Fontes: anuário Valor 1000 (edição 2026) e IBGE. Elaboração: Valor Data. Deflator: IPCA/ IBGE. Obs.: dados extraídos dos rankings das edições entre 2002 e 2026 — Foto: Arte/Valor O ano de 2025 foi melhor do que 2024 para o conjunto das mil maiores empresas do Brasil. A evolução aparece em diferentes indicadores, como receita líquida e lucro. Mas a disparidade dos resultados evidencia diferenças extremas no vigor dos setores e também problemas a solucionar na economia do país. A receita líquida somada do conjunto das mil maiores aumentou 7,8% (de R$ 7,6 trilhões para R$ 8,3 trilhões). É o segundo ano seguido de crescimento real (de 3,2%) após a queda de 2023, e o melhor resultado desde 2022. No lucro, a virada foi ainda maior: alta de 26% nominal e 21% real, depois de um triênio com estagnação (leve recuo de 1,5% em 2022) e quedas acentuadas (28% em 2023 e 26% em 2024). O lucro líquido agregado subiu 25,8% (de R$ 337,5 bilhões para R$ 424,3 bilhões). A parcela de companhias trabalhando no azul subiu de 81% para 84%. Até aí, temos uma coleção de bons sinais. — Foto: Arte/Valor “O problema é a origem dessa recuperação”, avalia Cláudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV (FGVcef), parceira do Valor no levantamento. “Ela não veio da operação.” A pesquisadora aponta que o lucro bruto, embora tenha crescido em termos nominais, encolheu 0,6% em termos reais. O mesmo ocorreu com o Ebitda, também com crescimento nominal, mas encolhimento de 0,12% em termos reais. A geração de caixa operacional das mil maiores ficou parada em termos reais. A margem bruta e a margem Ebitda apresentaram recuos leves (para 23% e 17%, respectivamente). A base da recuperação aparece na análise por pareamento (ou seja, a comparação de resultados das mesmas companhias, referentes a 2024 e 2025): um grupo restrito de empresas conseguiu cortar de forma relevante os gastos com gestão de dívidas. “O alívio não foi disseminado”, destaca a professora. “Das 845 empresas pareadas, apenas 375 melhoraram a linha financeira. A maioria ‘pagou’ mais em 2025, coerentemente com a Selic em alta.” Mesmo com a concentração no alívio financeiro, essas 375 empresas conseguiram provocar um efeito no resultado agregado. Nas mil maiores, as despesas financeiras diminuíram 34% em termos reais (para R$ 303,7 bilhões). No conjunto, foram R$ 140 bilhões economizados, um valor mais impactante que os R$ 87 bilhões de aumento do lucro líquido. — Foto: Arte/Valor Mateus Bueno, gerente-executivo de dados da datatech Serasa Experian, também parceira no anuário Valor 1000, concorda com Yoshinaga e destaca outros dois padrões que observou entre as empresas na pesquisa. O primeiro é que tamanho e rentabilidade continuam sendo atributos bem distintos. “As líderes de receita em 2025 são Petrobras, JBS, Raízen, Vale e Vibra”, enumera Bueno (com, respectivamente, R$ 498 bilhões, R$ 481 bilhões, R$ 226 bilhões, R$ 214 bilhões e R$ 189 bilhões). “Já as líderes de margem são companhias menores, como Eldorado, B3 e CBMM. Os dois grupos quase não se sobrepõem, o que mostra que faturar muito e ser altamente rentável permanecem como resultados muito diferentes.” O segundo padrão identificado pelo especialista aparece na forma de concentração extrema de lucro. “O setor de petróleo e gás, isoladamente, respondeu por R$ 102 bilhões do lucro de 2025, ou seja, um quarto do total, seguido por energia elétrica, com R$ 51 bilhões, e alimentos e bebidas, com R$ 42 bilhões”, aponta. “A líder isolada é a Petrobras, com lucro correspondente a mais de sete vezes o resultado da segunda colocada, a Ambev. Uma única companhia responde, portanto, por uma parcela expressiva de todo o lucro das mil maiores.” — Foto: Arte/Valor Na avaliação geral, acrescenta Yoshinaga, 2025 foi um ano bom no resultado e apenas razoável no desempenho dos grupos. “As empresas apresentaram um lucro que recompõe parte do que perderam em 2023 e 2024, mas o fizeram com margem operacional estagnada”, analisa. “Poderia ter sido melhor. O que ficou pelo caminho não foi a demanda, mas a capacidade de transformar receita em margem.” A estudiosa aponta que pelo menos três fatores ajudaram a sustentar o crescimento da receita das empresas durante o ano passado. O primeiro é o complexo agroalimentar, que responde por mais de um terço de toda a receita incremental. Sozinho, o setor de alimentos e bebidas contribuiu com R$ 120 bilhões ou um quinto do crescimento total, enquanto o agronegócio entrou com R$ 88 bilhões ou 15%. Não à toa, três entre as dez maiores empresas do ranking — JBS, MBRF e Cargill — atuam nesses segmentos. “Aqui, duas forças se somaram: safra cheia e preços internacionais favoráveis da proteína animal”, afirma. — Foto: Arte/Valor Dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) mostram que o setor de alimentos e bebidas faturou R$ 1,3 trilhão em 2025 ou 11% do Produto Interno Bruto (PIB), aponta Willian Valiante, sócio de consultoria para varejo da EY na América Latina. “Trata-se de um crescimento nominal de aproximadamente 8% em 2025”, compara. “O mercado interno respondeu por cerca de R$ 1 trilhão, enquanto as exportações somaram aproximadamente R$ 373 bilhões.” Valiante explica que a evolução foi tracionada pela recuperação gradual do consumo das famílias, apoiada pelo aumento da renda e manutenção do emprego. “Além disso, o consumo fora do lar continuou crescendo e fortaleceu canais de vendas como restaurantes, bares e redes de alimentação”, afirma. Outros resultados da pesquisa se relacionam às transformações em andamento nos setores ligados a energia. A Petrobras, maior empresa do país, obteve receita líquida de R$ 498 bilhões em 2025, valor 1,4% superior ao obtido em 2024. “A produção nacional de petróleo e gás foi de 4,9 milhões de barris de óleo equivalente por dia, um crescimento de 13% em relação ao ano anterior”, informa Bruno Marcondes, sócio-líder de óleo e gás da KPMG no Brasil. Na visão do especialista, o país tem condições únicas para continuar como protagonista global no setor de combustíveis em geral. Prova disso é que, na lista das dez maiores empresas do ranking, cinco atuam em combustíveis — Petrobras, Vibra, Cosan e Ultrapar, além da Raízen, em recuperação extrajudicial. “Temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, petróleo com baixa intensidade de carbono e a liderança global em biocombustíveis”, avalia Marcondes. Nessa linha, o desempenho do setor de energia elétrica também foi considerado pelos especialistas um fator de reforço ao incremento da receita das companhias analisadas — cresceu 14% e adicionou R$ 69 bilhões ao bolo. “Aqui, a expansão é estrutural, com geração renovável entrando em operação e a comercialização livre ganhando escala”, analisa Yoshinaga, da FGV, lembrando que empresas como Matrix Energia, Casa dos Ventos, Auren, Eneva e Serena estão no segmento. “É a transição energética virando receita contabilizada.” A escalada da receita das empresas foi amparada ainda com o consumo doméstico, sustentado por massa salarial aquecida, que acrescentou R$ 66 bilhões ao varejo. “Emprego e renda seguraram o varejo mesmo com juro alto, o que significa que o consumidor comprou financiando a si próprio e não a crédito barato”, avalia a pesquisadora. O Grupo Carrefour Brasil foi o único do comércio varejista a figurar no top 10 dos maiores grupos. Para Paulo de Tarso, sócio-líder da indústria de consumo da Deloitte, o comércio atacadista exibiu vigor no crescimento, mesmo diante de um ambiente macroeconômico hostil, cercado por juros altos, que comprimem as margens de lucro, e pressões inflacionárias, com variações nos preços de insumos básicos e custos logísticos, como combustíveis e fretes. “Para as grandes corporações, esse cenário reforça a necessidade de buscar eficiência operacional e maior controle de custos, sem comprometer a capacidade de atendimento e a distribuição”, avalia. O comércio atacadista faturou R$ 617 bilhões em 2025, ante R$ 526 bilhões em 2024, o que representa um crescimento nominal de 17% no período, segundo dados da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (Abad). “A busca por eficiência operacional e tecnológica tende a ganhar mais importância entre as companhias do ramo”, diz Tarso. “Inteligência artificial, automação robótica, soluções de rastreabilidade e IoT [internet das coisas] podem ajudar a melhorar a gestão de estoques e de logística, o atendimento e o relacionamento com os clientes.” Bueno, da Serasa Experian, lembra que, apesar dos números positivos dos 28 setores avaliados, o ano ofereceu desafios para as empresas. “O primeiro foi o custo do dinheiro”, aponta. “A Selic encerrou 2025 em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas, ao fim de um ciclo de aperto monetário deliberado. Isso atinge as operações ao encarecer o serviço da dívida contratada e esfria a demanda financiada a crédito, pressionando a receita.” Os dados do Valor 1000 mostram quanto esse fator pesou no conjunto das operações: cerca de 70% das companhias fecharam o ano com resultado financeiro líquido negativo, ou seja, o que pagaram de juros e encargos superou o que ganharam em investimento financeiro. O segundo desafio, continua o especialista, foi o nível de alavancagem com que as empresas chegaram a esse ambiente de negócios. “O endividamento oneroso agregado das companhias do ranking equivale a 2,7 vezes o Ebitda do ano e cerca de um terço delas carrega dívida onerosa acima de três vezes o próprio Ebitda”, detalha. Chegamos assim a uma combinação crítica: “um estoque de dívida elevado encontra o custo de carregá-lo no maior nível, em quase duas décadas”. A análise do cenário e do desempenho de empresas e setores em 2025 oferece pistas sobre como avançar, mesmo com os obstáculos. Valiante, da EY, sugere uma lista de tarefas para as companhias de setores variados melhorarem os resultados de agora em diante. “Nos próximos anos, as organizações que conseguirem combinar inovação, digitalização dos negócios e excelência operacional estarão mais bem posicionadas para capturar crescimento e proteger as margens”, afirma. Yoshinaga, da FGV, extrai lições valiosas da pesquisa. “Observando as companhias que se saíram bem, identifico estratégias recorrentes como o corte cirúrgico de estruturas e a gestão ativa do passivo”, diz. “As despesas operacionais das mil maiores caíram R$ 29 bilhões, uma redução de 6,5% em termos reais, e isso permitiu ao lucro da atividade crescer 8,7% reais, enquanto o lucro bruto recuava 0,6%”, compara. “As melhores companhias fizeram triagem de projetos e de estrutura, não um corte linear.” Na gestão ativa de contas pendentes, a pesquisadora registra, entre as campeãs, outra dinâmica digna de cópia. “Num ano em que a linha financeira ainda consome 38% do lucro operacional do conjunto, cada real de dívida abatido ou alongado rendeu mais do que a maioria dos projetos de expansão disponíveis”, sugere. “As empresas que trataram a desalavancagem como projeto, à frente do crescimento, chegaram a 2026 em uma posição melhor, o que parece contraintuitivo para o gestor brasileiro, treinado para crescer.” Yoshinaga chama a atenção ainda para os benefícios da receita dolarizada e da diversificação geográfica funcionando como proteção das operações. Basta observar quem está no topo das altas nos números, sinaliza. “A Kinross (mineração) com 68% de crescimento, a Anglogold Ashanti (mineração) com 54%; a Inpasa (bionergia) com 67%; a Minerva (alimentos e bebidas) com 61%”, indica. “Aqui temos ouro, etanol e proteína, todos com receita indexada a moeda forte, enquanto o custo é em real. Em 2025, as vencedoras não foram apenas as que mais cresceram, mas as que cresceram gastando menos capital e estrutura.” Para o encerramento de 2026 e para 2027, a professora de finanças da FGV recomenda linhas de ação com o máximo de atenção à qualidade do lucro, à gestão de dívidas e à reconstrução da margem bruta. “Como a recuperação das empresas veio da linha financeira e não da operação, e está concentrada em pouco mais de uma dezena de companhias cuja perda cambial de 2024 se reverteu, há uma parcela relevante do resultado que não é recorrente”, diz ela. “Os conselhos e comitês de auditoria deveriam pedir agora a decomposição do resultado financeiro entre juros e variação cambial, para saber com que base as operações estão trabalhando.” A janela de rolagem de dívida, um tema ao mesmo tempo urgente e menos discutido entre os gestores, segundo Yoshinaga, não pode sair do radar nos próximos meses. “Se o ciclo de queda de juros se confirmar, quem alongar o perfil cedo trava uma vantagem competitiva plurianual sobre o concorrente que esperar”, explica. “Alongamento de prazo agora vale mais do que redução de taxa depois. A tesouraria deixou de ser uma função de suporte e passou a ser estratégica.” Sobre a fatia da receita que sobra após a dedução dos custos, ela diz que é preciso reconstruir mais margem bruta e não apenas perseguir volume. “Um dos dados mais preocupantes do Valor 1000 deste ano é a margem bruta cedendo quase um ponto percentual, num ano de crescimento real de receita”, anota Yoshinaga. Se essa tendência persistir, o problema deixa de ser financeiro e contamina o modelo de negócio. “As empresas precisam responder qual parte do portfólio destrói valor mesmo quando crescem, o que pede mais revisão produto a produto, em vez de novos cortes horizontais [de estrutura].” Em agosto, segundo o Boletim Focus do Banco Central, o mercado projetava a Selic em torno de 13,75% ao fim de 2026 e próxima de 12% em 2027, o que aponta para um alívio bastante lento, acrescenta Bueno, da Serasa Experian. “Nessa configuração, as empresas que dependem de crédito precisam priorizar a geração de caixa própria e a desalavancagem, em vez de apostar em financiamento barato”, aconselha. Outra frente de preocupação é a desaceleração da atividade econômica. “O boletim projeta crescimento do PIB da ordem de 2% em 2026, com recuo para cerca de 1,5% em 2027, trajetória que sugere atividade ainda sustentada em 2026, seguida de arrefecimento em 2027”, pondera. “Por isso, a recomendação é concentrar esforço em eficiência operacional, defesa de margem e diversificação da receita.”