O peso das denúncias de corrupção pode moldar a reta final da eleição brasileira 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ato de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, na avenida Paulista — Foto: Joelmir Tavares/Valor No anedotário político das eleições presidenciais nos Estados Unidos, reina a “surpresa de outubro”, materializada em um fato ou boato de grande repercussão, capaz de mexer com a reta final da campanha. Lá, as eleições caem sempre na primeira terça-feira de novembro. Por analogia, setembro é o nosso outubro. Basta lembrar que a facada que atingiu o então candidato presidencial Jair Bolsonaro, em 2108, ocorreu em 6 de setembro. No dia 11 do mesmo mês, Fernando Haddad foi registrado como candidato presidencial do PT, diante da inelegibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva, então ex-presidente e cabeça de chapa. Em 2026, o prazo final para registro de candidaturas junto à Justiça Eleitoral expira na próxima segunda-feira (14). Leia mais Os olhares de quem acredita, teme ou deseja uma reviravolta eleitoral estão nas pesquisas e no Supremo Tribunal Federal (STF), onde se desenrolam conflitos com alto potencial de crise nesta semana. A direita bolsonarista tentou mobilizar a massa insatisfeita com as decisões e atitudes do ministro Alexandre de Moraes, do STF, neste Sete de Setembro, mas o resultado foi pífio. Flávio Bolsonaro abriu seu discurso de 15 minutos com o mote “Fora, Lula, fora, Moraes”, sem empolgar. Segundo o Monitor do Debate Político USP/Cebrap, o público na Paulista teve pico de presença de 28,5 mil pessoas (entre 25.1 mil e 32 mil pessoas, considerando a margem de erro). Um público magro, diante da expectativa dos organizadores de reunir 100 mil pessoas, indicando que comícios e eventos presenciais tendem a não mexer com os ponteiros da campanha. O público não só era menor, como menos entusiasmado que os de eventos anteriores do bolsonarismo na Paulista. Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (7) mostra o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) empatados com 41% das intenções de voto na simulação de segundo turno. Já Augusto Cury (Avante), novo “Dark Horse” (azarão), não sustenta o crescimento surpreendente registrado nos primeiros dias de setembro. Na simulação de primeiro turno, Cury oscilou negativamente de 10% para 8% das intenções de voto, dentro da margem de erro, mas ainda assim manteve a vantagem sobre os demais candidatos do pelotão de trás. Respondendo à pergunta sobre qual seria o melhor resultado para o Brasil, os entrevistados pela Quaest põem na liderança o presidente Lula, seguido por Flávio, mas 20% acreditam que um candidato “outsider” seria a melhor opção, e 17% gostariam de um moderado no Palácio do Planalto. Mensurar se Cury vai conseguir capturar uma parcela maior dos eleitores com esses sentimentos é uma das questões de setembro. Só 2% dos eleitores dizem não ter medo nem da volta da família Bolsonaro ao poder nem da reeleição de Lula. Resta saber se a disputa entre dois candidatos de forte rejeição junto ao eleitorado continuará polarizada entre eles até o fim. Dado o peso do tema da corrupção, considerado o mais importante para a decisão do voto por 20% dos eleitores (atrás apenas da violência), deve-se esperar uma chuva de denúncias e acusações na reta final. Nos últimos dias, ou semanas, campanhas eleitorais ficam mais suscetíveis à desinformação, e são terreno fértil para teorias da conspiração. No país que deu origem à “surpresa de outubro”, a mais conhecida foi a que girou em torno do sequestro de 52 americanos feitos reféns na Embaixada dos EUA em Teerã em 1979, na esteira da Revolução Islâmica. A crise dos reféns se estendeu por 444 dias. Eles foram soltos no dia 20 de janeiro de 1981, minutos antes da posse de Ronald Reagan (1981-89). Segundo teoria da conspiração que circulou na época, enviados de Reagan teriam negociado secretamente com os iranianos para impedir que o então presidente Jimmy Carter obtivesse a “surpresa” que o ajudaria na busca da reeleição. Comissões da Câmara e do Senado dos EUA investigaram o assunto, sem encontrar provas conclusivas. Um caso contundente foi o anúncio, feito pelo então secretário de Estado Henry Kissinger dias antes do pleito de 1972, de que um acordo de paz com o Vietnã estava “ao alcance das mãos”. O então presidente, Richard Nixon, foi reeleito com ampla margem, apesar do escândalo de Watergate, cuja investigação já estava em curso e acabaria forçando o presidente republicano a renunciar em 9 de agosto de 1974. O acordo seria assinado em 1973 e a retirada completa das tropas americanas aconteceria só em 1975, quando Nixon já deixado a Casa Branca. A ex-candidata presidencial e ex-secretária de Estado Hillary Clinton até hoje se queixa da surpresa que a abalou em outubro de 2016, quando concorria contra Donald Trump. Faltando poucos dias para que os americanos fossem às urnas, James Comey, então diretor do FBI (a polícia federal americana), reabriu as investigações sobre o uso de e-mail de um servidor privado por Hillary para comunicações de governo durante sua permanência na Secretaria de Estado, o que fere a legislação americana. Nunca se saberá com segurança o peso dessas “surpresinhas”, dada a dificuldade de comprovação de uma relação causa-efeito. Certeza mesmo é a de que os dias finais de campanha reservam fortes emoções a eleitores e candidatos.