Merz diz que política de ‘remigração’ paralisaria setores da economia e critica aproximação da legenda com a Rússia; partido obteve quase 44% dos votos na Saxônia-Anhalt 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz diz que fará 'tudo' para que UE suspenda proibição da venda de veículos novos com motores a combustão — Foto: Odd Andersen/AFP O chanceler alemão, Friedrich Merz, acusou nesta quarta-feira o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) de defender uma “limpeza étnica” com sua proposta de “remigração”, em seu primeiro confronto público com a legenda desde a vitória histórica da sigla nas eleições de domingo na Saxônia-Anhalt. Em debate no Bundestag, a Câmara Baixa do Parlamento, o líder também atacou a aproximação da AfD com a Rússia e afirmou que uma política de deportações em massa colocaria em risco setores fundamentais da maior economia da Europa. — O termo “remigração” nada mais é do que um sinônimo de limpeza étnica com base na origem e na cor da pele — afirmou Merz, sob aplausos de parlamentares. — O que define vocês é o desprezo por nossas instituições democráticas e a constante desqualificação pessoal dos representantes do nosso Estado. Essa é a marca da política de vocês. A AfD obteve quase 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, seu melhor resultado no estado e o desempenho mais forte de um partido de extrema direita em uma eleição estadual alemã desde a a Segunda Guerra Mundial. A legenda ficou a três cadeiras da maioria absoluta, enquanto a União Democrata Cristã (CDU), de Merz, que governa a região desde 2002, obteve 17% dos votos e viu seu apoio cair pela metade. O chanceler reconheceu que sua própria impopularidade contribuiu para o resultado de seu partido, mas minimizou a vitória da sigla adversária. — Cinquenta e seis por cento dos eleitores da Saxônia-Anhalt não votaram em vocês. Em nenhum lugar da Alemanha vocês conseguirão maioria. Vocês são e continuarão sendo uma força destrutiva — disse. O principal candidato da AfD no estado, Ulrich Siegmund, busca agora apoio entre integrantes de outras legendas para ser eleito chefe do governo estadual. Merz o acusou de “fraude eleitoral” por romper uma promessa de campanha de não tentar governar caso não conquistasse maioria absoluta. A AfD é classificada como extremista de direita pelo serviço de inteligência doméstico alemão em partes de sua estrutura, e a vitória reacendeu discussões sobre como os demais partidos — e mesmo como os demais países na Europa — devem lidar com seu avanço. Política migratória Uma das principais propostas da AfD é a chamada “remigração”, termo associado à expulsão em larga escala de estrangeiros. Embora a plataforma oficial da legenda se concentre na deportação de migrantes que não obtenham asilo ou cometam crimes, o serviço de inteligência doméstico afirma que diversos representantes do partido defendem expulsões muito mais abrangentes. Na Saxônia-Anhalt, a sigla discutiu a criação de uma “força-tarefa de deportação” financiada pelo estado, além de mudanças no funcionalismo público e no sistema educacional para eliminar o que classifica como “doutrinação de esquerda”. Merz afirmou que uma política de expulsões em larga escala afetaria milhões de pessoas de origem migrante que trabalham no país e comprometeria o funcionamento de setores inteiros da economia. O chanceler, que tem endurecido a própria política migratória na tentativa de recuperar eleitores da AfD, reconheceu que a Alemanha ainda enfrenta “problemas na área da migração” e defendeu o aumento das deportações de pessoas sem direito de permanecer no país. — Ainda temos muitas pessoas na Alemanha que não deveriam ter residência permanente. Há um consenso na coalizão de que precisamos deportar mais pessoas — afirmou. — Mas fazemos uma distinção cuidadosa entre aqueles que trabalham na Alemanha, que contribuem para nossa prosperidade e que são bem-vindos aqui, e aqueles que não têm residência permanente na Alemanha e que precisam deixar nosso país. Ao contrário de vocês, temos muito cuidado ao fazer essa distinção. Em discurso, Merz, que foi repetidamente interrompido por provocações e vaias da bancada da AfD, afirmou que milhões de imigrantes são indispensáveis à sociedade e à economia alemãs. A saída desses trabalhadores, disse, afetaria desde profissões especializadas até hospitais, casas de repouso e restaurantes. — Se aqueles que trabalham na Alemanha tiverem de deixar o país novamente porque vocês defendem a “remigração”, então os setores de mão de obra especializada não conseguirão mais funcionar. Nenhum asilo para idosos permanecerá aberto, nenhum hospital continuará funcionando e nenhum restaurante conseguirá permanecer em atividade — disse. — É precisamente isso que está dividindo nossa sociedade. ‘Mudança de política’ Pouco antes do discurso do chanceler, a copresidente da AfD, Alice Weidel, celebrou o resultado eleitoral e afirmou que a CDU havia sido “pulverizada” na Saxônia-Anhalt. Os 44% conquistados pela legenda, afirmou, representaram um referendo sobre a liderança de Merz e mostraram que a coalizão entre os conservadores e os Social-Democratas de centro-esquerda estava “acabada”. Weidel atacou os gastos do governo financiados por endividamento, o apoio alemão à Ucrânia e a política migratória, que responsabilizou pela criminalidade e por outros problemas de segurança. A dirigente afirmou que o governo havia permitido a entrada de milhares de migrantes “de culturas tribais muçulmanas” e disse que a “imigração em massa” provocou um aumento da criminalidade e de atos de violência brutal. As estatísticas criminais alemãs mostram uma sobrerrepresentação de estrangeiros em determinados tipos de crimes, mas pesquisadores ressaltam que esses dados, por si só, não permitem estabelecer uma relação direta de causalidade entre imigração e criminalidade. Weidel, por sua vez, afirmou que os dias da coalizão estavam “contados” e reiterou a ambição da AfD de chegar ao governo federal. — O tempo de vocês acabou. A população quer uma mudança de política, e vai consegui-la — disse Weidel. — Essa tentativa de continuar levando as coisas como sempre equivale a uma declaração de rendição. Merz também atacou a AfD por sua oposição à assistência militar à Ucrânia e por sua proximidade com a Rússia. Berlim acusa Moscou de promover operações de sabotagem e desinformação em território alemão, e o chanceler citou um ataque frustrado com um drone carregado com explosivos no aeroporto de Leipzig no mês passado, que, segundo as autoridades, teria sido planejado na Rússia e direcionado contra a Alemanha. Apesar das “evidências claras” de envolvimento russo no episódio, disse Merz, a AfD manteve silêncio. Nova pressão Berlim adiou um telefonema agendado para esta quarta-feira entre Merz e Donald Trump, após o presidente americano parabenizar a AfD pela vitória nas eleições. A ligação estava na agenda de Merz por ocasião do 25º aniversário dos atentados do 11 de Setembro. Questionado por repórteres sobre o motivo do adiamento, o porta-voz do governo, Stefan Kornelius, se recusou a dar detalhes, mas afirmou que não se tratava de um “conflito de agenda” e que “uma nova data não foi definida”. Em publicação nas redes sociais na terça-feira, Trump celebrou a “grande noite” do partido e atribuiu seu avanço às “regras de imigração absolutamente horríveis” da Alemanha. “MGGA!!!”, acrescentou, em uma adaptação para a Alemanha de seu slogan MAGA, sigla em inglês para “Tornar a América Grande Novamente”. O resultado aumentou a pressão sobre Merz, cujo apoio caiu desde que ele assumiu o cargo há 16 meses à frente da coalizão com os Social-Democratas. O governo enfrenta insatisfação com o baixo crescimento econômico, o custo de vida e a alta dos preços da energia. O chanceler também convive com especulações de que poderia ser substituído diante da dificuldade de suas reformas em conquistar apoio popular, embora tenha descartado deixar o cargo. Merz afirmou que a CDU fará um balanço de sua situação após outras duas eleições estaduais marcadas para 20 de setembro. A AfD lidera as pesquisas nacionais, com variações entre 28% e 29% das intenções de voto, enquanto levantamentos indicam que a atual coalizão governista não teria maioria caso uma eleição federal fosse realizada agora. O próximo pleito nacional está previsto para 2029. O avanço da AfD também voltou a alimentar a discussão sobre uma eventual proibição da legenda. Hendrik Wüst, dirigente da CDU e chefe do governo da Renânia do Norte-Vestfália, defendeu a criação de um grupo de trabalho entre o governo federal e os estados para analisar as possibilidades de banir o partido, hipótese debatida há anos na Alemanha. A proposta sinaliza uma possível mudança dentro da CDU, que historicamente tem se mostrado cética em relação à medida. “Recomendo cautela para que não nos precipitemos em uma decisão sobre a proibição da AfD”, afirmou Wüst em publicação nas redes sociais. “Proibir um partido político só pode ser um último recurso para proteger nossa Constituição”. (Com Bloomberg e AFP)
Chanceler alemão acusa AfD de defender ‘limpeza étnica’ após avanço histórico da extrema direita na Alemanha
Merz diz que política de ‘remigração’ paralisaria setores da economia e critica aproximação da legenda com a Rússia; partido obteve quase 44% dos votos na Saxônia-Anhalt











