Quatro anos após a invasão russa, a tecnologia transformou completamente a guerra e o papel dos soldados 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A imagem antes familiar de uma guerra travada com infantaria na linha de frente e combates aéreos entre caças tornou-se cada vez mais ultrapassada — Foto: Tetiana Dzhafarova Quando o primeiro raio de sol iluminou uma manhã de agosto surpreendentemente gelada, algumas centenas de paraquedistas ucranianos recém-formados atravessavam um campo de milho e plantas, preparando-se para o primeiro salto. Sentados em fila, com os equipamentos presos às costas para o exercício de treinamento, muitos sabem que dificilmente farão um salto desses em uma zona de guerra real. Quatro anos após a invasão russa, a tecnologia transformou completamente a guerra e o papel dos soldados. — Lançar tropas de paraquedas é impraticável porque, infelizmente, os recursos do inimigo conseguem neutralizá-las muito rapidamente — afirmou o instrutor Axel, de 24 anos. A imagem antes familiar de uma guerra travada com a infantaria na linha de frente e combates aéreos entre caças tornou-se cada vez mais ultrapassada. Os drones dominaram os céus, enquanto robôs terrestres estão sendo incorporados às missões de combate — tanto para lutar quanto para reabastecer tropas presas em posições perigosas. Cerca de 90% dos alvos agora são destruídos por drones, informou o Ministério da Defesa da Ucrânia em julho. Mesmo assim, os futuros paraquedistas têm certeza de que as habilidades tradicionais continuam sendo relevantes. Um recruta de 21 anos, conhecido pelo codinome "Karyi", afirma que a tecnologia só consegue ir até certo ponto. — Eu adoraria ver a inteligência artificial vencendo guerras e libertando territórios. 'Forjando o caráter' As tropas aéreas são tradicionalmente consideradas uma elite por muitos exércitos ao redor do mundo, e os lançamentos de paraquedas permanecem uma parte fundamental dos conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. Mas, neste momento da guerra contra a Rússia, os paraquedistas recém-treinados da Ucrânia serão enviados para cumprir a mesma missão básica: manter a linha de frente e conter o avanço russo. O jovem oficial Roman Kulievych disse durante o treinamento no centro da Ucrânia que os saltos de paraquedas atrás das linhas inimigas “não são nada práticos”. — Mas isso continua existindo como uma tradição que forja o caráter e nos diferencia das outras forças armadas. Os instrutores do exército afirmam que o treinamento em habilidades tradicionais tem uma importância mais ampla. — É, essencialmente, parte do treinamento psicológico. Assim entendemos se o efetivo está preparado para situações de estresse e como enfrenta seus medos — disse Axel. A mesma lógica orienta a "marcha forçada" que os aspirantes precisam completar — o exercício final necessário para conquistar a boina de paraquedista. Cercados por explosões constantes, tiros e gritos dos instrutores, os futuros paraquedistas marcham por quilômetros, atravessando areia e pântanos, em meio ao cheiro de restos de animais em decomposição e sangue falso. No final do percurso, enfrentam três paraquedistas experientes em combates corpo a corpo, um após o outro. — Isso molda sua mente e fortalece sua motivação para lutar, para que, em situações críticas, você saiba que é capaz de fazer ainda mais — afirmou Karyi. Para muitos que estão na linha de frente, o principal medo já não é um soldado avançando sobre as trincheiras, mas um inimigo invisível controlando um drone à distância. Os instrutores ucranianos dizem que essa mudança significa que os soldados convencionais precisam estar ainda mais preparados para as dificuldades psicológicas. Passar dias sem revezamento, enfrentar longos períodos de escassez de alimentos e ter medo de se mover para não revelar a própria posição aos "olhos no céu" são realidades diárias da guerra de drones para quem está na terra. 'Pessoas, não robôs' Durante o treinamento, um alerta de ataque aéreo interrompeu a movimentação dos futuros paraquedistas. Os voos foram suspensos até que o perigo passasse. O comandante alternava ordens com um tom mais brando e as tradicionais piadas militares recheadas de palavrões, equilibrando a disciplina rígida com um afeto quase paternal pelos jovens soldados. — Senhores, parem de enrolar e venham ajudar seus irmãos a vestir o paraquedas. Arranjem uma companheira bonita para a vida e vão trabalhar — gritou. Após ajudar um colega a ajustar o equipamento, um paraquedista desejou boa sorte ao outro com um aperto de mão firme. — Sorte é coisa de perdedor. No nosso trabalho, o que vale é habilidade e coragem — respondeu o colega. Yuriy, instrutor veterano que conduziu um dos grupos pelo exaustivo circuito de obstáculos, já refletiu algumas vezes sobre a necessidade desse tipo de prova diante da natureza da guerra de drones. Ele diz que talvez um dia "só os especialistas em tecnologia lutem". — Mas um território só é realmente controlado por uma unidade quando há soldados de verdade ali. Ou seja, pessoas, não robôs — afirma Yuriy. Karyi, o futuro paraquedista, concorda. — Antes de tudo, ainda há um ser humano por trás de tudo isso, e essas pessoas precisam ser de alta qualidade.
'Pessoas, não robôs': soldados da Ucrânia defendem papel humano em meio à revolução dos drones
Quatro anos após a invasão russa, a tecnologia transformou completamente a guerra e o papel dos soldados







