Victal, da SulAmérica: juro alto testa os limites da economia — Foto: Divulgação Algumas peças se encaixaram no lugar na economia brasileira neste segundo semestre. O panorama, rumo ao encerramento de 2026 e início de 2027, inclui três indicadores que contribuem com certa estabilidade e previsibilidade: a inflação recua novamente para dentro da faixa desejada; a atividade e o mercado de trabalho desaceleram, mas não em ritmo preocupante. A julgar por esse cenário, o país ainda pode esperar, até o fim de 2026, uma redução de 0,25 ponto porcentual na meta da Selic, a taxa básica de juros, para 13,75%. Essa foi a taxa de juros mediana das projeções do mercado financeiro, divulgada no boletim Focus de 14 de agosto, e é também a expectativa de economistas ouvidos pelo Valor. Mas vários fatores de incerteza persistem. Na perspectiva otimista, a taxa de juros poderia cair ainda mais, principalmente se houver sinais de que a inflação continuará a recuar. O resultado acumulado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses até julho foi de 4,44%, abaixo do teto da meta da inflação de 4,5%, depois de ter escapado dessa faixa em maio e junho. O desenho de cenários, porém, precisa considerar possíveis novos impactos de guerras e conflitos comerciais, assim como o resultado das eleições em outubro que definirá o próximo governo. A gestão das contas públicas permanece entre os principais desafios a enfrentar. Além disso, as peças podem sair do lugar — uma combinação infeliz de preços em alta e nível de emprego em queda, aliada ao elevado nível de endividamento das famílias, poderia ter efeito mais duro no Produto Interno Bruto (PIB) de 2027. Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, coloca o cenário ruim em segundo plano. Ela trata os principais fatores de incerteza, no momento, como “pontos de observação”. A seu ver, o mais provável é que a economia continue em desaceleração gradual, neste ano e no próximo, com crescimento fraco, mas não queda do PIB. A SulAmérica projeta crescimento de 2% da economia em 2026, mesmo diante da taxa de juros elevada. “O conflito no Irã resultou em uma ‘reprecificação’ de juros, com impacto direto na atividade. A surpresa é a resiliência da economia, apesar dessas taxas. Ainda falamos de crescimento de 2% mesmo assim”, diz Victal. A economista menciona a sucessão de estímulos fiscais e parafiscais como fatores de aumento da resiliência do crescimento econômico. Para 2027, a SulAmérica projeta uma Selic de 12,25% e alta do PIB de 1,5%. Gala, da FGV: déficit gigantesco empurra juros para cima — Foto: Fabio Risnic/Divulgação Na reunião da primeira semana de agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual após a queda da inflação e sinais de desaceleração da atividade. O tom neutro do comunicado, porém, trouxe pouca sinalização sobre o futuro da política monetária. A evolução dos indicadores econômicos ditará os próximos passos. Até o momento, uma das boas notícias foi o contínuo arrefecimento da inflação, com núcleos — que revelam a tendência dos preços — surpreendendo positivamente. As expectativas continuaram a melhorar. “Chegamos a subir a projeção de inflação em 2026 para 5,4%, agora projetamos 5,1%”, diz Victal. Apesar do panorama mais positivo, ela vê deterioração de expectativas em horizontes mais longos, os de 2028 e de 2029. “É um ponto de atenção. A expectativa contamina a trajetória de inflação. Ainda há desafios para chegar à meta. Caiu, mas ainda está alta”, diz. Uma série de pressões impede avaliação mais otimista para a inflação. A intensificação prevista do El Niño tende aumentar o preço dos alimentos. O mercado de trabalho e o nível dos rendimentos, embora em desaceleração, evoluem a taxas superiores às da produtividade da economia. Por esses fatores, Victal projeta o IPCA em 4,4% em 2027 e 4% em 2028 e 2029, ainda acima do centro da meta. Para dois professores de economia e finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), Márcio Holland e Paulo Gala, não está descartada a possibilidade de a taxa básica de juros fechar o ano abaixo dos 13,75% previstos no relatório Focus, divulgado após a reunião do Copom. “Para o cenário mais otimista de queda da Selic para 13,5%, seria preciso que o IPCA se reduzisse ainda mais rapidamente, rumo a patamar abaixo de 5%, e que a economia desacelere mais no terceiro trimestre”, diz Holland. O pesquisador afirma que a economia brasileira convive com inflação persistentemente alta por pelo menos dois motivos. “Em parte, pelo choque do petróleo causado pelo confronto no Oriente Médio. Antes disso, em fevereiro, a projeção de inflação para 2026 era de 3,9%. Quando veio o choque, as expectativas inflacionárias chegaram a 5,3%. Em parte, ainda temos indexação alta no Brasil. Não conseguimos ver inflação no centro da meta em 2028”, diz o professor, enfatizando o efeito dominó da indexação sobre os preços. Como exemplo, cita o reajuste dos aluguéis, que, defende, deveria ser feito com base na oferta e demanda no mercado, e não na variação do Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M). Além desses fatores, Holland observa que não estavam claras, até agosto, as intenções dos candidatos à Presidência da República em relação à política fiscal. Isso atrasa a resposta da economia e também a reação do Banco Central. “Enquanto isso não acontecer, será difícil reduzir muito mais a Selic”, afirma. Ele acrescenta que, em qualquer caso, os juros em termos reais devem cair de forma discreta, de cerca de 9,5% para 8% ou 8,5%. Gala, doutor em economia pela FGV, observa que a questão mais delicada reside na dívida pública e no resultado nominal. Nos 12 meses até junho, o déficit primário (sem contar o gasto com juros da dívida) do governo central ficou em R$ 140 bilhões, enquanto o déficit nominal (que inclui o gasto com juros da dívida) atingiu R$ 1,044 trilhão. “Ou seja, o déficit nominal gigantesco tem 90% a ver com a política de juros, necessária por conta da inflação lá atrás”, diz. Ele lembra que cada ponto percentual de corte na taxa básica de juros reduz em R$ 50 bilhões por ano o custo da dívida pública. O professor acena com um cenário positivo e possível. A inflação tem dado bons sinais de recuo para dentro da faixa desejada. Essa boa tendência será reforçada, caso o próximo governo adote um compromisso fiscal mais rigoroso. Nesse caso, diz Gala, é possível que o país ingresse numa nova fase, com quedas maiores dos juros — e um necessário avanço rumo a indicadores mais saudáveis e normais para uma economia estável.
Valor 1000: Perspectivas para a economia bem moderadas
Mesmo com incertezas dentro e fora do país, cenários permitem antever inflação e juros um pouco mais baixos em 2026 e 2027
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