Em uma oficina apertada perto da linha de frente, no nordeste da Ucrânia, o mecânico militar conhecido pelo codinome “Chimera” ajuda a preparar para o combate as forças robóticas de sua unidade. Alinhados lado a lado, os veículos não tripulados de quatro rodas conhecidos como “Hienas” avançarão lentamente em direção às linhas russas, levando suas cargas de explosivos para atacar uma posição inimiga ou deter um avanço. Modelos similares já capturaram soldados russos, diz Chimera, de 44 anos, que pediu para ser identificado por seu codinome. “Imagine o que são 20 kg de explosivos! É muito poderoso”, diz ele. “Muito poderoso.” Oficinas como essa, mantidas pelo Terceiro Corpo de Exército da Ucrânia, surgiram ao longo dos 1.200 km da linha de frente, enquanto o Exército ucraniano, em desvantagem numérica, tenta obter uma vantagem tecnológica contra os incessantes ataques da infantaria russa, no quinto ano da guerra. Os, preservando a vida de seus soldados em um campo de batalha saturado de drones, onde praticamente qualquer movimento pode ser fatal. A maioria das brigadas e regimentos ucranianos conta com unidades de sistemas não tripulados, que estão se expandindo para incluir UGVs em suas forças. A Reuters esteve na unidade de Chimera, a NC13, uma das líderes no emprego de UGVs para apoiar ofensivas no campo de batalha, para entender como a integração dessas novas armas está moldando o futuro da guerra terrestre. Nova “revolução” Na oficina, um espaço de garagem está abarrotado de drones experimentais, alguns com esteiras e outros com rodas. Um deles tem uma mangueira acoplada para combater incêndios; outro está equipado com um suporte para transportar lançadores de foguetes portáteis. O brigadeiro-general Andrii Biletskyi, que comanda o Terceiro Corpo de Exército, descreveu a substituição gradual de soldados de infantaria por UGVs como a próxima “revolução” na guerra. Considerado uma das principais forças militares da Ucrânia, o corpo pretende substituir cerca de um terço de seus soldados na linha de frente até o fim do ano. “O Ocidente dormiu durante a revolução dos drones em muitos aspectos”, disse ele, acrescentando que a infantaria agora desempenha apenas 10% das tarefas que realizava antes do surgimento da ameaça aérea constante. “Se o Ocidente realmente quiser não só acompanhar os tempos, mas ficar um pouco à frente, precisa pensar na próxima revolução”, acrescentou Biletskyi Em áreas de linha de frente como o chamado “cinturão de fortalezas” no leste da Ucrânia, na região de Donetsk, é comum ver drones terrestres indo e vindo de cidades sitiadas, transportando alimentos ou munição, ou retirando soldados feridos às pressas. Eles realizaram mais de 50.000 missões de logística e evacuação este ano, informou o Ministério da Defesa da Ucrânia em junho. Operadores de drones terrestres de unidade do Terceiro Corpo do Exército da Ucrânia especializada no uso de UGVs — Foto: Thomas Peter/Reuters “Blocos de ferro” Dentro de um centro de comando cinzento na região de Kharkiv, os operadores de drones terrestres da NC13, criada no ano passado, colocam em prática, em tempo real, a visão de Biletskyi, com os controles nas mãos. Diante das telas que exibem imagens em preto e branco do campo de batalha, eles disparam uma metralhadora instalada em um UGV contra uma linha de árvores. As telas iluminadas e o burburinho das conversas digitais pelo Discord, a plataforma de mensagens usada pelos integrantes da equipe para se comunicar, dão ao local a aparência de uma sala de jogos. O subcomandante, conhecido pelo codinome “Bar”, diz que sua unidade realiza operações praticamente todos os dias. Em uma delas, carregaram três bombas em um reboque, que foi levado até uma ponte usada para a logística inimiga e então explodido. Em outra, um UGV equipado com uma metralhadora conteve um ataque inimigo enquanto drones kamikazes lançavam uma chuva de ataques sobre os soldados russos. “Acho essa uma receita maravilhosa”, diz o ex-barman de 23 anos, referindo-se ao trabalho conjunto de drones terrestres e aéreos. Pelo menos dois russos se renderam a UGVs da NC13, acrescenta. Os UGvs têm suas limitações: enfrentam dificuldades com obstáculos físicos e não conseguem vasculhar um prédio ou uma trincheira da mesma forma que uma equipe de infantaria. Também não são produzidos em quantidade suficiente para serem enviados em enxames, como ocorre com os drones aéreos, observa Bar. Mas eles já começaram a substituir seres humanos em uma ampla gama de tarefas perigosas. “Eles não precisam de comida, não precisam de água, não precisam que levem troncos para construir abrigos”, diz ele. “Basicamente, não precisamos ter pena deles. É um bloco de ferro enviado para fazer o trabalho que antes mandávamos soldados fazer.” Espaço para comandantes “criativos” Embora não sejam uma arma milagrosa, os drones terrestres são mais um passo rumo à automação da guerra – que também inclui o uso de IA para analisar dados do campo de batalha -, o que permitirá aos seres humanos se concentrar no planejamento e na tomada de decisões, diz Biletskyi. Eles poderão moldar novas táticas na linha de frente, com os comandantes mais dispostos a realizar operações ousadas que, de outra forma, provocariam pesadas baixas. “A guerra é uma atividade criativa; é uma arte”, afirma ele. “Caso contrário, um comandante não seria chamado de comandante, mas de açougueiro.” O ex-comandante máximo das Forças Armadas da Ucrânia, Oleksandr Syrskyi, foi criticado pelo que alguns militares descreveram como um estilo de liderança soviético, que incluía elevada tolerância a baixas. Seu sucessor mais jovem Mykhailo Drapatyi, é visto como um reformista que deve promover uma abordagem mais favorável aos soldados, em parte por meio da adoção de novas tecnologias. O próprio Biletskyi foi promovido no mês passado para ajudar a supervisionar a defesa da região ucraniana de Donetsk, assumindo um novo e importante comando operacional. Assim como a maioria dos integrantes da NC13, o subcomandante Bar já foi da infantaria e conhece bem a brutalidade do combate terrestre, tendo participado de grandes batalhas no início da guerra