A alta dos combustíveis, além de elevar a inflação global em um momento em que as taxas de juros apontam para cima, traz dilemas a governos como o do Brasil 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagem de satélite da Planet Labs PBC mostra fumaça saindo da instalação de petróleo da Saudi Aramco na Arábia Saudita após ataque — Foto: Planet Labs PBC via AP A cotação do petróleo tipo Brent voltou a ultrapassar os US$ 100 o barril pela primeira vez desde julho. Ao contrário da explosão de preços repentina do início da guerra, eles se ajustaram lentamente levando em conta não só o prolongamento do conflito, que não tem fim à vista, como o balanço da oferta e demanda, com a diminuição contínua dos estoques oficiais. Com isso, os preços médios do ano estão em alta e empurrarão a inflação mais para cima em todo o mundo. Poderia ser pior: os efeitos do fechamento do Estreito de Ormuz foram menores do que o previsto, assim como a demanda efetiva. Em julho, durante a trégua acordada por Estados Unidos e Irã, os carregamentos de petróleo vindos do Golfo Pérsico atingiram 20 milhões de barris por dia, mas foram reduzidos a 12 milhões de barris quando o armistício se encerrou e chegam perto dos 2 milhões de barris agora, com a rota novamente fechada. Nos últimos dois dias, os EUA atacaram cargueiros com petróleo iraniano, o Irã atacou navios que trafegaram por Ormuz, e, em um sinal de maior agravamento futuro das condições de oferta, rebeldes houthis fizeram seus maiores ataques até agora contra instalações de petróleo e energia em quatro cidades da Arábia Saudita. A paz provisória dos rebeldes do Iêmen e da família real saudita foi rompida, e a guerra civil recomeçou. Além de os conflitos no Oriente Médio terem voltado a se intensificar, os ataques da Ucrânia contra as refinarias russas prosseguiram, e há estimativas de que pelo menos 3 milhões de barris por dia deixaram de ser exportados pelo país. A eles se acrescenta, segundo relatório de agosto da Agência Internacional de Energia (AIE), um corte do escoamento de 8,3 milhões de barris por dia da produção dos países do Golfo em relação a julho de 2025. As consequências do aumento de preços desde o início da guerra contra o Irã, porém, reduziram a demanda global por petróleo em 4,9 milhões de barris por dia. No suprimento entraram 410 milhões de barris das reservas estratégicas, liberadas desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, ou 2,7 milhões de barris por dia. Por outro lado, a produção de petróleo cresceu bastante nos países fora da região de conflito — Canadá, Brasil, Venezuela, Argentina, Guiana e EUA —, algo como 1,4 milhão de barris/dia. A procura também caiu não só pela alta das cotações, mas em grande parte porque a China diminuiu muito suas compras quando os preços começaram a disparar. Pequim formou estoques estratégicos estimados em 1,7 bilhão de barris, um volume superior ao 1,5 bilhão de barris estacionados nas reservas estratégicas do Ocidente, que garantem a oferta de petróleo por 300 dias. O maior consumidor de petróleo do mundo retirou-se do mercado na hora certa e garantiu seu abastecimento doméstico a preços médios menores do que os de seus concorrentes, com a contribuição da oferta exclusiva de seus aliados Rússia e Irã, alvos de sanções dos Estados Unidos. Os preços médios do ano estão subindo, e o Goldman Sachs acredita que eles se situarão em torno de US$ 85 o barril em 2026, cálculos que incluem um fluxo favorável pelo Estreito de Ormuz no último trimestre do ano. Mas não deverão cair muito no ano que vem. O banco projetou o preço médio do ano que vem em US$ 80 o barril com probabilidade de chegar a US$ 120 o barril se a queda do volume de petróleo que chega ao mercado for superior a 5 milhões de barris por dia. O regime iraniano está em maus lençóis pelas perdas causadas pelos bombardeios americanos e pelo fechamento do estreito por navios americanos, que impedem a saída de petróleo e o ingresso de importações. Impopular, terá de aumentar os preços dos combustíveis (um dos mais baratos do mundo) para enfrentar sua escassez. A decisão deve fazer a elevada inflação do país, de 88,7% em julho, subir mais ainda e ampliar o descontentamento popular, contido durante o esforço de guerra por severa repressão. O presidente Donald Trump, ao iniciar uma guerra sem estratégia e objetivos, fez um grande mal a si próprio. Os preços do diesel nos EUA batem recordes de alta e a popularidade de Trump, de baixa, a dois meses das cruciais eleições de meio de mandato, que podem torná-lo um mandatário sem poder, caso os democratas assumam o controle da Câmara e do Senado. O presidente não encontrou saída para encerrar o conflito declarando vitória, e isso está parecendo cada vez mais impossível. A alta dos refinados, além de elevar a inflação global em um momento em que as taxas de juros apontam para cima, traz dilemas a governos como o do Brasil. O Planalto tem prorrogado o subsídio de R$ 1,12 para o litro de diesel e 0,44 para o litro de gasolina. Até agora foram gastos R$ 7,03 bilhões e arrecadados, com o imposto compensatório de exportação de petróleo, R$ 8 bilhões. Uma MP abriu mais R$ 6,6 bilhões de créditos extraordinários para pagar os incentivos. Com o conflito sem solução e os preços do petróleo em alta ou mantendo-se em média elevada, até quando os subsídios serão mantidos? E se forem retirados, os reajustes de preços teriam de ser substanciais. Medidas difíceis deste tipo, no entanto, só serão tomadas após as eleições.