O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) reuniu apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, nesta segunda-feira (7), em um ato marcado por ataques ao ministro Alexandre de Moraes e elogios ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Usando o ato do Dia da Independência como comício, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) fez um discurso atrelando o presidente Lula (PT) a Moraes, pediu o impeachment do ministro e acusou possíveis "interferências na eleição". Segundo o Monitor do Debate Político da USP/CEBRAP e a More in Common, a manifestação reuniu 28,5 mil pessoas. A margem de erro é de 12%, portanto havia entre 25,1 mil e 32 mil participantes às 16h32, horário de pico. A contagem é feita a partir de fotos aéreas analisadas com software de inteligência artificial. O público ocupou cerca de dois quarteirões da avenida, na altura do Masp, mesmo com temperaturas de 13ºC e previsão de chuva. Os manifestantes começaram a se reunir na via ainda no início da tarde, a maior parte com faixas e cartazes críticos a Moraes. Nas ruas, as camisas, placas e falas citavam principalmente o ministro Alexandre de Moraes e Lula. Manifestantes pediam a prisão do magistrado e do atual presidente, reclamavam da economia e pediam ajuda internacional dos Estados Unidos em temas domésticos. Balões e bonecos do presidente Lula preso ou subjugado por Donald Trump circularam pela avenida. Quando André Mendonça era citado, manifestantes começavam a fazer orações e desejar “força” ao ministro, rivalizando sua atuação com a do ministro Alexandre de Moraes. Nas bandeiras e camisas, o presidente Jair Bolsonaro era presente. Alguns manifestantes inclusive afirmaram que preferiam o ex-presidente no poder, e que nas suas avaliações, com Flávio eleito e o ex-presidente liberto, o patriarca da família seria quem tomaria as rédeas do governo. Se Moraes foi o alvo número um nos discursos, o ministro André Mendonça foi o grande homenageado: recebeu pedidos de oração e ganhou status de herói pela condução do caso Master. O ministro também ganhou um boneco gigante posicionado próximo ao trio elétrico principal. Flávio chegou ao local pouco antes das 15h ao lado de sua esposa Fernanda Bolsonaro, e no trio foi ladeado por aliados como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o pastor Silas Malafaia, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica e coordenadora da área econômica de sua campanha. 'Pixuleco' de André Mendonça: ministro do STF recebeu orações e homenagens durante ato bolsonarista na Avenida Paulista — Foto: Sérgio Quintella/O Globo O ato começou com o hino nacional e, em seguida, a Bispa Sônia, da Igreja Renascer em Cristo, subiu ao trio e orou um Pai Nosso. Na oração, ela pediu bênçãos a Flávio e Fernanda, e pediu que Deus "guarde o nosso irmão André Mendonça". Emulando seu pai Jair Bolsonaro (PL), que fez do 7 de setembro um palanque político anos anteriores, Flávio usou a ocasião para atacar Lula, seu principal adversário, reforçar críticas a Moraes e fazer promessas para a área da segurança pública e saúde. Ele também fez acenos às mulheres e aos jovens. Seu principal enfoque, entretanto, foi atrelar Lula a Moraes, inclusive dizendo que a culpa pelo "caos moral" do Brasil é culpa do atual presidente. — Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes. Nós não vamos permitir que Lula indique mais quatro Alexandre de Moraes para o STF. Eu vou indicar cinco ministros para o STF, porque Alexandre de Moraes vai cair. E eu vou indicar homens e mulheres que sejam contra o aborto, contra as drogas, contra a ideologia de gênero nas escolas, que respeitem a Constituição, que não persigam adversários políticos e que ajudem a resgatar a credibilidade do Supremo. Porque eu vou nós não vamos permitir que Lula indique mais quatro Alexandre de Moraes para o STF — falou. O ato desta segunda já vinha sendo convocado há algumas semanas, mas ganhou força após a revelação das conversas do ministro Alexandre de Moraes e do banqueiro Daniel Vorcaro. O pastor Silas Malafaia, que vinha permanecendo distante da organização do ato, resolveu se envolver na divulgação, que agora tem como mote principal críticas ao ministro e ao STF no geral. Bandeiras dos Estados Unidos e cartazes feitos por inteligência artificial foram vistos na Avenida Paulista, além de um boneco gigante de Donald Trump segurando Lula vestido de presidiário. Moraes como alvo e menos críticas ao STF Silas Malafaia fez um discurso longo, iniciou dizendo que não pretendia “caluniar ou difamar” ninguém, e pediu que o presidente do Supremo, Edson Fachin, afaste Moraes, a quem chamou de “ditador de toga”. Ele focou suas críticas em Moraes e destacou o papel importante que a Corte tem na democracia, destoando de discursos feitos em manifestações na Paulista em outras ocasiões, quando costumava fazer os ataques mais duros à instituição como um todo. O pastor citou o contrato de R$ 130 milhões assinado pelo escritório de Viviane Barci, esposa de Moraes, com o Banco Master, que foi editado pelo ministro. — Isso mostra que a mulher de Alexandre não tem nenhum saber jurídico, esse contrato é uma prova da compra do poder e da influência desse ditador — disse Malafaia, que tentou atrelar Moraes a Lula. – Vocês já viram que Lula e o PT não dão uma palavra contra esse cara depois de toda essa lama? Fora Lula, fora Alexandre de Moraes, fora PT. Nós não viemos aqui pregar a desmoralização do STF, não vamos cair nesse jogo. (...) Nós precisamos de instituições fortes, desgraçar o Supremo é arrebentar com a democracia e com a República. Então vai aqui meu pedido ao excelentíssimo presidente do STF, Edson Fachin. Pelo bem da Suprema Corte, afaste Alexandre de Moraes. A estratégia de defender o Supremo e atacar apenas Moraes também foi usada por Flávio, que prometeu “trabalhar para resgatar a credibilidade do Judiciário brasileiro” e “proteger o STF de Alexandre de Moraes”. – Aquela laranja podre não pode contaminar toda a Corte. O Supremo não é Alexandre de Moraes. O Judiciário não é Alexandre de Moraes. A magistratura não é Alexandre de Moraes — falou Flávio. Tarcísio fez um dos discursos mais contidos da manifestação, e evitou falar em impeachment de ministros do Supremo. Ele afirmou que as revelações recentes sobre a relação entre Moraes e Vorcaro exigem "resposta". Entretanto, adotou um tom mais ameno no 7 de Setembro deste ano em comparação com o mesmo evento do ano passado. Se em 2025 ele usou termos como "tirania" e "ditadura", ao se referir ao ministro, desta vez ele cobrou "resposta institucional" e disse que "ninguém está acima da lei". – As últimas revelações sobre o Moraes, sobre o Supremo, precisam de resposta. Quando há dúvida acerca da conduta e o exercício da magistratura, uma resposta institucional precisa ser dada. Está na hora do tribunal se unir para dar apurar e dar a resposta que a sociedade precisa. A gente precisa relembrar de uma máxima: absolutamente ninguém está acima da lei, ninguém está acima da Constituição. Banqueiro, senador, ministro, governador e presidente nenhum está acima da Constituição. Todos precisam se submeter à lei. Deveria ter uma frase em cada gabinete em Brasília, o preço da grandeza é a responsabilidade. Se você quer ter grandeza, preste contas, não tenha medo, esclareça. Isso é fundamental neste momento – falou. Vice na chapa de Flávio, Alfredo Gaspar (PL) exaltou Jair Bolsonaro, e chamou Lula e Moraes de "inimigos do Brasil", e disse que "não existe Lula sem Alexandre e Alexandre sem Lula". Deputado por Alagoas, Gaspar subiu ao trio com um forró e fez um aceno ao Nordeste, região onde Flávio enfrenta maior dificuldade, segundo as pesquisas eleitorais. — Por isso, nós vamos dizer fora, Lula, e fora, Moraes. O mundo precisa saber que o Brasil vai enxotar Lula e Moraes. Eu quero dizer nesse momento que eu venho do Nordeste, com muito orgulho, e o Nordeste é Flávio Bolsonaro. O Lula representa o passado da corrupção, do crime organizado, dos juros altos e da falta de oportunidades. O futuro está aqui, é Flávio — falou Gaspar. — Moraes, vamos tirar esse sorrisinho debochado da sua cara. Não vai ser Lula que vai indicar quatro ministros do STF a partir do ano que vem. Vai ser Flávio Bolsonaro (...) Alexandre de Moraes teve a oportunidade de recuar, mas não recuou. Estamos na Avenida Paulista para dar um recado simples. Ano que vem teremos a maioria, com bons senadores, senadores que falam de impeachment de Moraes. E ano que vem vamos pela última vez para as ruas para pedir o impeachment de Moraes— falou. Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, fez uma breve fala destacando a importância de eleger Flávio como caminho para anistiar e soltar Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. — Só tem um jeito: Jair Bolsonaro vai ficar preso por mais 10 anos se o Flávio não for eleito. Com o Flávio eleito, Bolsonaro estará com a gente no dia seguinte — declarou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, antes de pedir um coro para o público: — Quero pedir isso para vocês: "Volta Bolsonaro, Volta Bolsonaro!". Vamos juntos para a vitória. Candidatos ao Senado atacam STF Com tom de comício não só para Flávio, mas também para aliados que concorrem a outros cargos públicos em São Paulo e em outros estados, candidatos ao Senado discursaram pregando o impeachment de ministros do STF e criticando os “abusos do Judiciário”. A deputada federal Bia Kicis (PL-DF), que é candidata a senadora pelo Distrito Federal, levou um “abraço” de Michelle Bolsonaro (PL) — que também postula o cargo e não compareceu ao evento — e defendeu “colocar para correr ministros que rasgam a Constituição”. Manifestantes erguem cartazes e faixas contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, durante ato na Avenida Paulista — Foto: Maria Isabel Oliveira/O Globo Já Guilherme Derrite (PP), que tenta se eleger senador por São Paulo, disse que “o Senado é peça fundamental para o resgate da democracia” e que “ninguém aguenta mais os abusos do Poder Judiciário”, e que vai atuar para “colocar os poderes em equilíbrio”. Outro candidato na mesma chapa pelo estado, André do Prado (PL) disse que "é claro que votará impeachment de ministro do Supremo se cometeu crime de responsabilidade" e que "ninguém está acima da lei". Ele defendeu que, por isso, "é preciso eleger a direita como maioria do Senado". Gustavo Gayer (PL-GO), que tenta o Senado por Goiás, criticou diretamente Moraes por estar conversando com Vorcaro na época em que condenou Jair Bolsonaro e defendeu que "a condenação de Bolsonaro tem que ser imediatamente anulada, como todos aqueles que estão presos merecem ser imediatamente libertos". Ele ainda exaltou. — André Mendonça, o que você está vendo aqui na Paulista é um milhão de pessoas dizendo que você não está sozinho, é um povo grato pelo trabalho que você tem feito — disse Gayer. — Nós vamos fazer o impeachment de Alexandre de Moraes e de qualquer outro ministro que desrespeite a Constituição. Antes do ato, Flávio participou de um culto na Igreja Mundial do Poder de Deus, na região Central de São Paulo, ao lado de Tarcísio. No local, ele fez uma oração e pediu que Deus “venha com a espada da justiça na Praça dos Três Poderes”, em Brasília.
Com gritos de 'fora Moraes' e exaltação a Mendonça, Flávio Bolsonaro reúne apoiadores na Paulista
Ato foi marcado por pedidos de impeachment ao ministro após revelações de conversas com Vorcaro, mas discursos evitaram criticar STF como um todo; candidatos ao Senado pleitearam maioria da direita na Casa para frear 'abusos'












