'Gosto da ideia de tirar uma foto uma só vez', diz consultora de viagens 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Casal Gabriela Baratela e Kelvim Fraga usam câmera com filme de 72 poses no Rock in Rio 2026 — Foto: Thayná Rodrigues / O Globo Ondas nostálgicas tomaram os primeiros quatro dias de Rock in Rio. Não só pelos hits dos anos 2000 de Ne-Yo, Black Eyed Peas e Barão Vermelho, que contagiaram o público. Na plateia e no gramado, dezenas de pessoas portavam câmeras analógicas e equipamentos digitais como os que eram sucesso de vendas nos anos em que o Rock in Rio teve sua terceira edição e ainda era realizado em Jacarepaguá, e não na Barra Olímpica. No Rock in Rio 2026, o casal Gabriela Baratela, de 30 anos, e Kelvim Fraga, de 34, à espera da apresentação de Elton John, admitiu a saudade do passado e contou por que usam a câmera com filme de 72 poses. Para os dois, a expectativa pelas imagens e a sensação de reviver o dia especial fotografado empolgam. — Gosto da ideia de tirar uma foto uma só vez, esperar para ver como vai ficar quando revelar... A gente consegue viver mais o festival sem ficar tirando fotos toda hora — diz a consultora de viagens, que era adolescente nos anos 2000. — Não gosto de ficar com o celular toda hora. Acho legal viver com calma e olhar realmente aquelas imagens, não só postar para os outros verem. Thiago Soares, especialista em cultura pop e professor da Universidade Federal de Pernambuco, explica que um dos motivos para a volta das câmeras analógicas ou das digitais é exatamente um cansaço do comportamento da era hipertecnológica ou de um imediatismo em excesso. Há quem use os equipamentos seguindo trends comportamentais, mas há quem de fato aprecie outras formas de registrar momentos especiais como um festival. — Um dos argumento é o de um certo esgotamento dinâmica das telas, das práticas ultradigitalizadas. Parte da juventude adere, então, a estéticas como a das câmeras, a cultura do vinil, tem também os fãs do cassete. Também há pessoas da chamada Geração Z, que nasceram dentro desse sistema da cultura digital, que desenvolvem certa recusa (ao imediatismo) — diz o professor. Os que usam as câmeras digitais dos anos 2000 também têm objetivos focados no tipo de imagem gerada: a estética imperfeita das fotos com flash estourado, granulação, cores mais saturadas e menor definição se sobrepõe à da imagem de alta definição dos celulares atuais. Por isso, a Geração Z e jovens adultos têm resgatado referências de 20 anos atrás, como a moda Y2K, iPods, câmeras digitais compactas. Para o Rock in Rio, Marcella Gribler, que foi ao show de Calvin Harris, lançou mão de uma câmera digital à prova d'água. Ela explica por quê: — Dá outro efeito tirar fotos com essa câmera em vez do celular. E não uso só em shows. Também levo para a faculdade para tirar fotos com meus amigos. Marcela Gribler, de 20 anos, trocou o celular por uma câmera digital — Foto: Léo Ribeiro / O Globo Além de evitar se expor com o celular sob chuva, fãs como ela aderem à preferência por registros mais espontâneos. Diferentemente do celular, usado para tudo, a câmera digital cria uma espécie de ritual para registrar momentos específicos, como festas, viagens e encontros. Mas há, é claro, influências de celebridades e influenciadores que fazem sucesso nas redes socais. Nas redes sociais, pipocam conteúdos em que modelos compactos das marcas Canon, Sony, Nikon e Fujifilm são mostrados. A baixa resolução virou um charme. O professor Thiago Soares crê que há, também, grande investimento em performances pautadas pelo digital. — Muitas vezes é performar nostalgia. É algo conectado com uma série de trends da cultura digital. Não à toa, também há uma trend de inteligência artificial, em que as pessoas estão voltando no tempo. Tem vários filtros, aplicativos, brincadeiras em que as pessoas brincam que estão numa locadora ou em algum cenário que remeta àquela época — diz Soares. No Rock in Rio, algumas marcas se aproveitaram do modismo. No camarote de uma marca de delivery, a comunicóloga Vittoria Alves, de 27 anos, se empolgou ao ganhar uma mini câmera retrô. — Era o único brinde do Rock in Rio que eu realmente queria. Gosto muito de registrar meus momentos no geral, mas além disso eu não gosto de ficar com o celular na mão em festival. Gosto de curtir. Ultimamente, as pessoas estão vivendo muito numa "vibe" de filmar tudo e curtir menos. Então, essa câmera também foi uma forma registrar o festival sem ser só para a rede social. Obviamente eu fiz imagem com meu celular, mas foi bem menos, só em momentos específicos. Vittoria Alves, de 27 anos, se empolgou ao ganhar uma mini câmera retrô no Rock in Rio — Foto: Arquivo pessoal