Drones ucranianos atigem áreas civis e instalações econômicas, enquanto mísseis russos devastam prédios e postos de gasolina, testando limites da lei internacional 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pessoas esperam o ônibus em meio a ataque aéreo russo contra Kiev — Foto: Roman PILIPEY / AFP A imagem granulada de um homem correndo pela própria vida, perseguido por um drone russo no sul da Ucrânia tomou de assalto as redes sociais na semana passada, e foi classificada pelo presidente Volodymyr Zelensky como um “safári humano”. Desde o início da guerra, há quatro anos e meio, civis são vítimas recorrentes de bombardeios, ofensivas e massacres, mas a evolução de um conflito sem qualquer perspectiva de término os tornou preferenciais. E não apenas das forças de Vladimir Putin. — O que se observa é uma redução das restrições operacionais na seleção dos alvos, com maior aceitação dos riscos impostos à população civil — afirmou ao GLOBO professor e coordenador do curso de pós-graduação em Política e Relações Internacionais da FESPSP. — Isso não significa, necessariamente, uma transformação moral dos comandantes, mas uma adaptação ao desgaste de uma guerra de longa duração. Nos últimos meses, a Ucrânia deu passos largos no emprego de drones de ataque mais eficazes, com maior autonomia e com maior poder de destruição. Uma estratégia em parte desenhada pelo agora ex-ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, cuja demissão foi recebida com protestos nas ruas do país. O primeiro passo foi aumentar a chamada “zona da morte”, afetando linhas de suprimentos e fazendo com que os inimigos não se sintam seguros, nas palavras de Fedorov, mesmo a centenas de quilômetros de distância da linha de frente. Autoridades nas regiões ocupadas pela Rússia tratam algumas rodovias como zonas proibidas, onde os ataques não são uma probabilidade, mas uma certeza. Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, há semanas os russos não conseguem avanços no campo de batalha, e surgem rumores de que uma nova campanha de mobilização pode ser lançada em breve, diante dos problemas no front. Número de civis mortos na guerra na Ucrânia — Foto: Editoria de Arte O segundo passo foi levar a guerra para dentro da Federação Russa. Não mais com ações esporádicas — como a “Operação Teia de Aranha”, de 2025 —, mas com ataques recorrentes e contundentes, especialmente contra refinarias. Outrora a maior produtora de petróleo do mundo, a Rússia precisou importar gasolina para atender ao mercado interno e às filas nos postos. Os drones se tornaram parte da rotina em cidades como Moscou, São Petersburgo e Ecaterimburgo, a dois mil quilômetros de Kiev. Na idílica costa do Mar Negro, a explosão de um drone em uma praia na região de Krasnodar deixou sete turistas mortos na semana passada. Desde então, russos e ucranianos trocam acusações sobre a responsabilidade da carnificina, ocorrida nos arredores do palácio bilionário de Putin. Imagens compartilhadas pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, mostra bombardeios ao território russo — Foto: Reprodução/X/Volodymyr Zelensky Em meados de junho, Zelensky anunciou uma operação de 40 dias para, segundo ele, “exercer pressão sobre o Estado agressor, visando incentivar o fim da guerra”. O número de drones nos céus aumentou exponencialmente — atingindo áreas residenciais e deixando mortos até na área urbana de Moscou —, e um dos pilares do setor de serviços local foi escolhido como exemplo da determinação de Kiev: a gigante do comércio eletrônico Wildberries, apelidada de “Amazon russa”. Até o dia 5 de agosto, ao menos 14 depósitos foram atingidos, eliminando 27% de sua capacidade de armazenamento. A Ucrânia afirma que os locais eram usados como pontos de suprimentos para as linhas de frente, mas a CEO e fundadora da empresa, Tatyana Kim, rejeitou os argumentos e chamou os ataques de “atos de terrorismo”. — O Direito Internacional Humanitário exige que exista uma contribuição efetiva para a ação militar e que sua destruição proporcione uma vantagem militar concreta, sempre respeitando os princípios da distinção, proporcionalidade e precaução — acrescenta Coelho. — Caso contrário, o argumento do uso dual pode ser utilizado para ampliar excessivamente o conceito de objetivo militar. Fumaça subindo de um incêndio em um complexo logístico da Wildberries em Elektrostal, perto de Moscou, em 18 de julho, após um ataque de drone ucraniano — Foto: Tatyana Makeyeva/AFP A Forbes Russia estimou que as perdas dos comerciantes que usam a Wildberries podem chegar a 279 bilhões de rublos, cerca de R$ 17 bilhões. Mesmo que o governo russo cobrisse as perdas, o impacto ao Estado seria ínfimo se comparado aos problemas causados nas refinarias. No fim do dia, avaliam economistas, a destruição dos armazéns e estoques pesaria mais no bolso dos vendedores — são mais de 500 mil em 10 países — e nos lucros da Wildberries, sem afetar o pensamento do Kremlin sobre a guerra. — Vamos supor que as perdas totais, incluindo armazéns que ainda possam vir a ser destruídos, cheguem a 200 bilhões de rublos (R$ 12,7 bilhões). Isso é um pouco menos de 0,1% do PIB da Rússia — declarou o economista Dmitry Nekrasov ao canal do YouTube Zhivoy Gvozd. — Ela [Wildberries] tem concorrentes e há muitos participantes menores no mercado. Há pouca margem para que esses ataques causem uma perturbação econômica mais ampla. Os 40 dias anunciados por Zelensky terminaram na terça-feira, mas o chefe do Gabinete presidencial ucraniano, Kirill Budanov, pediu que as pessoas não se apegassem a prazos. — O principal é o resultado. Não é tão importante como se entra nesse processo. É muito mais importante o que se conquista com ele. Para sairmos dele com o resultado desejado, precisamos ser fortes — declarou Budanov, citado pela agência Interfax Ucrânia. Quando o chefe de Gabinete pediu força e resiliência aos ucranianos, se referia à resposta russa. Desde Kharkiv, no norte, até Lviv, na fronteira ocidental com a Polônia, e em Kiev, drones, foguetes e mísseis caíram às centenas, atingindo infraestruturas básicas, como centrais de energia, além de prédios, escolas e comércios. Em uma aparente retaliação aos ataques contra as refinarias, cerca de 140 postos de gasolina na Ucrânia foram atingidos por drones desde abril. Mais do que encher os tanques ou checar o óleo, elas servem como refúgio nas estradas e, com a guerra, ponto de encontro e descanso para soldados. — Desde 2022, a Rússia realiza ataques contra infraestrutura utilizada por civis, e a continuidade desse padrão indica que os danos à população passaram a integrar, em alguma medida, o cálculo militar — destaca Coelho. Vídeo mostra drone russo perseguindo vendedor na Ucrânia O homem perseguido e filmado pelo drone em Kherson, identificado como Yuriy, sobreviveu e recebe tratamento em um hospital, mas outros compatriotas não tiveram o mesmo destino. No ano passado, um relatório da ONU afirmou que 150 pessoas e centenas ficaram feridas em Kherson em incidentes semelhantes desde 2022. Tal como Yuriy, em atos de violência gravados por câmeras e difundido por blogueiros militares pró-Moscou. “As circunstâncias dos ataques, os vídeos e as postagens com ameaças explícitas demonstram que as forças armadas russas e aqueles que as apoiam cometeram atos ou ameaças de violência com o objetivo principal de disseminar o terror entre a população civil, em violação ao direito internacional humanitário”, afirma o relatório, elaborado por uma comissão independente das Nações Unidas. Bombeiro ucraniano tenta apagar incêndio em local atingido por míssil balístico russo em Kiev — Foto: Tetiana DZHAFAROVA / AFP A intensidade da resposta russa serviu para evidenciar uma das fragilidades ucranianas: a dificuldade para resistir à guerra aérea. Diante de mísseis de grande porte, como os Oreshnik, ou os hipersônicos Zircon, o país depende de sistemas robustos, como o Patriot, cujos estoques locais estão praticamente zerados. Na última semana, 17 pessoas morreram em uma noite violenta em Kiev, episódio usado por Zelensky para retomar a cobrança sobre os parceiros ocidentais, especialmente os Estados Unidos. “Interceptadores de mísseis balísticos poderiam ter salvo as vidas daqueles que morreram hoje”, escreveu o presidente, em comunicado. “São necessárias novas medidas — por parte do G7, da União Europeia e de todos aqueles que apoiam a proteção da vida.”
Ausência de perspectiva de fim para guerra na Ucrânia transforma civis em alvos preferenciais
Drones ucranianos atigem áreas civis e instalações econômicas, enquanto mísseis russos devastam prédios e postos de gasolina, testando limites da lei internacional










