Secretário de Estado dos EUA visitará Equador, Colômbia e Peru nos próximos dias, onde novos e velhos líderes prestam lealdade à Casa Branca, mesmo diante de escolhas complexas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, durante palestra em Washington — Foto: Andrew Harnik/Getty Images/AFP Em um ano marcado por novas guinadas à direita na América Latina e pelo avanço da doutrina expansionista professada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, seu secretário de Estado, Marco Rubio, inicia nesta terça-feira uma visita a três países onde o trumpismo fincou posição. A pauta na Colômbia, Equador e Peru inclui ações armadas contra o narcotráfico, apoios econômicos de Washington e a presença chinesa na região. Além de recados indiretos a governos que não integram a órbita pró-Trump, como o Brasil. “Ao longo da viagem, o secretário reafirmará o compromisso da administração Trump com um Hemisfério Ocidental seguro, próspero e democrático”, declarou, em um breve comunicado, o porta-voz do Departamento de Estado, Thomas Pigott. Rubio terá diante de si uma região ainda mais alinhada a Washington do que em sua última visita, em setembro do ano passado. Além do presidente do Equador, Daniel Noboa, no poder desde 2023 e figura frequente na Casa Branca, Peru e Colômbia elegeram recentemente dois líderes favoráveis às políticas hegemônicas promovidas por Trump, a “Doutrina Donroe”. Roteiro da viagem de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, pela América do Sul — Foto: Editoria de Arte — Os EUA, sob Trump, se sentem à vontade nesses três países, até porque apoiaram abertamente os candidatos que venceram ali. Não existe mais o comedimento da diplomacia tradicional, com declarações moderadas. Hoje, a política externa americana toma um lado em eleições alheias — destacou ao GLOBO Flávia Loss, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia. — Isso acabou sendo normalizado, e a extrema direita regional se beneficia muito disso. Semanas depois de o secretário americano deixar o país, os equatorianos impuseram a Noboa uma importante derrota, rejeitando nas urnas o retorno de bases operadas por forças estrangeiras, vetadas desde 2008. Os EUA queriam estabelecer presença em uma instalação em Manta, na costa do Pacífico, e cogitaram a reabertura da base de Baltra, nas Ilhas Galápagos, uma ideia descartada antes do referendo. — Esta medida é resultado de meses de trabalho, especialmente durante nossa reunião mais recente no Pentágono. A partir de hoje, os narcoterroristas enfrentarão um Equador mais forte e mais bem preparado, que já não luta sozinho — disse na ocasião, referindo-se a um encontro, dias antes, com o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth. As outras duas escalas de Rubio na América do Sul se destacam não apenas pela importância estratégica na repaginação trumpista da Guerra às Drogas, mas por terem sido terrenos bem-sucedidos dos planos de Washington para moldar rumos políticos. Na Colômbia, Espriella, o milionário apresentado como voz antissistema, apostou no discurso de enfrentamento ao crime e no apoio declarado de Trump. Para a Casa Branca, era a oportunidade para afastar do jogo um grupo político antagônico, o campo liderado por Gustavo Petro, que foi incluído na lista de sanções americanas. “Não excluímos absolutamente nenhum país em termos das ofertas que nos foram feitas”, retrucou o ministro das Relações Exteriores, Omar Bula, em comunicado em agosto. “Trabalhamos com países sem qualquer consideração ideológica ou política.” Tal como Espriella, Fujimori foi eleita por margem mínima contra a esquerda no Peru, com uma campanha centrada no combate à violência e nas promessas de uma aliança próxima com Washington. Repetindo seu homólogo colombiano, declarou a intenção de se juntar ao Escudo das Américas — o que pode ser sacramentado durante a visita de Rubio — e se mostrou aberta à cooperação com as Forças Armadas dos EUA. Mas Keiko terá diante de si opções difíceis. O principal parceiro comercial do Peru é a China, e o país sul-americano integra a Iniciativa Cinturão e Rota (como Colômbia e Equador), pilar da diplomacia econômica de Pequim. Em 2024, o presidente chinês, Xi Jinping, inaugurou um megaporto de US$ 1,3 bilhão em Chancay, crucial nos planos da China para ampliar seu acesso à América do Sul através do Oceano Pacífico. Em suas primeiras declarações, Keiko afirmou que não pretende ser um espaço de disputa entre as duas maiores economias do planeta, mas sim adotar uma abordagem pragmática. Para os EUA, a contenção à presença chinesa na América Latina é uma prioridade estratégica. — Keiko terá que fazer uma escolha, porque é isso que Trump cobra de seus aliados. Ela tem tentado evitar o tema, mas será pressionada a desfazer os laços com a China — opina Loss. — Mas hoje é difícil dizer como ela fará isso, uma vez que a economia peruana depende muito da China. A aliança com Trump foi uma escolha que fez para se eleger. Mas agora, como presidente, ela terá um preço. — Ainda que não visite o Brasil, essa viagem é um recado para Brasília, e as declarações nos próximos dias podem conter críticas ao governo Lula. Donald Trump e Marco Rubio têm uma relação de “policial bom, policial mau” com o Brasil — explica Loss. — Trump às vezes é um pouco duro, mas depois alivia com declarações para afagar Brasília. Rubio usa palavras consistentemente duras contra o Brasil e contra o presidente Lula.