A menos de um mês para o primeiro turno das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta cenário mais desfavorável em diferentes frentes, aponta pesquisa Quaest divulgada ontem, contratada pelo GLOBO e pela TV Globo. Os dados mostram tendência negativa em intenção de voto, embora o petista lidere a disputa no primeiro turno, aprovação do governo e percepção do eleitorado sobre temas como endividamento e corrupção. No segundo turno, ele e Flávio Bolsonaro (PL) voltaram a empatar numericamente pela primeira vez desde março. Embora as oscilações venham se dando dentro da margem de erro de dois pontos a cada “fotografia”, o filme exibido pelo instituto é de piora do incumbente, quadro atípico na história das eleições brasileiras. O caso do segundo turno é sintomático. Em julho, o petista tinha distância de sete pontos para Flávio na simulação. Com oscilação de um ponto a cada pesquisa desde então, Lula marca agora os mesmos 41% do filho de Jair Bolsonaro, que viu a crise vivida a partir de maio com o caso “Dark horse” ser suplantada por episódios que acabaram desgastando o presidente. Na projeção de primeiro turno, tanto Lula quanto Flávio oscilaram um ponto cada para baixo e registram 36% e 29%, respectivamente. O terceiro colocado, Augusto Cury (Avante), variou para baixo em dois pontos e tem 8%. Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), com 3% cada, e Romeu Zema (Novo), 2%, vêm na sequência. Há também um cenário com Pablo Marçal (PRTB), empresário que está inelegível após condenação por uso indevido dos meios de comunicação durante a campanha de 2024. Ele pontua 1% e pouco impacta o resultado geral. Movimento atípico Na contramão da tendência histórica, há recuo na aprovação ao governo. Presidentes que disputam reeleição costumam melhorar o índice na esteira da aparição no período eleitoral e do uso da máquina, mas Lula não tem conseguido repetir o padrão. Assim como na projeção de segundo turno, as oscilações da análise do eleitorado sobre o governo do petista ocorrem pouco a pouco na sequência dos levantamentos. É da leitura mais ampla que se depreende a degradação. Lula chegou a ter saldo positivo de um ponto na aprovação no início de agosto. Agora, há um saldo negativo de sete pontos, dado que 50% desaprovam a gestão, e 43% a avalizam. No último mês, o noticiário passou a ser povoado por revelações que respingaram no presidente. Surgiram novos indícios na investigação sobre tráfico de influência contra Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho mais velho do candidato à reeleição, e um ex-chefe de gabinete dele, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, também apareceu nas apurações. Além disso, a crise recente do Supremo Tribunal Federal (STF) deu munição para opositores que associam a Corte, sobretudo o ministro Alexandre de Moraes, ao presidente. Ontem, na Avenida Paulista, Flávio disse a apoiadores que “quem vota em Lula está votando em Moraes” (leia mais na página 8). Como a pesquisa foi a campo entre os dias 3 e 6 de setembro, todas as entrevistas foram realizadas depois das novas revelações sobre Moraes no âmbito do caso Master. Além do que já sabia — o contrato entre o escritório da mulher dele, que é advogada, e o banco de Daniel Vorcaro —, a Polícia Federal encontrou mensagens do banqueiro “consultando” o ministro sobre que postura adotar diante das investigações que o cercavam no ano passado. Corrupção no radar Diante desse universo desfavorável, cresceu na nova sondagem a menção à corrupção como principal problema do país, que passou de 14% para 20%. Hoje, só fica atrás da violência, ainda no topo com os mesmos 31%, e tem o mesmo patamar da economia, preocupação que também avançou para 19%, em meio à artilharia de adversários de Lula, que têm levado temas como os preços dos alimentos para o horário eleitoral, e à propaganda do petista, focada em entregas na área. Chama atenção, ainda, o “voo de galinha” do Desenrola 2.0, programa lançado em maio para ajudar na renegociação das dívidas da população. Chega a 72% a soma dos que afirmam contar com muitas dívidas (28%, seis pontos a mais do que há um mês) ou poucas (44%). Os que afirmam não ter pendências do tipo caíram de 31% para 27%. A percepção geral sobre a economia pouco se move. Mesmo com a propaganda eleitoral, permanece em 19%, pela quarta pesquisa seguida, o percentual dos que veem melhora econômica nos últimos 12 meses. Para 49%, a economia piorou, e 29% acreditam que ela ficou do mesmo jeito. Os números da Quaest seguem pintando uma eleição marcada pelo alto índice de rejeição aos dois principais candidatos. Lula e Flávio têm pisos altos, mas tetos limitados. Mantiveram-se em 55%, no caso do filho de Bolsonaro, e 53%, no do petista, os percentuais daqueles que dizem que conhecem e não votariam neles. Nesse aspecto, Pablo Marçal, inelegível, aparece depois com 45% de rejeição, seguido por Caiado (41%), Zema (39%), Renan (29%) e Cury (26%). O escritor que concorre pelo Avante é o único ainda desconhecido para mais da metade dos entrevistados (52%). A distância de sete pontos entre Lula e Flávio no primeiro turno é compensada pelo candidato do PL no segundo turno por meio da transferência de votos dos demais presidenciáveis, indica a Quaest. Todos os outros têm mais eleitores que dizem que votariam no filho de Bolsonaro do que no presidente. As maiores transferências para Flávio acontecem entre os que votam em Zema (59%) e Renan (58%), seguidos pelos apoiadores de Augusto Cury (46%). O menor deslocamento se dá entre eleitores de Caiado (36%), mas o percentual ainda supera os 25% que declaram voto no goiano no primeiro turno e pretendem votar em Lula contra o candidato do PL. Um ponto para o qual o diretor da Quaest, Felipe Nunes, tem chamado atenção é o baixo grau de interesse na eleição. Somente 37% se classificam como muito interessados na disputa, sendo que o patamar não variou desde o início da campanha, em meados de agosto. Outros 40% se dizem pouco interessados, e 22% não estão nem aí para o processo. A Quaest ouviu 2.004 eleitores. O nível de confiança do levantamento é de 95%. O número de registro da pesquisa na Justiça Eleitoral é BR-01720/2026.