Chegada do El Niño aumenta a pressão por medidas de prevenção e continuidade dos negócios diante da urgência climática 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fajardo, do Cebds: chegou a hora de avançar do diagnóstico para a execução — Foto: Divulgação Às vésperas de um El Niño previsto para atingir seu pico entre outubro e dezembro, as empresas voltam a enfrentar um teste de prontidão para eventos climáticos extremos. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) calcula em 81% a probabilidade de o fenômeno chegar desta vez à faixa mais alta da escala, em um cenário de aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial combinado com atmosfera aquecida pelas emissões de gases de efeito estufa. O episódio reforça a necessidade de adaptação climática no setor privado, com medidas capazes de reduzir impactos sobre operações, cadeias de fornecedores, infraestrutura e receitas. De acordo com o estudo Global Climate Action Barometer, realizado pela consultoria EY com 857 companhias de 50 países escolhidas por sua liderança em gestão climática, 92% avaliam riscos físicos, mas apenas 44% têm medidas de adaptação em vigor. O mesmo levantamento mostra que o custo médio da inação — ou seja, não fazer nada — chega a 15% da receita anual, quase o dobro dos 8% que as empresas pretendiam investir. As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 e as rajadas de vento acima de 100 quilômetros por hora em São Paulo e no Rio no fim de julho não dependeram do El Niño para acontecer. Nos dois casos, houve queda de energia, estradas interditadas e, nas enchentes, mortes, perda de estoques e destruição de infraestrutura. Os episódios mostram que os extremos já afetam as empresas, independentemente do El Niño. O fenômeno acrescenta novos fatores à equação no futuro próximo — no Sul, maior risco de enchentes; no Norte, maior risco de secas; no Centro-Oeste, chuvas irregulares. O Insper Agro Global projetou uma safra recorde no cenário-base de 2026/2027, mas calculou que uma quebra de 6% na soja brasileira reduziria a relação entre estoques e consumo mundiais de 28% para 25%, o suficiente para pressionar os preços. Nicolletti, do FGVCes: adaptação é assunto de finanças e gestão de riscos — Foto: Piti Reali/Divulgação Para Alessandra Fajardo, diretora-executiva técnica do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), a fase de diagnóstico sobre os riscos climáticos na operação das empresas ficou para trás. Dos 82 relatórios avaliados no último Reporting Matters, um estudo realizado pelo Cebds, 75% já aplicam a dupla materialidade, que mede o impacto da empresa sobre o meio ambiente e o efeito da mudança do clima sobre o negócio. “O desafio agora é transformar essa maturidade em planos de adaptação com metas, orçamento, responsáveis, indicadores e investimentos”, diz. A mudança de maturidade entre as empresas foi perceptível após a realização de duas edições do Fórum Empresarial de Adaptação à Mudança do Clima, encontro bienal do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces). De acordo com a coordenadora do programa Adapta do FGVCes, Mariana Nicolletti, em 2024 discutia-se onde buscar dados e como montar o diagnóstico de riscos. Neste ano, a maior parte das grandes e médias empresas de infraestrutura, energia, saneamento e transportes chegou com planos prontos e com dúvidas sobre a execução. Para Nicolletti, um problema no caminho da implementação é a posição do tema dentro das organizações. “A adaptação precisa deixar de ser uma agenda de sustentabilidade e estar em finanças, gestão de pessoas e gestão de riscos, com as metas e os indicadores refletidos nessas áreas”, diz. Ela acrescenta que ainda há pouca gente capacitada no tema, o que faz de treinamento e disseminação parte do próprio investimento em adaptação. Ananias, da CNA: custo de certificação pesa sobre os produtores — Foto: Wenderson Araujo/Divulgação Na indústria, o setor têxtil vem trocando a captação de água em rios por circuitos de reúso, um movimento que se repete na petroquímica. Em petróleo e gás, com a infraestrutura concentrada na faixa costeira, a adaptação passou a ser tratada como gestão de ativos diante da elevação do nível do mar. De acordo com o superintendente de meio ambiente e sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Davi Bomtempo, essas obras entraram no orçamento de investimento. “Adaptar a infraestrutura custa caro, mas lidar com os efeitos de um evento climático extremo depois é muito mais oneroso”, afirma. Ao pensar no agronegócio, o coordenador de sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Nelson Ananias Filho, lembra que a adaptação ao clima faz parte da trajetória do setor — assim a soja foi para o Cerrado e a fruticultura para o semiárido. O zoneamento agrícola de risco climático, refeito a cada ano pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, diz o que deve ser plantado em cada região e em qual momento. Há, também, o uso de pastagens de raiz profunda que puxam água de camadas mais fundas na estiagem, enquanto o cruzamento de animais de raças adaptadas ao calor reduz a perda de peso do rebanho. Para Ananias Filho, a adaptação no campo convive com outro desafio: o custo de atender às exigências de certificação. Compradores externos, como os países da União Europeia, passaram a exigir esse tipo de comprovação, e a auditoria custa o mesmo para qualquer tamanho de propriedade. Quem tem escala consegue diluir o valor na produção, enquanto os menores precisam absorvê-lo por conta própria. O executivo alerta que há dificuldade de comprovar o que já é feito da forma ambientalmente responsável. Segundo ele, o produtor médio sofre mais, por não se enquadrar nas políticas da agricultura familiar nem ter porte para pagar assistência técnica própria. A adaptação também depende de acesso a financiamento. O governo federal publicou a Estratégia Nacional de Adaptação e os 16 planos setoriais que a acompanham. O texto mostra que 84,5% dos municípios brasileiros foram atingidos por desastres na última década. O Fundo Clima, operado pelo BNDES, tem orçamento de R$ 27,5 bilhões neste ano, e suas aprovações para adaptação subiram de R$ 547 milhões em 2024 para R$ 2,4 bilhões em 2025. Apesar de o recurso existir, muitas empresas não sabem como acessá-lo. Nicolletti afirma que mesmo as grandes companhias não sabem a qual instrumento recorrer quando um projeto precisa de garantia ou de alavancagem de capital. “O setor empresarial está perdido em relação a isso”, diz. Segundo ela, o próprio governo reconhece a necessidade de reunir os programas em uma plataforma. Projetos de retorno longo também acabam perdendo a prioridade de aplicação quando há outras opções na análise financeira da companhia. Ao mesmo tempo que a adaptação avançou, ela ainda não tem o peso da mitigação — o esforço para reduzir as emissões de gases de efeito estufa — nas decisões corporativas. Para Bomtempo, o que mudou a conversa foi a associação do investimento com resultados financeiros. “A partir do momento em que essa agenda se conecta com competitividade, ela deixa de ser só ambiental e passa a ser econômica”, afirma. O que o El Niño poderá revelar é se a execução de planos acontece com a urgência necessária.
Valor 1000: Empresas se preparam para o impacto dos eventos climáticos
Chegada do El Niño aumenta a pressão por medidas de prevenção e continuidade dos negócios diante da urgência climática






