Beber vinho já foi sinônimo de saúde; hoje, sabe-se que benefícios vêm de outros aspectos do hábito 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Álcool está relacionado ao risco aumentado de diversas doenças — Foto: Unsplash Durante muito tempo, tomar uma taça de vinho no jantar parecia quase uma recomendação de saúde. Estudos mostravam que pessoas que consumiam pequenas quantidades de álcool, especialmente vinho tinto, apresentavam menor incidência de doenças cardiovasculares do que aquelas que não bebiam. Nascia daí a famosa curva em “J”: quem bebia pouco aparentemente tinha menos risco do que quem não bebia nada, enquanto o risco aumentava bastante entre aqueles que bebiam muito. O vinho ganhou ainda mais prestígio. Países mediterrâneos, onde ele tradicionalmente acompanha as refeições, apresentavam boa saúde cardiovascular e populações longevas. Surgiram as comprovações sobre antioxidantes como resveratrol e outros polifenóis presentes na uva e, durante anos, ficou no imaginário coletivo a ideia de que uma taça de vinho por dia poderia fazer bem ao coração. A ciência, porém, evolui. E uma das coisas mais interessantes nela é justamente a capacidade de rever suas próprias conclusões. Com estudos mais recentes e métodos capazes de controlar melhor os fatores que confundiam os resultados, aquela suposta proteção do álcool começou a ser questionada. Descobriu-se que as pessoas que bebiam moderadamente muitas vezes também apresentavam outras características favoráveis: melhor alimentação, maior nível socioeconômico, mais atividade física, maior convívio social e um padrão de consumo muito diferente, por exemplo, daquele de quem ingere grandes quantidades de álcool de uma só vez. Ou seja: talvez parte do benefício atribuído à taça estivesse, na verdade, ao redor dela. Não apenas o estilo de vida, mas os outros compostos da uva que não precisamos do álcool para obter. Uvas, frutas vermelhas, azeite, castanhas, verduras e uma alimentação baseada em vegetais oferecem compostos bioativos sem acrescentar os riscos do etanol. Hoje sabemos que o álcool não é uma substância neutra. Ele está associado a doenças do fígado, hipertensão, arritmias e câncer. Mesmo pequenas doses podem aumentar riscos. A Organização Mundial da Saúde é clara: não há forma de consumo de álcool totalmente isenta de risco. Em orientação mais direta, seria como dizer: para a saúde, quanto menos álcool, melhor; nenhum é melhor ainda. Isso não significa que uma pequena dose ocasional tenha o mesmo risco de um consumo elevado — o risco cresce com a quantidade e a frequência —, mas significa que não há uma dose que possa ser recomendada por trazer benefício real à saúde. Por isso, quem não bebe não deve começar a beber com a intenção de proteger o coração. Mas existe outro aspecto dessa história que considero especialmente interessante. Pense naquela pequena cidade da Itália ou da Espanha em que amigos se encontram no final do dia, sentam-se à mesa, conversam durante duas horas, comem devagar e dividem uma garrafa de vinho. Quando estudos observavam aquela população, era muito difícil separar a bebida de todo o restante. O que fazia bem? O vinho? A dieta mediterrânea? A comida consumida junto com a bebida? O fato de beber lentamente? A ausência de grandes excessos? Ou aquelas duas horas de conversa com amigos? Provavelmente, um pouco de tudo — menos motivos para transformar o álcool em medicamento. Sabemos hoje que vínculos sociais, redução do estresse, atividade física, boa alimentação e sensação de pertencimento têm enorme importância para a saúde e para a longevidade. É possível, portanto, que em determinadas culturas o contexto saudável em que o álcool era consumido tenha ajudado a mascarar ou minimizar parte de seus efeitos negativos. E de novo, isso não significa que uma taça ocasional vá destruir a saúde de alguém. Saúde não funciona dessa maneira. Existe uma enorme diferença entre beber eventualmente em um momento especial e normalizar um consumo diário
Álcool: quando a ciência muda de ideia
Beber vinho já foi sinônimo de saúde; hoje, sabe-se que benefícios vêm de outros aspectos do hábito






