Depoimentos de 24 militares israelenses detalham uso de IA, rastreamento de celulares e ataques a casas de palestinos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Uma menina palestina carrega uma criança tendo ao fundo a fumaça que sobe de uma casa atingida por um ataque israelense em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 9 de setembro de 2026 — Foto: BASHAR TALEB / AFP Depoimentos de 24 integrantes das Forças Armadas de Israel revelam como sistemas secretos de inteligência e vigilância foram empregados durante a guerra em Gaza para localizar e atacar palestinos, incluindo alvos de baixa patente do Hamas. Os relatos, reunidos no documentário israelense "NAZA", descrevem o uso de inteligência artificial para identificar pessoas, o rastreamento de celulares e até a interceptação de conversas de alvos com suas famílias antes de ataques que poderiam matar todos os ocupantes das casas. Segundo o jornal britânico Guardian, as entrevistas foram concedidas por oficiais de inteligência e soldados que participaram das operações. Os depoimentos foram gravados à noite, em terraços de prédios em Tel Aviv, sob condição de anonimato, devido aos riscos de falar publicamente sobre as atividades militares israelenses. As vozes e a aparência dos entrevistados também foram alteradas digitalmente para preservar suas identidades. Alvos e famílias Segundo os militares ouvidos no filme, sistemas baseados em inteligência artificial foram desenvolvidos para identificar grandes quantidades de possíveis alvos do Hamas de baixa patente. Essas pessoas eram, então, atacadas em suas próprias casas durante a noite, mesmo quando os militares sabiam que familiares estavam no local. Outro método descrito é a invasão de celulares para determinar a localização dos alvos. Os militares também teriam monitorado secretamente conversas dessas pessoas com suas esposas e filhos pouco antes dos ataques. Os relatos apresentados em "NAZA" também descrevem a destruição de bairros onde os militares israelenses estimavam que até 25% dos moradores ainda estavam abrigados em suas casas. Os entrevistados falam ainda sobre a queima sistemática de residências civis e a morte de palestinos em um local de distribuição de alimentos. O filme foi dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos quatro codiretores de "No Other Land" — documentário que venceu o Oscar em 2025. Produzido pelo Guardian, "NAZA" foi exibido na quinta-feira no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde recebeu uma ovação de 25 minutos. A jornalista e diretora Rachel Szor e o jornalista e cineasta israelense Yuval Abraham comparecem ao tapete vermelho para a exibição de "Naza", apresentado em competição no 83º Festival Internacional de Cinema de Veneza, em 10 de setembro de 2026 — Foto: TIZIANA FABI / AFP A recepção em Veneza, porém, é apenas parte da repercussão da produção. O objetivo declarado pelos diretores é investigar não apenas ações individuais de soldados, mas o funcionamento de estruturas militares e de inteligência utilizadas na guerra. "Fizemos este filme por sentirmos a obrigação de usar nossa posição como cineastas e jornalistas israelenses para examinar os sistemas por trás do assassinato em massa de civis palestinos pelo qual nosso país é responsável", afirmaram Abraham e Szor em um comunicado. Os diretores ressaltaram que o foco do filme não está em "crimes de guerra esporádicos cometidos por soldados que agiram por conta própria". Segundo eles, "NAZA" trata das "próprias ordens, das políticas, das práticas aceitas, da linguagem e da lógica que tornam essas práticas possíveis, e das pessoas que operam dentro delas". "É o sistema e suas engrenagens", disseram. Abraham e Szor relacionam "NAZA" ao trabalho realizado em "No Other Land", que documentou durante cinco anos a destruição de casas palestinas na Cisjordânia. — Em NAZA, estamos conectando de maneira semelhante os pontos de um sistema, reunindo os depoimentos de duas dezenas de oficiais de inteligência e soldados e retratando os sistemas militares usados para perpetrar o que uma comissão da ONU e as principais organizações de direitos humanos do mundo descreveram como um genocídio — afirmaram os diretores, durante uma entrevista coletiva em Veneza. 'Impedir a paz' Vários dos entrevistados trabalharam em uma unidade secreta de inteligência que se reporta diretamente ao gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Um deles afirmou que a missão da unidade era "impedir a paz". Fumaça e fogo sobem após uma casa ser atingida por um ataque israelense em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 9 de setembro de 2026 — Foto: BASHAR TALEB / AFP Em Veneza, o diretor Yuval Abraham contou que a equipe pediu aos militares que explicassem como os sistemas funcionavam e o que haviam feito durante a guerra. — Nós apenas dissemos a esses oficiais: "Por favor, descrevam para nós o que vocês fizeram. Como esses sistemas funcionam? Façam um esboço para nós". Às vezes, apenas fazendo as perguntas, você obtém as respostas — afirmou. Segundo Abraham, alguns dos entrevistados demonstraram remorso, enquanto outros não. — Alguns falaram por indiferença, outros por orgulho — destacou. Anos de investigação "NAZA" se baseia em revelações publicadas pela revista israelense-palestina +972 Magazine, pelo veículo em hebraico Local Call e pelo Guardian entre 2023 e 2025. O documentário foi gravado e produzido sob rígidas medidas de segurança por causa do risco para as fontes jornalísticas, e seu conteúdo foi mantido em sigilo até a estreia em Veneza. Paul Lewis, chefe de investigações do Guardian e produtor executivo do filme, descreveu "NAZA" como o resultado de "anos de trabalho minucioso para descobrir e verificar os sistemas utilizados pela inteligência militar israelense em Gaza". Antes da estreia, Alberto Barbera, diretor artístico do Festival de Cinema de Veneza, classificou o documentário como "verdadeiramente inovador" e disse que os depoimentos dos integrantes da inteligência e das Forças Armadas israelenses eram "chocantes". Uma mulher palestina carrega uma criança enquanto caminha perto da área onde uma casa foi alvo de um ataque israelense em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 9 de setembro de 2026 — Foto: BASHAR TALEB / AFP Os ataques israelenses em Gaza desde 2023 mataram mais de 73 mil palestinos — a maioria civis — e deixaram mais de 174 mil feridos, segundo dados apresentados no material. Juntos, os números representam mais de 10% da população de Gaza antes da guerra. As restrições impostas por Israel à entrada de alimentos provocaram uma fome causada pela ação humana no ano passado, e as Forças Armadas israelenses destruíram ou danificaram mais de três quartos das residências. Os palestinos que sobreviveram estão concentrados em acampamentos de tendas, com pouco acesso a água potável ou saneamento. Israel iniciou a guerra após os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, quando mais de 1.200 pessoas foram mortas e 251 foram levadas para Gaza por militantes. A maioria dos mortos e dos reféns era formada por civis. (Com AFP)