Pressionada pela falta de soldados e pelo desgaste de mais de quatro anos de guerra contra a Rússia, a Ucrânia está acelerando a substituição de combatentes por máquinas no campo de batalha. Robôs terrestres carregados de explosivos, veículos armados operados remotamente e drones de reconhecimento passaram a desempenhar funções antes reservadas à infantaria, em uma transformação que militares ucranianos consideram essencial para compensar a desvantagem numérica diante das forças russas, segundo informações da rede CNN. Segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, uma posição russa foi capturada pela primeira vez neste ano exclusivamente com o uso de robôs e drones. Desde janeiro, equipamentos não tripulados teriam realizado cerca de 22 mil missões. A mudança reflete uma necessidade crescente de preservar vidas em um conflito que continua impondo pesadas perdas aos dois lados. Em uma operação recente conduzida no leste da Ucrânia, seis robôs carregados de explosivos foram enviados contra posições russas sem que nenhum soldado precisasse avançar até o alvo. Controlados remotamente por operadores instalados a quilômetros de distância e monitorados por drones de reconhecimento, os veículos detonaram suas cargas em diferentes pontos da linha de frente. Os militares responsáveis pela missão afirmam que os russos passaram a apelidar esses equipamentos de "morte silenciosa". Segundo relatos obtidos junto a prisioneiros de guerra, os robôs só podem ser ouvidos quando já estão muito próximos do alvo, normalmente a poucos metros de distância. Para a unidade NC13, da Terceira Brigada de Assalto da Ucrânia, a automação tem produzido resultados difíceis de ignorar. A unidade calcula que precisaria de aproximadamente 2.300 soldados para alcançar o mesmo efeito obtido em 164 operações realizadas com robôs explosivos. Em um cenário convencional, estima que metade desse contingente poderia ter sido morto ou ferido. — Eu nem conseguia imaginar algo assim naquela época — afirma Bar, subcomandante da unidade, ao recordar os combates urbanos em Donbas. — Mas percebo que, se esse equipamento existisse então, mais companheiros meus teriam sobrevivido. A rápida expansão desse tipo de tecnologia está diretamente ligada às dificuldades de recrutamento enfrentadas por Kiev. Com uma população menor que a da Rússia e milhares de baixas acumuladas desde o início da invasão em larga escala, em 2022, a Ucrânia enfrenta uma pressão crescente para manter suas posições na linha de frente. Ao mesmo tempo, o país investiu pesadamente no desenvolvimento de drones e sistemas não tripulados, buscando transformar uma de suas principais vulnerabilidades em vantagem tecnológica. Autoridades ucranianas afirmam que a estratégia atual busca causar perdas suficientes para desgastar o esforço militar russo sem expor o mesmo número de soldados ucranianos ao combate direto. Uma estimativa divulgada nesta semana pela agência britânica de inteligência GCHQ apontou que o número de militares russos mortos desde o início da guerra chegou a 500 mil. Moscou não divulga regularmente seus números de baixas. Guerra tecnológica Essa nova fase da guerra também mudou o perfil dos protagonistas do conflito. Jovens programadores, engenheiros e especialistas em software passaram a desempenhar papéis tão importantes quanto os combatentes nas trincheiras. Entre eles está Gora, de 22 anos, engenheira responsável pelo desenvolvimento e manutenção de sistemas utilizados pelos robôs da linha de frente. Ela tinha 18 anos quando a guerra começou e decidiu aplicar seus conhecimentos em tecnologia ao esforço militar. — O principal não são os veículos. O principal são as mentes que planejam tudo isso — explica. — É a forma como se estabelece a comunicação entre os equipamentos e os operadores. A guerra tecnológica, porém, também enfrenta desafios constantes. Interferências eletrônicas, bloqueios de sinal e falhas de navegação obrigam operadores a adaptar rotas em tempo real. Em algumas missões, os robôs precisam ser guiados sem GPS, utilizando imagens gravadas previamente por drones e mapas detalhados do terreno. Nem todas as operações são bem-sucedidas. Alguns veículos ficam presos em crateras, tombam em trincheiras ou são destruídos antes de atingir seus objetivos. Ainda assim, militares ucranianos afirmam que as perdas materiais são preferíveis ao risco de enviar soldados para missões semelhantes. O uso de máquinas já vai além dos ataques. Em diferentes trechos da frente de batalha, robôs são empregados para transportar munição, levar alimentos e água a posições isoladas, evacuar feridos e até operar armamentos pesados. Uma das plataformas em desenvolvimento utiliza uma metralhadora Browning montada sobre esteiras semelhantes às de um tanque. Controlado remotamente e equipado com câmeras de vigilância, o veículo pode permanecer escondido por dias antes de entrar em ação. — Quando usamos o robô contra o inimigo, eles simplesmente entraram em pânico — relata um operador identificado apenas pelo codinome Ciber. — Não sabiam como reagir. Apesar dos avanços tecnológicos, a guerra continua cobrando um preço elevado dos soldados que permanecem na linha de frente. Os militares conhecidos pelos codinomes Crow e Creepy, integrantes da 24ª Brigada Mecanizada, passaram respectivamente 344 e 334 dias consecutivos em posições de combate. Ambos descrevem uma rotina marcada por ataques constantes de drones, escassez de descanso e dificuldades até mesmo para reforçar suas defesas. — A única coisa que me manteve em pé foram meus filhos e minha esposa. Caso contrário, eu teria enlouquecido há muito tempo — conta Crow após deixar a frente de combate. Os relatos ajudam a explicar por que Kiev vê a automação como uma necessidade estratégica cada vez maior. Em um conflito que se tornou uma disputa de resistência entre dois exércitos desgastados, a capacidade de substituir soldados por máquinas passou a ser considerada uma vantagem tão importante quanto tanques, artilharia ou munição. Para comandantes envolvidos no desenvolvimento dessas tecnologias, a guerra entrou definitivamente em uma nova fase. — Antes, o que importava eram suas habilidades, seu treinamento e sua disciplina — afirma Mykola "Makar" Zinkevych, comandante da unidade NC13. — Agora, a tecnologia decide tudo. Não há volta.
Escassez de soldados leva Ucrânia a ampliar uso de robôs para conter avanço russo no campo de batalha
Máquinas carregadas de explosivos, veículos armados e drones assumem funções antes desempenhadas pela infantaria e ajudam Kiev a compensar sua desvantagem numérica diante da Rússia















