Cada fração de aumento no aquecimento global traz mais riscos à vida humana, às economias e desestabiliza os ecossistemas do planeta 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 — Foto: Reuters/Athit Perawongmetha O histórico Acordo de Paris, de 2015, falhou em conter o implacável crescimento das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), que elevam a temperatura na superfície do planeta. Já não é mais possível cumprir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5º C acima dos níveis pré-industriais neste século, reconheceu a ONU na semana passada. Alguns estudos apontam que esse limite poderá ser ultrapassado em 2029 ou no mais tardar nos primeiros anos da década de 2030, de acordo com a WWF. Isso significa que os governos em todo o mundo terão de gastar mais em adaptação para enfrentar eventos climáticos extremos que se tornarão mais frequentes. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o melhor cenário que o planeta pode esperar agora é um aquecimento de cerca de 1,8º C neste século. Mas isso se os países implementarem todas as políticas climáticas prometidas no Acordo de Paris. Além de pouco plausível, visto o esforço muito aquém do necessário empregado até agora pelos governos nacionais, o segundo maior emissor de GEE do mundo, os EUA (depois da China), responsáveis por pouco mais de 11% das emissões globais em 2025, segundo dados da União Europeia, pulou fora novamente do Acordo, com o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Ele também tem boicotado todas as iniciativas de descarbonização e transição energética implementadas pelo governo do democrata Joe Biden. Cientistas alertam que com base nas atuais políticas climáticas das nações e nas tendências observadas, o aquecimento global caminha para atingir 2,6° C até o fim do século, ultrapassando a outra meta crítica de 2°C do Acordo de Paris. Com o aquecimento atualmente em cerca de 1,4°C — essa medida baseia-se em uma média de 20 anos, em vez de nas temperaturas de um único ano —, comunidades em todo o globo vêm enfrentando ondas de calor, inundações, secas e perda de ecossistemas cada vez mais severas. Esse aquecimento já desencadeou o processo de não retorno (“tipping points”) dos recifes de corais do planeta — ecossistema que sustenta cerca de 25% da vida marinha e contribui para a economia e a proteção costeira de mais de 100 países. O relatório da Global Coral Reef Monitoring Network — uma organização mundial de cientistas e conservacionistas —, também divulgado na semana passada, constatou que os recifes de coral do mundo sofreram uma redução de 9,5% no período de 2020 a 2024, em comparação com os anos de 1980 a 2009. Somente em 2024 ocorreu a maior queda na cobertura de corais registrada em um único ano, afetando 87% dos recifes em todo o planeta. Cientistas temem que o fenômeno El Niño em curso — que pode ser um dos mais intensos na história recente — muito provavelmente provocará mais um evento global de branqueamento no próximo ano, na esteira de um intenso e semelhante processo iniciado em 2023 e que se encerrou apenas em 2025. Não dá tempo para os corais se recuperarem. Eventos globais de branqueamento de corais ocorriam aproximadamente uma vez por década. Mas, desde 2010, têm ocorrido a cada quatro ou seis anos, segundo o relatório. O branqueamento acontece quando os corais perdem as algas simbióticas de que necessitam para sobreviver por causa do estresse provocado pelo aquecimento das águas. Corais branqueados podem se recuperar, mas precisam de tempo para isso. Se a água ao redor estiver quente demais por um período prolongado, eles morrem. Cada fração adicional de grau de aquecimento intensifica a ocorrência de fenômenos climáticos extremos destrutivos, por exemplo o derretimento de geleiras — como a que causou a recente tragédia no Nepal —, a perda de ecossistemas e a submersão de ilhas e cidades costeiras. Por isso, ao reconhecer o “overshoot” de 1,5º C, o Pnuma faz a ressalva de que isso não deve ser interpretado como motivo para abandonar a meta. É um alerta para que os governos ajam com mais rapidez, ambição e abrangência para reduzir as emissões. O objetivo agora, segundo a ONU, deve ser intensificar a captura de carbono — principal gás de efeito estufa — e estocá-lo no subsolo para o mundo retornar a 1,5°C o mais rapidamente possível. E a melhor e mais eficiente maneira de fazer isso é com reflorestamento, uma vez que as tecnologias de remoção de CO2 da atmosfera ainda estão muito distantes de entregar qualidade e preços para ter a escala necessária. A mensagem é clara: o esforço de mitigação deve continuar, concomitante com a adaptação. O Brasil pode ser um protagonista nesse esforço global. Estudos apontam que o país poderia alcançar emissões líquidas zero de GEE até 2040. Isso seria possível priorizando o fim do desmatamento de áreas nativas até 2030 e promovendo um forte investimento em reflorestamento e restauração, estimulando a agricultura sustentável, os sistemas agroflorestais e o manejo integrado do solo.