Visual que marcou festas e registros casuais da época ressurge nas redes sociais em meio ao excesso de filtros, retoques e ferramentas que buscam deixar cada clique mais perfeito 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Estética dos anos 2000 volta às fotos e transforma 'imperfeição' em tendência nas redes sociais — Foto: Pexels Depois de uma década em que câmeras de celulares cada vez mais potentes, filtros e ferramentas de edição transformaram a busca pela imagem perfeita em quase uma regra, a fotografia começa a flertar novamente com aquilo que antes parecia um defeito. Flash direto, granulação, registros tremidos, enquadramentos improvisados e o visual das antigas câmeras digitais compactas voltaram a aparecer em festas, ensaios e conteúdos nas redes sociais. A estética remete especialmente aos anos 2000, quando fotografar significava, muitas vezes, apontar a câmera e registrar o momento sem grandes preocupações com luz, composição ou retoques. A diferença é que, hoje, esse aspecto despretensioso pode ser cuidadosamente construído. O que parece um clique casual, em muitos casos, é uma escolha estética. Para o fotógrafo Fábio Bahiense, a volta desses elementos pode ser entendida como uma reação ao excesso de controle visual dos últimos anos. Depois de uma longa busca por imagens cada vez mais nítidas e corrigidas, o público estaria encontrando charme justamente no que escapa à perfeição. "Passamos muitos anos buscando câmeras com cada vez mais resolução, lentes mais precisas e imagens extremamente limpas. Agora acontece um movimento curioso: justamente porque todo mundo consegue produzir uma fotografia tecnicamente perfeita com o celular, a imperfeição voltou a ter personalidade. O flash estourado, um pequeno movimento, o grão ou um enquadramento inesperado podem transmitir uma sensação de espontaneidade que uma fotografia excessivamente controlada às vezes perde", explica. O flash direto está de volta Um dos elementos mais reconhecíveis dessa estética é o flash frontal, tão presente nos registros de festas e encontros dos anos 2000. Durante muito tempo associado a uma iluminação pouco sofisticada, ele passou a ser usado de maneira deliberada por fotógrafos que querem justamente recuperar aquela aparência mais crua. A luz frontal reduz parte das sombras e cria um efeito imediatamente identificável. Para Bahiense, o resultado pode parecer simples, mas depende de decisões conscientes. "O flash direto tende a reduzir as sombras frontais e, consequentemente, diminui parte do contraste produzido por elas. Ao mesmo tempo, cria uma iluminação muito característica. Aquilo que muitas vezes era evitado hoje pode ser usado conscientemente como linguagem. A diferença é que a aparente espontaneidade continua exigindo domínio de luz, composição e momento", afirma. As fotos 'ruins' dos anos 2000 estão de volta: entenda por que viraram tendência — Foto: Pexels As compactas voltaram ao desejo Outro símbolo dessa retomada são as câmeras digitais compactas, que passaram de objetos considerados ultrapassados a itens disputados por quem procura justamente o visual que os aparelhos atuais tentam superar. A resolução inferior, as cores particulares e o flash embutido ajudam a produzir um resultado difícil de reproduzir exatamente com os celulares mais modernos. Mas recorrer a uma estética aparentemente imperfeita não significa abrir mão de técnica. Há diferença entre um registro que deu errado e uma escolha consciente de linguagem. "Existe uma diferença enorme entre uma fotografia que ficou ruim por acidente e uma imagem em que o fotógrafo conscientemente utiliza movimento, granulação, flash ou um enquadramento diferente para construir uma linguagem. Para quebrar uma regra visual de forma interessante, você precisa primeiro entender por que aquela regra existe. O sofisticado pode estar justamente em fazer algo parecer simples", pondera. Quando parecer real vira diferencial A volta desse visual também acontece em meio à popularização de filtros, inteligência artificial e ferramentas capazes de alterar praticamente qualquer aspecto de uma fotografia. Quanto mais acessível se torna a possibilidade de corrigir, suavizar e transformar uma imagem, maior pode ser o apelo de registros que preservam marcas do instante em que foram feitos. Para Bahiense, é justamente aí que está parte da força desse movimento. "Quanto mais fácil fica construir uma imagem perfeita, mais interessante pode se tornar aquilo que parece verdadeiro. Uma expressão inesperada, alguém em movimento ou uma fotografia que não parece ter sido repetida vinte vezes carregam uma sensação de momento. No fim, fotografia sempre foi sobre isso: registrar algo que aconteceu e não vai acontecer exatamente daquela maneira outra vez", conclui.