Pelo menos 62 doenças são diretamente atribuíveis às bebidas, mas diminuir a ingestão já pode ter um impacto significativo para a saúde 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Álcool — Foto: Freepik O movimento recente que prega tolerância zero no consumo de álcool tem alastrado uma sensação de frustração e de impotência em inúmeras pessoas, com perfis de consumos dos mais variados. Médicos e dados de pesquisas recentes, no entanto, mostram que, para a maioria das pessoas, a simples moderação no consumo já é capaz de trazer efeito positivos e de longo prazo. Um trabalho publicado na revista científica JAMA Network Open mostrou que, entre homens que ingerem álcool excessivamente (definido como mais de duas doses por dia), a redução para níveis considerados moderados, de cerca de uma dose diária, já foi relacionada a uma queda de quase 10% no risco dos cânceres atribuíveis ao álcool. — A saúde tem que ser pensada como um bem-estar geral, não apenas biológico, que envolve aspectos sociais, culturais. Se a pessoa não consegue deixar de beber, uma taça de vinho no final de semana, para quem não tem problemas de saúde, por exemplo, é algo razoável. Mas as pessoas não devem beber todos os dias e nem quantidades elevadas numa única ocasião — explica Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião especialista em fígado e aparelho digestivo e diretor do Instituto do Fígado Americas Ben-Hur ressalta que não existe um consenso oficial sobre o que é "beber moderado", com as diretrizes mais recentes de autoridades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apontando que não há limite mínimo considerado seguro. — Diminuir o consumo já pode diminuir consideravelmente muitos riscos. Claro, se você é gestante ou tem um problema de saúde que é agravado pelo uso do álcool, como uma doença hepática, então você deve evitar por completo. Mas o beber eventualmente, por uma pessoa saudável, é algo mais tolerável — diz Ben-Hur. No ano passado, um estudo conduzido pelo pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz, a pedido das organizações de saúde Vital Strategies e da ACT Promoção da Saúde, estimou que, se a população brasileira reduzir em 20% o consumo de álcool, uma meta da OMS até 2030, 10,4 mil mortes já poderão ser evitadas a cada ano, o equivalente a um óbito a menos por hora no país. Outro trabalho da Vital Strategies estimou que 157,4 mil mortes por câncer poderão ser evitadas no Brasil até 2050 se a população que consome álcool reduzir sua ingestão média diária em somente uma dose. O impacto seria observado especialmente para o câncer de intestino, com 30,4 mil vidas poupadas, e para o de esôfago, com 30,1 mil óbitos a menos. A dose é definida como 14g de álcool, o que corresponde, aproximadamente, a uma lata de 350 ml de cerveja, uma taça de 150 ml de vinho ou 45 ml de destilados. Essa melhora apenas ao reduzir o consumo ocorre porque os impactos nocivos do álcool são dose-dependentes, ou seja, quanto mais se bebe, maiores são os riscos. Um trabalho publicado na revista científica Journal of Studies on Alcohol and Drugs, estimou que o consumo de mais de sete doses por semana, a partir de uma por dia, leva a um risco de pelo menos 1 em 1.000 de morrer prematuramente por causas ligadas ao álcool. Ao aumentar para mais de 8,5 doses semanais, porém, esse risco sobe consideravelmente para cerca de 1 em cada 100 e chega a aproximadamente 1 em 25 entre aqueles que bebem 14 doses por semana. Melhoras com a redução Alguns prejuízos cardiovasculares, como a hipertensão arterial, melhoram em poucos dias ou semanas com o consumo reduzido, segundo um estudo publicado na revista científica Addiction. O mesmo vale para os danos cerebrais causados pelo consumo excessivo de álcool: eles podem se recuperar parcialmente com a diminuição das bebidas. Um benefício também é observado para o risco de câncer, conta a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), Clarissa Baldotto. Ela explica que, embora o álcool seja muito associado a cânceres de fígado e esôfago, hoje as evidências apontam para uma relação mais ampla com outros tumores, como de mama e intestino: — O que nos preocupa muito, porque são tipos que temos visto um crescimento e afetando pessoas cada vez mais jovens. Não há nível considerado seguro, mas quanto maior a exposição e a duração, maior o risco. Então se reduzirmos ou interrompemos o uso, o risco também diminui ao longo do tempo. É sempre importante buscar diminuir, mesmo para quem já teve um diagnóstico de câncer. Gustavo Pereira, presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro (GFRJ), a regional da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) no estado, explica que mesmo quadros avançados no fígado, órgão que mais sofre com o consumo do álcool, podem ser revertidos ao colocar o pé no freio: — Pessoas que têm esteatose hepática e interrompem o consumo começam a apresentar melhora já com 6 a 8 semanas. Aqueles que têm cirrose podem interromper a progressão da doença se cessarem o uso. Alguns ficam por longos períodos de tempo com o quadro assintomático, demandando apenas acompanhamento.Temos casos raros de indivíduos que chegaram a entrar na fila de transplante, mas conseguiram sair. Isso mostra que reduzir o consumo leva a uma melhora da saúde no mais amplo espectro de danos causados pelo álcool. No curto prazo, o estudo publicado no periódico Addiction também constatou que o risco de lesões ou infecções sexualmente transmissíveis, que aumenta durante a intoxicação alcoólica, diminui consideravelmente quando se modera a ingestão de álcool. Porém, em relação a supostos benefícios das bebidas para o coração, o estudo identificou que qualquer efeito é superado em muito pelo aumento no risco dos outros problemas de saúde. "Não observamos um efeito protetor significativo do álcool sobre a saúde em nenhum nível de consumo. Em baixos níveis, o álcool pode estar associado a uma redução do risco de doença cardíaca isquêmica e acidente vascular cerebral. Mas, quando se considera o conjunto completo de desfechos de saúde, incluindo câncer e outras doenças crônicas, esses potenciais benefícios são superados pelos riscos”, resume Kevin Shield, professor da Universidade de Toronto e cientista sênior que lidera o centro colaborador da OMS/Opas em Dependência e Saúde Mental, em nota. — O álcool é tóxico para o corpo. No momento em que é metabolizado pelo fígado, ele se transforma em substâncias como acetaldeído, cujo acúmulo causa efeitos agudos em diversos órgãos e sistemas. Fala-se muito sobre o fígado, mas os danos são em diversos sistemas: intestino, coração, cérebro. E aqueles que têm uma resistência maior à embriaguez não estão mais protegidos — explica Pereira. Menos pessoas bebem regularmente no Brasil Dados do terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), de 2023, mostram que 42,5% dos brasileiros relataram consumo de bebidas alcoólicas no último ano, uma diminuição em relação aos 50,2% observados em 2006. Uma pesquisa do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), de 2025, revela um número ainda mais baixo: 35% são consumidores regulares. Por outro lado, a proporção daqueles que relatam consumo episódico pesado de bebidas alcoólicas, também conhecido como binge drinking e consumo abusivo, saltou de 15,7%, em 2006, para 20,4%, em 2024, a maior marca da série histórica na pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde. Esse consumo é caracterizado pela ingestão de quatro ou mais doses, entre mulheres, ou cinco ou mais doses, entre homens, numa mesma ocasião. Um estudo da Unifesp projetou que o indicador deve continuar a subir e alcançar 21,3% até 2030, desviando-se da meta do Ministério da Saúde de combate ao álcool em 133%. Mariana Thibes, coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), explica que o cenário pode parecer contraditório, mas não é. O que acontece é que quem faz o consumo abusivo não está diminuindo a sua ingestão, mas sim aumentando. Paralelamente, existe uma parcela da população que já não bebia muito e que decidiu deixar o hábito: — A abstinência aumentou no Brasil, hoje temos menos consumidores de álcool de forma geral. Acredito que estamos em um momento em que as pessoas têm muita informação sobre os malefícios do álcool. Há uma parcela grande da população mais preocupada com a saúde, buscando um estilo de vida saudável, e tudo isso aparece como tendência. Então, temos pessoas que deixaram de beber. Porém, entre aqueles que bebem, o consumo é cada vez mais intenso. A coordenadora conta que 85% das pessoas que fazem uso abusivo acreditam ser consumidores classificados como moderados, segundo uma pesquisa feita pelo Cisa com a Ipsos. Para Pereira, esse cenário é especialmente preocupante: — As pessoas muitas vezes não consomem álcool todos os dias, apenas uma vez no fim de semana, e acham que não há problema. Mas, quando esse consumo ocorre em excesso, tem um efeito danoso sobre o fígado tão intenso quanto, ou até maior que o do consumo diário. No mundo, segundo dados da OMS, as Américas seguem entre as regiões que mais consomem álcool no mundo, ocupando a segunda posição global, atrás apenas da Europa. Entre os países com maiores níveis de consumo de álcool per capita por ano, estão Canadá (9,9 litros), Estados Unidos (9,6 litros) e Barbados (9,5 litros). O Brasil ocupa a 8ª posição (7,7 litros).