Inger Andersen: ‘Impactos da mudança climática serão mais rápidos e mais intensos com aumento acima de 1,5º C’ — Foto: Monica Bento/Valor Pela primeira vez, as Nações Unidas reconhecem que ultrapassar o limite de aquecimento de 1,5°C é inevitável, deve acontecer nos próximos anos e mudanças na estratégia climática são imprescindíveis. Mesmo que existam avanços, as emissões globais de gases-estufa continuam crescendo e a mudança do clima está acontecendo mais rápido do que o esperado. E, embora seja possível reverter o aquecimento e levar o planeta de volta a um padrão seguro de temperatura, o mundo com 1,5°C do futuro não será igual ao mundo com mais 1,5°C do presente: algumas perdas são irreversíveis. O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, divulgado ontem, trata do “overshooting” climático, ou seja, o estouro de metas de temperatura. No caso, limitar o aumento da temperatura média global neste século a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais e assim, segundo os cientistas, evitar os impactos mais catastróficos da crise climática. É o limite ideal e o ponto de segurança para a humanidade segundo o Acordo de Paris, que também estabelecer, como teto máximo consensuado, não exceder 2°C neste século. A boa notícia, se é que é possível ver assim, é que, no caso climático, a ciência diz que o “overshooting” pode ser temporário. É possível reverter o aumento de temperatura e voltar ao aquecimento de 1,5°C. Os esforços para reverter o cenário devem ser imediatos e persistentes, provavelmente caros, ocorrer em várias frentes e, principalmente, fortíssimos. Trata-se, também, de mudar a atitude global no enfrentamento da crise climática. Se desde 2015, data do Acordo de Paris, a atitude global era de “evitar ultrapassar 1,5°C”, a intenção mundial agora deve ser “retornar a 1,5°C o mais rápido possível”. Corrêa do Lago: ‘O ‘overshooting’ é um símbolo da urgência da crise climática’ — Foto: Rogerio Vieira/Valor A capa do relatório “Limiting overshoot: navigating exceedance of 1,5°C and pathways towards return” (“Limitando o desvio: lidando com a ultrapassagem de 1,5°C e caminhos para o retorno”, em tradução livre) dá a ideia do que deve ser feito. Na ilustração, cinco pessoas puxam uma corda simulando um jogo de cabo-de-guerra. Buscam trazer temperaturas quentes para um espectro mais frio. Do outro lado a corda é puxada por um cenário sombrio e desconhecido. “Este relatório nos diz que o aumento da temperatura global deve ultrapassar 1,5°C em poucos anos. E em todo o planeta, os impactos da mudança climática vão se manifestar mais rápido, serão mais intensos e durarão mais tempo, custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”, disse Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma, ao explicar o relatório a jornalistas de todo o mundo. “O futuro trará muitas incertezas, mas sabemos que as decisões tomadas agora e nos próximos anos irão determinar se teremos chance de retornar a 1,5°C ou menos. Precisamos agir com urgência e determinação”, seguiu ela. O relatório diz que o importante, agora, é fazer com que este período de ultrapassagem do 1,5°C dure o menos possível e que a temperatura aumente pouco. “Cada fração de grau que puder ser evitada, cada ano em que o período de overshooting for encurtado e cada ação de adaptação tomada salvará vidas, protegerá ecossistemas e reduzirá perdas econômicas”, continuou Inger Andersen. “Agora é a hora de redobrar os esforços em ação climática, não de desistir dela”, seguiu. “A meta continua sendo 1,5°C, mas agora precisamos abordá-la de forma diferente”, disse a cientista dinamarquesa. Thelma Krug: ‘Se continuarmos nesse ritmo, ultrapassar a meta é inevitável’ — Foto: Divulgação A brasileira Thelma Krug, ex-vice-presidente do IPCC (o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima) e atual presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima da Organização Meteorológica Mundial avalia que o relatório aprofunda aspectos que a ciência já havia explorado e que já haviam sido mencionados em relatórios do IPCC. “Mas é mais incisivo. E traz um dado novo, de onde estamos hoje: o aumento da temperatura média global está em 1,37°C”, diz. Thelma diz que, em 2023, o último relatório do IPCC mostrava que o aumento da temperatura alcançava 1,1°C. “No ritmo atual temos um aumento de 0,25°C a cada década. Então, se continuarmos assim, nos próximos dez anos superaríamos o limite de 1,5°C”. Ela apresenta outros números. O “espaço” de emissão de gases-estufa na atmosfera, para que o mundo mantenha o aquecimento em 1,5°C seria de uma emissão de 130 bilhões de toneladas de CO2 a partir de 2026. “É muito pouco”, diz. “Em 2024, apenas as emissões da queima de combustíveis fósseis e da indústria foram de 40 bilhões de toneladas de CO2. Teríamos 3 a 4 anos para chegar ao limite, só com estas emissões”, calcula. “O que o Pnuma está dizendo é que, se continuar neste ritmo, ultrapassar o limite de 1,5°C é inevitável”. Pesquisador do Ipea e professor de economia da sustentabilidade da PUC/Rio, o matemático e doutor em economia ambiental Sérgio Margulis define o relatório como “uma sacudida”. Explica: “Mostra que não tem mais essa de achar que ficaremos abaixo de 1,5°C. Agora estamos em outro mundo. Temos de tratar de trazer o pico das emissões no nível mais baixo possível e o mais rápido possível”. Presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago diz ao Valor porque considera o relatório do Pnuma muito importante. “O ‘overshooting’ é um símbolo, ao mesmo tempo, da urgência da crise climática e da lentidão na implementação do que é necessário para impedir que a temperatura ultrapasse 1,5°C”. O diplomata lembra que na conferência em Belém a Decisão Mutirão mencionou o “overshoot” pela primeira vez em um documento multilateral. A menção ocorreu em dois trechos do texto. Em um deles, os países reconhecem que limitar o aquecimento global a 1,5°C sem ultrapassagem ou com ultrapassagem limitada “exige reduções profundas, rápidas e sustentáveis nas emissões globais de gases-estufa de 43% até 2030 e de 60% até 2035 em relação ao nível de 2019. Na segunda citação, salienta que riscos e impactos da mudança climática serão muito menores com um aumento de 1,5°C em comparação a 2°C e “reitera a determinação em prosseguir com os esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C, para limitar tanto a magnitude quanto a duração de qualquer ultrapassagem da temperatura”. O relatório estima que, no cenário mais otimista possível, a temperatura global deve atingir um pico de 1,8°C neste século. O “overshoot” não se refere só ao momento em que o limite é superado (em 2024, o planeta registrou um ano com temperatura média acima de 1,5°C), mas a uma temperatura média de mais longo prazo. O texto é claro. Diz que à medida em que o aumento de temperatura fica mais próximo de superar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, riscos e impactos climáticos serão mais perigosos. “O mundo deve se empenhar em minimizar as temperaturas máximas, retornar ao limite de 1,5°C ou abaixo dele o mais rápido possível, e reduzir a vulnerabilidade das sociedades e economias aos impactos que não podem ser evitados.” A meta segue sendo 1,5º C. Agora é hora de redobrar os esforços, não de desistir da ação climática” Acima deste limite, os riscos de se superar pontos de não-retorno (“tipping points”) se intensificam a cada fração de grau. O texto diz que é preciso aumentar de maneira imediata e sustentada, a redução nas emissões de gases-estufa incluindo o metano. Menciona também que para reduzir a temperatura será necessário ter emissões líquidas de longo prazo (ou seja, absorver gases-estufa em quantidades maiores do que serão emitidas). Cita os processos de Carbon Dioxide Removal (CDR), ou Remoção de Dióxido de Carbono (CDR), “cuidadosamente regulamentada - o processo de remover carbono do ar e armazená-lo via reflorestamento ou outros meios, como parte essencial desse conjunto de medidas”, segundo nota à imprensa. Uma das críticas ao relatório são as soluções apontadas, consideradas limitadas e seguindo a visão europeia de enfrentar o problema. A linha adotada pelo Pnuma é pela mitigação direta de gases-estufa, sem muitas opções. O eixo da análise defende a redução absoluta das emissões - o que é evidentemente necessário - mas sem dar ênfase a soluções baseadas na natureza, mercados de carbono ou mesmo reflorestamento. “A única forma de remover carbono da atmosfera é através de florestas”, diz uma fonte. Tecnologias ainda caras como CCS (sigla para Carbon Capture and Storage) retiram o carbono da atmosfera mas o enterram abaixo do solo. “Isso não é remoção”, continua. Neste caso, o texto não aponta a vantagem comparativa do Brasil, por exemplo, em remover carbono através da recuperação das terras degradadas. “A COP30 indicou muitas soluções na agenda de ação”, lembra o físico Roberto Kishinami, especialista estratégico do Instituto Clima e Sociedade (iCS). O relatório, destaca, coloca ênfase em induzir ao mínimo o consumo de combustíveis fósseis. A outra urgência é implementar imediatamente medidas de adaptação a um mundo mais quente. “Entramos em um novo estágio da crise climática global”, resume. “O relatório aponta o que vai afetar a agenda climática pelos próximos anos”, diz. “Esta ultrapassagem está contratada”. Ao falar a jornalistas internacionais na terça-feira, a professora Debra Roberts, uma das autoras do documento, disse que a governança climática tem que ser repensada. “O relatório constata que, apesar de décadas de alertas científicos e apesar das evidências científicas crescentes, os compromissos climáticos resultantes não produziram reduções de emissões suficientemente rápidas”, disse. “Se há alguma boa notícia aqui é que como esse excedente se deve à ação política e social insuficiente, ainda podemos agir para limitar a magnitude do ‘overshoot’”. O documento descreve os caminhos do “overshoot’ em quatro estágios. O primeiro é quando o aquecimento ultrapassa o 1,5°C em relação ao período pré-industrial. Os outros três, contudo, se referem às respostas ao desafio. “A ideia é limitar o aumento acima de 1,5°C ao menor nível de temperatura possível. Ainda não sabemos em que ponto poderemos atingir o pico ou quanto tempo permaneceremos neste platô, mas esse é um passo necessário para o estágio seguinte, que é o declínio”, explica Debra Roberts. Ali o foco será em retirar mais carbono da atmosfera do que se emite -ou seja, em sustentar emissões líquidas negativas de CO2.“Estamos em um ponto realmente crítico desta jornada. Podemos optar por adiar a ação e perder a chance de voltar a 1,5°C ou implementar ações de mitigação e de adaptação muito ambiciosas”, continua. Há três desafios ao longo do caminho do “overshoot”. O primeiro é o de necessidade de resposta imediata. “Precisamos de políticas imediatas para reduzir e evitar emissões de gases-estufa”, cita, além de medidas urgentes de adaptação. O próximo desafio é gerir os riscos -investir em descarbonização profunda e remover carbono. O terceiro é sustentar o declínio e ampliar a adaptação, para reverter o aquecimento. “Todos esses estágios vão coexistir em diferentes regiões e escalas de tempo”, seguiu. “Embora ultrapassar 1,5°C seja inevitável, até onde iremos e por quanto tempo isso vai durar ainda está nas nossas mãos.” O outro reconhecimento do relatório é que algumas das perdas ao longo dos caminhos do “overshoot” não serão revertidas - ecossistemas polares ou recifes de corais, por exemplo. “Esses limiares existem, o que significa que o resfriamento da temperatura não é um ‘rebobinar’ ecológico”, diz Debra Roberts. O climatologista Bill Hare, diretor do instituto de pesquisa Climate Analytics, criticou o relatório em seu tom negativo. Hare disse à AFP que o texto pode se tornar “um chamado à apatia”, e não à ação.