Imagine o tamanho do barulho se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciasse, em evento do PT, que depositaria R$ 25,5 mil (US$ 5 mil) na conta de cada brasileiro adulto caso o governista Partido Republicano mantiver o controle do Senado e da Câmara nas eleições mês que vem. Ensurdecedor. Pois foi exatamente o que Donald Trump fez na quarta-feira durante seu discurso de quase duas horas na Convenção de Meio de Mandato do Partido Republicano em Dallas, no Texas. “Serão os dividendos Trump”, celebrou, sem dar mais explicações, como se o voto dos americanos em novembro fosse um investimento feito em uma das empresas que comandou. As que não faliram. Para além da óbvia tentativa de suborno e do escárnio público, uma vez mais, ao jogo democrático, o anúncio escancarou o desespero da Casa Branca com o retrato oferecido pelas pesquisas para o pleito de meio de mandato, quando o Congresso está em jogo. Trump teme uma derrota decisiva e o cada vez mais provável pente-fino passado nos dois primeiros anos de seu governo pelo Partido Democrata. Desde 2025, ele governa com maioria nas duas Casas do Capitólio e conta com uma Suprema Corte ideologicamente parceira. Uma segunda metade do Trump 2.0 com ao menos um braço dos Poderes controlado pela oposição deixa o político que sofreu dois processos de impeachment em seu primeiro mandato à beira de um ataque de nervos. Tentativa de suborno eleitoral Não é exagero. A longa fala da noite desta quarta-feira incluiu clara tentativa de suborno eleitoral. Ou, como se diz em bom inglês, “if it walks like a duck, quacks like a duck, it's a duck” (“Se anda como um pato e grasna como um pato, então é um pato”). É crime federal nos Estados Unidos oferecer algo de valor pelo voto alheio, com indicação de multa de US$ 10 mil (pouco mais de R$ 50 mil) e até cinco anos no xilindró. Como não há Justiça Eleitoral e os pleitos não são federalizados, resta esperar pela reação austera das secretarias de Estado de cada unidade da federação em que a patacoada se repetir. É que Trump ameaçou na quarta comandar comícios nas próximas semanas nos locais onde a disputa está acirrada. O verbo ameaçar, aqui, é intencional. Tudo o que candidatos republicanos em disputas apertadas em seus estados não querem é Trump em suas campanhas. Entre muitos outros, os senadores Dan Sullivan, do Alasca, e Susan Collins, do Maine, percebem este empurrãozinho do presidente como um impulso ladeira abaixo. Nenhum deles tampouco crê que a chantagem financeira é percebida como crível pelos eleitores. Só os atrapalha. Além de ser uma obscenidade cívica, as contas do auxílio-voto de Trump também não fechariam. Elas corresponderiam a 23% do orçamento federal de um país endividado até o pescoço. E o condicionamento da entrega, por si só, é um acinte, especialmente em momento que a maioria dos americanos sofre com o aumento do custo de vida, inclusive os alimentos. Desde o começo do Trump 2.0, organizações-referência dedicadas ao combate à fome nos EUA e o próprio Federal Reserve, o Banco Central americano, informam que aumentou em cerca de 10% o número de famílias americanas sem comida suficiente em suas mesas o ano todo. Para elas, os US$ 5 mil (R$ 25 mil) por adulto fariam enorme diferença. Algo sério demais para se dar de ombros e acusar opositores e a imprensa profissional de serem pessimamente humorados com apenas mais uma piada do presidente. O que os poucos centristas do Partido Republicano classificam como jocoso foi um ato de desespero sem paralelos na História dos EUA. Trump chega à reta final do pleito de meio de mandato com os piores números de aprovação de um presidente nesta altura da corrida eleitoral neste século. Mesmo com a modificação artificial de distritos eleitorais país afora para beneficiar os governistas, inclusive no Texas, o desgosto com a Casa Branca é tamanho que o Partido Democrata é hoje não só favorito para retomar o controle da Câmara como encostou no Senado. E em ano que as cadeiras em disputa na Casa são majoritariamente nos estados vencidos pelo presidente há dois anos. As fissuras na própria base trumpista, por sua vez, diminuem a possibilidade da repetição da estratégia vitoriosa em 2024, quando os republicanos convenceram eleitores que vão amiúde às urnas a saírem de casa impulsionados pela marca Trump. Um dos estratos que engordaram a tradicional coalizão da direita e agora dão meia-volta volver é a dos eleitores de origem latina. Latinos no Texas migram para os democratas No mesmo dia em que Trump dava vazão em Dallas a sua faceta de apresentador de auditório popularesco, a Univision, maior rede de televisão aberta em espanhol dos EUA e principal produtora de conteúdo voltada ao público latino do país, divulgou sua mais recente pesquisa de voto no Texas, estado com 30% de eleitores latinos, conduzida a quatro mãos pela On Message, que faz pesquisas internas para o Partido Republicano, e a Hart Research, que faz o mesmo para o Partido Democrata. O retrato oferecido, em uma qualitativa com mil eleitores registrados do estrato latino, sublinha o desespero de Trump. Os tejanos preferem os candidatos democratas no estado em novembro em uma proporção de dois por um em relação aos republicanos, majoritários no estado desde os anos 1970. E, se em 2024 Trump venceu no grupo por 10 pontos de vantagem, agora somente 33% deles apoiam seu governo. Para o Senado no Texas, o deputado democrata James Talarico tem 63% do voto dos hispânicos, contra apenas 30% de apoio a seu adversário republicano, o advogado-geral do estado Ken Paxton. trumpista de primeira hora, ele teve papel tímido no Trumpapalooza desta terça-feira e ainda foi chamado, pelo presidente chistoso, de cafona, por seu peculiar estilo de se vestir. A margem é ligeiramente inferior na disputa pelo governo do Texas, com 60% dos latinos decididos pela deputada democrata Gina Hinojosa, contra 33% para o republicano Greg Abbott, que era favorito absoluto em sua tentativa de reeleição. Não mais. Entre os latinos do Texas, 62% também afirmam que irão às urnas em novembro especificamente para votar contra Trump e a Polícia de Imigração (ICE, na sigla em inglês) que afetou decisivamente seus negócios. E 20% dos hispânicos no estado que se identificam ideologicamente à direita farão o mesmo, especificamente pela “má condução da economia” pela atual Casa Branca. Nenhum deles dá sinal de que topariam tudo, inclusive mudar de voto, por dinheiro.