Em um cenário mais desafiador, seria recomendável que o país contivesse seu endividamento o mais rápido possível 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 — Foto: iStock/Getty Images Os investidores encontraram ontem mais motivos para exigir rendimentos maiores dos títulos de 30 anos do Tesouro americano, que bateram dois recordes. No mercado secundário, eles chegaram a 5,35%, maior taxa desde 2007. Mas em leilão primário de US$ 22 bilhões de títulos de 30 anos, feito à tarde pelo Tesouro, os papéis foram vendidos com rendimentos de 5,308%, um recorde em um quarto de século. Petróleo em alta acelerada e uma aposta errada do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de recomprar títulos para reduzir os juros ajudaram a empurrar os rendimentos para cima. Do outro lado do Atlântico, o Banco Central Europeu (BCE) elevou novamente a taxa de juros a 2,5%, vislumbrando uma inflação que só recuará em fins de 2027, e o Federal Reserve americano (Fed) pode fazer a mesma coisa nos próximos meses. A reeleição de Donald Trump e a execução de uma política econômica protecionista e errática aceleraram algo improvável há alguns anos: os títulos do Tesouro americano, os mais seguros do mundo, estão com seus prêmios de risco em alta, elevando ainda mais uma dívida pública de US$ 40 trilhões que cresce sem parar. O déficit público deve fechar o atual exercício fiscal em 6% do PIB, perto de US$ 2 trilhões. Há fatores conjunturais e estruturais que motivam as altas. Sem qualquer perspectiva de acordo em duas guerras, na Ucrânia e no Oriente Médio, o petróleo voltou a ultrapassar os US$ 100 o barril — o barril do Brent chegou ontem a US$ 107. Novos desdobramentos indicam piora da situação de suprimento. Depois de atacarem instalações na Arábia Saudita, os rebeldes houthis tomaram um porto no estreito de Bab el Mandeb, avançando em seus planos de cortar a rota alternativa de escoamento do óleo saudita pelo Mar Vermelho. A inflação então ganhou novo fôlego, exemplificado ontem no Índice de Preços ao Produtor dos EUA, que subiu 0,4% em agosto e 5,4% em 12 meses. A alta reflete em grande parte aumento de 24,1% nos preços do diesel no período. Na Europa, a inflação de agosto foi de 3,3%, e o BCE elevou em 0,25 ponto a taxa de juros, para 2,5%. Mais distante da meta de 2% do banco, a inflação só deverá fazer o caminho de volta no fim de 2027, segundo a presidente do banco Christine Lagarde. Os títulos de 10 anos do Reino Unido pagavam rendimento de 5,38%, o mais elevado desde 2007, e os alemães de mesmo prazo, 3,5%, os maiores juros desde 2011. O pano de fundo da alta do custo dos títulos de longo prazo é o enorme endividamento geral de todos os Tesouros dos países ricos, após grandes rodadas de aumentos da dívida para enfrentarem, primeiro, a grande crise financeira de 2008, depois, no caso da Europa, a crise da dívida soberana de 2011, e, todos, em seguida, a mortífera pandemia da covid-19. Novas demandas continuam empilhando gastos e tornando mais distantes a perspectiva de austeridade. A principal ameaça é o aquecimento global, que exige investimentos enormes na reconfiguração da matriz energética para longe dos combustíveis fósseis. Mas a geopolítica, com a destruição da ordem mundial vigente por Trump, joga um peso forte, ao tornar inadiáveis para a Europa, por exemplo, os gastos com defesa. A iniciativa de tentar asfixiar a Rússia congelando reservas e cortando seus laços com o sistema financeiro ocidental, iniciada pelo democrata Joe Biden e intensificada por Trump contra o Irã, abalaram a confiança nos EUA como refúgio seguro para recursos de longo prazo em seus títulos soberanos. Enquanto a oferta desses papéis se acelerou com o aumento da dívida americana, clientes cativos como os bancos centrais se desfizeram deles. A China encolheu suas posições de US$ 1,3 trilhão para US$ 633 bilhões. A Índia reduziu em 26% seu estoque, para US$ 176 bilhões. O Brasil diversificou reservas e reduziu em US$ 61 bilhões a exposição a esses papéis. A posição dos BCs, que correspondia em 2007 a 72% do total do estoque do Tesouro americano, caiu a 43% hoje (Benn Steil, FT, ontem). Em lugar de clientes institucionais e estáveis, os títulos do Tesouro estão agora na maior parte nas mãos de investidores focados em ganhos, entre eles os hedge funds, a ponta mais agressiva e especulativa dos mercados financeiros. Há o risco, se o movimento de alta prosseguir por muito mais tempo, de que o rendimento dos títulos soberanos dos EUA retire atratividade dos investimentos nas bolsas e force a uma reprecificação atabalhoada dos ativos. Para o Brasil, a elevação das taxas de longo prazo nos EUA não é um bom sinal. O título de 10 anos do Tesouro é benchmark para captações externas dos países emergentes, aos quais se acrescentam prêmios de risco correspondentes à avaliação dos investidores estrangeiros sobre a solidez da economia e das contas públicas dos países que emitem papéis de dívida. Com a alta dos rendimentos dos treasuries, e mesmo sem mudança no prêmio de risco, a taxa que o Tesouro brasileiro tem de pagar tende a subir. Ou então, a remuneração dos treasuries de 10 anos mais o prêmio formam um piso a partir do qual os juros domésticos não poderão ser reduzidos. Nos dois casos, seria recomendável que o país contivesse seu endividamento o mais rápido possível.