Chefe do Estado-Maior afirma que o documentário, que acusa Exército de usar IA para selecionar alvos e matar civis em Gaza, é baseado em 'distorção deliberada da realidade' e 'acusações falsas e graves' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Um homem palestino carregando uma criança corre após um relato de ataque israelense na área de Mawasi, em Khan Yunis, em 14 de setembro de 2026 — Foto: BASHAR TALEB / AFP O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, tenente-general Eyal Zamir, determinou nesta segunda-feira que sejam avaliadas medidas legais contra o documentário "NAZA" e os envolvidos na sua produção, além de ordenar, separadamente, uma investigação sobre o vazamento de informações sigilosas utilizadas na obra. A decisão ocorre após o filme — que acusa o Exército israelense de usar inteligência artificial (IA) para selecionar alvos em Gaza, provocar a morte de civis e até interceptar comunicações de integrantes do Hamas com familiares — provocar uma onda de reações de autoridades israelenses. Em paralelo, as Forças Armadas pediram acesso à íntegra do documentário aos diretores Yuval Abraham e Rachel Szor, alegando que precisam analisar o conteúdo completo para responder às acusações com base em evidências. “NAZA”, produzido pelo jornal britânico Guardian e dirigido pelos dois cineastas israelenses, reúne depoimentos anônimos de 24 ex-integrantes das Forças Armadas e dos serviços de inteligência de Israel. Segundo os relatos apresentados no filme, sistemas de IA teriam sido empregados para identificar e atacar integrantes do Hamas em Gaza, inclusive membros de baixa patente. As fontes também afirmam que alguns ataques atingiram as casas dos alvos, matando familiares e outros civis que não teriam relação com o grupo. Em um dos depoimentos, uma fonte afirma que teria sido autorizada a matar 500 pessoas classificadas pelo sistema como “NAZA” para eliminar um único integrante do Hamas. O termo que dá nome ao documentário seria uma sigla usada pela inteligência israelense para indicar a quantidade de civis que se espera que morram em determinado ataque aéreo. Inicialmente, as Forças Armadas de Israel afirmaram que “rejeitam categoricamente” as alegações do filme e questionaram o uso de depoimentos anônimos. Posteriormente, porém, disseram que as acusações deveriam receber uma resposta detalhada e baseada em evidências, ressaltando que ainda não assistiram ao documentário completo. O porta-voz militar Effie Defrin afirmou que o Exército israelense é “uma força baseada em valores, que atua de acordo com o direito internacional e com valores e padrões profissionais vinculantes”. Segundo ele, os depoimentos de soldados israelenses sobre ataques em Gaza exibidos no trailer são “distorcidos, falsificados e desconectados da realidade no terreno”. 'Distorção deliberada da realidade' Segundo o jornal Times of Israel, após uma reunião com altos comandantes militares, Zamir instruiu o procurador-geral militar, major-general Itai Ofir, a avaliar “possíveis medidas legais relacionadas ao filme e aos envolvidos nele”, citando a divulgação do que classificou como alegações falsas contra soldados israelenses e possíveis riscos à segurança deles e do Estado. O chefe do Estado-Maior também determinou a criação de uma equipe multidisciplinar, liderada pela Diretoria de Planejamento, para formular medidas de resposta às acusações contra o Exército e seus soldados, inclusive com a participação de especialistas israelenses e estrangeiros. Cena do documentário 'NAZA', que trata dos sistemas por trás do assassinato em massa e calculado de civis palestinos em Gaza por parte de Israel — Foto: Reprodução / NAZA De acordo com Zamir, o documentário não seria uma tentativa de investigar os fatos, mas uma produção baseada em “distorção deliberada da realidade” e “acusações falsas e graves” contra militares israelenses. Ele afirmou ainda que o filme busca apresentar as Forças Armadas de Israel como uma instituição que age deliberadamente de maneira ilegal. “Não permitiremos que soldados das Forças Armadas de Israel sejam transformados em alvos por meio de mentiras e libelos de sangue”, afirmou Zamir em comunicado, acrescentando que o Exército usará ferramentas jurídicas, de comando e de diplomacia pública para responder às acusações. Pressão sobre os diretores A reação militar ocorre um dia depois de o ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, pedir que a cidadania israelense de Abraham e Szor seja revogada. Nesta segunda-feira, Zohar também solicitou uma investigação para identificar as fontes anônimas ouvidas no documentário e descobrir como os materiais utilizados na produção foram obtidos. A jornalista e diretora Rachel Szor e o jornalista e cineasta israelense Yuval Abraham comparecem ao tapete vermelho para a exibição de "Naza", apresentado em competição no 83º Festival Internacional de Cinema de Veneza, em 10 de setembro de 2026 — Foto: TIZIANA FABI / AFP Segundo uma mensagem publicada pelo ministro no X, ele procurou o Ministério do Interior para discutir a possibilidade de retirar a cidadania dos cineastas, acusando-os de “falhar com seu dever de lealdade ao Estado” e de “colaborar com o inimigo”. Zohar também questionou se as atividades que levaram à coleta e à publicação dos materiais poderiam ter ajudado o inimigo durante a guerra. No domingo, o ministro havia acusado os diretores de estarem dispostos a “prejudicar sua pátria para receber aplausos de antissemitas de todo o mundo” e afirmou que agiria para revogar sua cidadania por “traição ao Estado”. A retirada da cidadania é legalmente possível em Israel, embora seja uma medida rara. Em 2022, a Suprema Corte confirmou que o Estado pode retirar a nacionalidade de pessoas que não tenham demonstrado lealdade, inclusive em casos de espionagem ou traição. A legislação foi ampliada em 2023 para incluir pessoas condenadas por terrorismo. Outros integrantes do governo israelense também atacaram os cineastas. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, afirmou que eles são uma “vergonha” para Israel e disse acreditar que o Hamas os receberia “de braços abertos”. O ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman chamou Abraham e Szor de “odiadores de Israel”, enquanto o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett classificou o documentário como um “horrível libelo de sangue contra nossos filhos e filhas”. Documentário divide opiniões “NAZA” recebeu no sábado o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Veneza, depois de uma ovação de 25 minutos — a mais longa da história do festival. Abraham e Szor também foram os diretores de “No Other Land”, documentário que ganhou o Oscar em 2025 e aborda a violência de colonos israelenses contra palestinos na Cisjordânia ocupada. A casa da família de Abraham foi alvo de uma multidão de extrema direita após a estreia mundial, em 2024, de “No Other Land”. Em entrevista ao Guardian, Abraham afirmou que ele e Szor “estão assumindo riscos em um sistema que nos privilegia”, em referência à condição de judeus israelenses. — Para tantos palestinos, não é uma multidão de direita que está indo até sua casa: são escavadeiras e armas financiadas pelos EUA — disse. — Imagine se um jornalista palestino em Gaza tentasse fazer o que fizemos e ligasse para altos funcionários israelenses. Não há comparação. Eles provavelmente seriam assassinados. A repercussão de "NAZA", no entanto, dividiu opiniões em Israel. O ex-parlamentar Yousef Jabareen, presidente do partido de esquerda Hadash, parabenizou os diretores pelo prêmio e agradeceu por levarem “esses crimes horríveis e a realidade brutal em Gaza” a milhões de pessoas. Já Anat Saragusti, responsável pela área de liberdade de imprensa da União dos Jornalistas de Israel, afirmou que o público israelense não recebeu uma cobertura adequada, em hebraico, sobre o que ocorreu em Gaza durante a guerra. Segundo ela, a imprensa do país mostrou pouco das vítimas civis palestinas, das crianças mortas e da destruição. Em editorial, o jornal Haaretz também defendeu que os israelenses confrontem o que classificou como a realidade das ações de Israel em Gaza. Para o veículo, o filme tenta levar o público israelense a encarar questionamentos sobre a forma como a guerra vem sendo conduzida. (Com AFP)