0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flávio Bolsonaro — Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters Documentos da Polícia Federal (PF) tornados públicos após a retirada do sigilo de parte das investigações do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF) indicam que o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, era "interlocutor direto" do ex-banqueiro Daniel Vorcaro na negociação dos repasses para o filme "Dark Horse", a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a PF, Flávio negociava o dinheiro, enquanto o seu irmão, Eduardo Bolsonaro, atuava como gestor dos recursos nos Estados Unidos. A negociação com Daniel Vorcaro seria de ao menos US$ 24 milhões - cerca de R$ 122 milhões -, dizem os investigadores. Os pagamentos, feitos de forma parcelada, eram enviados para o fundo Havengate, sediado no Texas (EUA) e administrado por Paulo Calixto, advogado próximo a Eduardo. O ministro André Mendonça, relator do caso na Corte, determinou a abertura de inquérito para investigar a atuação de Flávio no financiamento de "Dark Horse". A investigação foi aberta em julho, após um pedido da Polícia Federal. A PF suspeita de crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e organização criminosa. Na representação que foi enviada pela PF ao STF consta que Flávio fez cobranças de pagamentos para a produção do filme "Dark Horse" e reuniões presenciais com Vorcaro. Diz ainda que o áudio em que cobra valores e chama o dono do Banco Master de "irmão" foi enviado na véspera da prisão do ex-banqueiro, em novembro de 2025. "Tais elementos indicam que o Senador FLÁVIO NANTES BOLSONARO não aparece apenas como terceiro mencionado em comunicações de outras pessoas, mas como interlocutor direto de DANIEL VORCARO em tratativas relacionadas ao financiamento da produção", diz o documento. O sigilo foi levantado pelo relator na sexta-feira (12), a pedido do presidente do STF, ministro Edson Fachin. O relatório da PF remonta a dezembro de 2024 o início das tratativas com Vorcaro, quando o publicitário Thiago Miranda o contatou para agendar uma reunião com Flávio Bolsonaro e o deputado Mario Frias (PL-RJ), que assumiu a função de produtor-executivo de "Dark Horse". Segundo a PF, a partir daquele momento, observou-se uma sequência de interações voltadas à viabilização e ao acompanhamento dos pagamentos. Em janeiro de 2025, Vorcaro registrou em uma mensagem que o pagamento para o filme era "o mais importante disparado". Os investigadores salientaram que na véspera da prisão do ex-banqueiro, em 16 de novembro de 2025, Flávio enviou uma mensagem de áudio chamando o interlocutor de "irmão", e registrando que estaria com ele "sempre". No dia seguinte, Vorcaro foi preso no aerporto de Guarulhos, em São Paulo, tentando embarcar para Dubai. Fundo inativo Segundo a PF, o fundo Havengate - que recebeu os valores de Vorcaro - foi sido criado originalmente para um empreendimento imobiliário de US$ 21 milhões em 2020, mas não tem nenhuma propriedade em seu nome até hoje. Além disso, estava inativo por quatro anos até receber os valores de Vorcaro. "A Calixsan Capital Management LLC — gestora do fundo, controlada pelos mesmos PAULO CALIXTO e ALTIERIS SANTANA — cancelou seu registro como gestora regulada de investimentos no Texas (maio de 2021) e na Flórida (setembro de 2021), justamente quando o empreendimento deveria, segundo seu próprio cronograma, estar em plenas obras", diz a representação. E acrescenta: "O fundo permaneceu juridicamente ativo, mas operacionalmente inerte por quase quatro anos, sem qualquer atividade pública registrada — até receber, em 13/02/2025, a primeira remessa de US$ 2.000.000,00 proveniente da ENTRE INVESTIMENTOS para financiamento do filme". A Entre Investimentos, citada pela PF, pertence ao empresário Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro. Ele fechou um acordo de delação com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e esse acordo foi homologado pelo ministro André Mendonça nessa semana. Segundo a PF, "a reativação de um fundo originalmente criado para fins imobiliários, dormente por anos, sem lastro em qualquer operação imobiliária ativa, como veículo de remessas internacionais vinculadas a uma produção cinematográfica, constitui circunstância objetiva que reforça a necessidade de apuração da compatibilidade entre o perfil do veículo financeiro utilizado e a destinação declarada dos recursos". Documentos da PF contradizem versão de Flávio Os documentos da PF contradizem a versão dada por Flávio Bolsonaro em maio, quando as negociações com Vorcaro foram reveladas pelo site Intercept Brasil. Na época, em entrevista à GloboNews, o senador disse que o Havengate havia sido criado para a realização do filme "Dark Horse". “É importante falar que esse fundo é fiscalizado pela SEC, que é a tipo a CVM [Comissão de Valores Imobiliários] dos Estados Unidos. É um órgão sério, é um órgão que faz a auditoria. O fundo presta contas para esse órgão de fiscalização do governo americano", disse na entrevista de maio. Questionado, agora, sobre a investigação,Flávio disse que apoia o inquérito. "Eu peço ao ministro André Mendonça [relator do caso Master]: abra os sigilos, tira o sigilo de tudo, mostra tudo pro povo”, disse o senador em entrevista em Manaus (AM), onde cumpriu agenda de campanha nessa sexta-feira. Flávio tem negado irregularidades no financiamento do filme, argumentando que os recursos teriam origem privada, embora o Banco Master tenha recebido aportes de fundos de previdência de servidores públicos.