Unidos funcionam como referência. A sua queda sinaliza a outros governos que o custo político de concentrar poder diminuiu. Isso tende a gerar um efeito dominó.Há bons motivos concretos para preferir a democracia a regimes autoritários. Democracias tendem a produzir economias mais prósperas no longo prazo, serviços públicos mais eficientes, indicadores melhores de saúde e educação, e maior capacidade de evitar desastres humanos evitáveis, como fome generalizada em períodos de crise.E os benefícios não são apenas materiais. Democracias são menos propensas a cometer genocídios ou guerras civis, e mais inclinadas a resolver disputas territoriais de forma pacífica. Elas também protegem melhor os direitos das minorias, inovam mais e reprimem menos.PublicidadeNada disso é um asterisco na experiência humana.A democracia não tem a pretensão de conduzir a nossa espécie à utopia da felicidade absoluta. Nenhum país democrático está livre de produzir injustiças, problemas sociais e violações de direitos humanos.Saiba mais ‘Estamos vendo o início de uma autocracia nos Estados Unidos’, diz ex-jornalista do Washington PostImperialismo, isolacionismo e Doutrina Monroe: como as ideias de Trump chocam WashingtonSubúrbios dos Estados Unidos viram o novo front da resistência contra Donald TrumpNós não seremos mais ricos, saudáveis, bem educados, seguros e pacíficos apenas porque moramos num país democrático. Mas ao morar num país democrático, aumentamos consideravelmente a nossa chance de alcançar tudo isso quando comparado às apostas de viver em um regime autoritário. E a diferença não é pequena.Democracia e autocracia não são regimes políticos que divergem apenas no estilo. Democracia e autocracia tem divergências irreconciliáveis no trato à dignidade humana, mesmo quando arrancamos o julgamento moral de seus princípios e abordamos os seus resultados práticos.Nos últimos anos, essa palavra pode até ter virado uma caricatura na boca de muita gente – instrumentalizada, apropriada, transformada em senha de pertencimento ideológico: inclusive por agentes do Estado que deveriam protegê-la, alguns dos quais insistem em recorrer cinicamente à sua defesa para justificar o uso de medidas autoritárias. Mas isso não muda o fato de que a democracia continua sendo o regime sob o qual o poder encontra mais obstáculos para abusar, a crítica encontra mais espaço para existir e o cidadão comum encontra mais instrumentos para se proteger da violência do Estado.PublicidadeSão motivos mais do que suficientes para protegê-la.
Opinião | Segundo esse estudo, os EUA deixaram de ser uma democracia liberal. E daí?
Todos os relatórios que medem os sistemas políticos no mundo são unânimes em assumir que a democracia está sob ataque nos últimos anos






