Quem acompanha o noticiário certamente já se deparou com alertas sobre o retorno do El Niño. Em comunicado divulgado neste ano, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos afirmou que o fenômeno está em desenvolvimento e pode ganhar intensidade nos próximos meses. Já o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, declarou à imprensa que é preciso que o mundo esteja preparado para enfrentar o fenômeno, uma vez que ele pode aumentar o risco de enchentes e ondas de calor. Caracterizado por uma espécie de super aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño altera padrões climáticos em diferentes regiões do planeta, ou seja, em algumas localidades pode ocorrer chuvas intensas, acarretando enchentes e deslizamentos. Em outras, moradores enfrentam ondas de calor, gerando secas e incêndios florestais. “O El Niño obriga todo mundo a olhar para os impactos climáticos de forma mais ampla. Eventos que ocorrem em regiões específicas, como áreas agrícolas no sul da Espanha, muitas vezes recebem pouca atenção e pouca cobertura. Com o avanço do fenômeno, porém, fica mais evidente que diferentes regiões podem ser afetadas ao mesmo tempo e durante um período prolongado", observa Cilene Marcondes, diretora de Comunicação e Sustentabilidade da Beon. "Ainda não sabemos exatamente quais serão os locais mais impactados nem a intensidade desses efeitos. Mas uma coisa já é conhecida: os grupos mais vulneráveis tendem a sofrer as consequências de forma mais intensa”. Impactos que afetam empresas, cadeias e mercados A ocorrência de eventos climáticos extremos deixou de ser uma hipótese e passou a constituir uma realidade mensurável em diferentes partes do mundo. No Brasil, o El Niño de 2023 e 2024 esteve associado a períodos de seca na Amazônia e em estados do Nordeste, além das enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul. As imagens da tragédia mobilizaram o país e evidenciaram a dimensão dos impactos que eventos climáticos podem provocar. Esses episódios também reforçaram que os efeitos das mudanças climáticas não atingem apenas populações vulneráveis, embora elas sigam sendo as mais prejudicadas. Afetam diretamente governos, empresas, cadeias produtivas, infraestrutura, serviços e mercados inteiros. Apesar do aumento da cobertura na imprensa e da maior circulação de informações sobre o tema, Cilene Marcondes avalia que a conscientização ainda não se traduziu em uma mobilização coordenada da sociedade. O problema não é a falta de dados: sistemas de alerta existem, previsões meteorológicas estão disponíveis, relatórios científicos são publicados regularmente. O desafio é transformar essa informação em ação concreta antes que o desastre aconteça. “Se você observar, por exemplo, diálogos nas ruas e em transportes públicos, ou conversar com diferentes grupos sociais, de adolescentes, passando por universitários, profissionais de diversas áreas a idosos, verá que o tema ainda não faz parte do cotidiano da maioria das pessoas. Infelizmente, ele costuma ganhar relevância quando o desastre já está em curso. É uma pauta que ainda aparece associada à emergência”, destaca. Esse vácuo de conscientização também abre espaço para a desinformação. Em eventos climáticos extremos, narrativas falsas sobre causas, responsabilidades e medidas de proteção circulam rapidamente e podem comprometer tanto a resposta individual quanto a coordenação institucional. Monitorar essas narrativas e combatê-las com informação qualificada precisa passar a fazer parte dessa nova gestão de crise, relacionada às mudanças climáticas. Comunicação no centro da estratégia Na avaliação da executiva, empresas, imprensa e organizações da sociedade civil possuem capacidade de mobilização e alcance que podem contribuir para reduzir danos e ampliar a preparação coletiva. Isso porque, diante de um evento extremo, as pessoas precisam saber o que fazer, para onde ir, como se proteger e quais medidas adotar. E, se a comunicação é fundamental para a sociedade como um todo, ela também ocupa um papel central nas empresas, pois conecta áreas de sustentabilidade, gestão de riscos, reputação e relacionamento com stakeholders, contribuindo para que as organizações se preparem para atuar antes, durante e depois. Para isso, é preciso que haja coordenação entre órgãos técnicos e tomadores de decisão, entre empresas e comunidades, entre cientistas e imprensa. "Quando existe a percepção de que algo pode acontecer, o desafio é transformar isso em uma ação coletiva e coordenada", afirma Cilene. É nessa articulação entre quem prevê, quem decide e quem executa que se reduzem perdas humanas, sociais e econômicas. Segundo Cilene, cabe às empresas pensar em cenários e se estruturar. Isso vale tanto para a gestão do negócio quanto para a gestão de pessoas. “E se estruturar de fato, porque, quando ocorre um evento climático como o que aconteceu no Rio Grande do Sul, ninguém vai trabalhar no dia seguinte. O impacto vai muito além do negócio e afeta profundamente a dinâmica de um território, suas comunidades e as pessoas, tanto em aspectos de infraestrutura e econômicos, mas também em outros nem tão visíveis ou calculáveis, como os sociais e psicológicos”, reforça. “A forma como a organização se prepara reduz perdas econômicas, humanas e sociais. Por isso, é importante definir protocolos, fazer mapeamentos, preparar equipes, capacitar lideranças e conversar com as pessoas. As empresas têm know-how e capacidade de articulação e engajamento. Esse é o momento de colocar essas qualidades para além das operações”, completa a diretora de Comunicação e Sustentabilidade. Essa necessidade já começa a se refletir na governança das organizações. A crescente pressão de investidores, reguladores e agências de rating por divulgação de riscos climáticos tem levado empresas a incorporarem esses cenários em seus planejamentos estratégicos, avaliando não apenas os impactos sobre operações e cadeias de fornecimento, mas também os efeitos sobre colaboradores, comunidades e reputação institucional. A Beon atua apoiando organizações na construção de estratégias para lidar com cenários complexos e de alta exposição, conectando comunicação, sustentabilidade, gestão de riscos e relacionamento com stakeholders. “Aqui na Beon conseguimos auxiliar na construção de materiais, protocolos e estratégias de comunicação antes, durante e depois de eventos climáticos extremos”, afirma a executiva, que alerta que o principal risco para empresas e sociedade continua sendo a inação. “O custo da dúvida e da paralisia é maior. Qualquer medida adotada para reduzir impactos já produz algum resultado. Nem toda ação preventiva será capaz de evitar completamente os danos, mas tudo o que é feito antecipadamente contribui para reduzir perdas. Quando o evento termina e se avaliam os resultados, essas medidas fazem diferença. Por isso, não agir tem um custo maior do que agir”, finaliza Cilene.
El Niño reforça necessidade da gestão de comunicação nas empresas
Fenômeno pode afetar operações, cadeias produtivas e resultados financeiros, ampliando a importância do planejamento para reduzir impactos








