Candidato aposta no confronto com Moraes para manter mobilizada a base bolsonarista, mas aliados avaliam que endurecimento pode dificultar avanço sobre parcela do eleitorado 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flávio Bolsonaro durante manifestação de 7 de setembro na Avenida Paulista — Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo O candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, ampliou a ofensiva contra Alexandre de Moraes no ato de 7 de Setembro, mas sua campanha teme que o endurecimento afaste parte do eleitorado que ainda não definiu o voto. A avaliação é que o confronto com o ministro é uma ferramenta importante para manter mobilizada a base bolsonarista, formada por eleitores que se identificam com um discurso mais combativo. O problema, segundo integrantes da campanha, é que Flávio também precisa avançar sobre um contingente que ainda não aderiu à candidatura e pode reagir negativamente à perspectiva de uma nova escalada entre o Executivo e o Judiciário. Esse eleitorado é especialmente relevante em uma disputa que se desenha apertada. Nas rodadas mais recentes da pesquisa Quaest, Minas Gerais tem 15% de eleitores sem candidato definido, enquanto São Paulo marca 12% de indecisos e Rio de Janeiro registra 9%. São três dos maiores colégios eleitorais do país e estados considerados importantes para a estratégia de Flávio. O percentual, porém, não representa um grupo politicamente homogêneo. Entre os indecisos estão eleitores que já votaram em Bolsonaro mas ainda não se convenceram em transferir o voto para seu primogênito, pessoas frustradas com o governo Lula e também eleitores que se deslocaram em direção ao centro. Para a campanha de Flávio, existe espaço para conquistar parte desse contingente justamente porque ele não está necessariamente fechado com o candidato petista, mas tampouco se identifica automaticamente com o bolsonarismo. É nesse cenário que o discurso sobre Moraes representa um dilema para aliados de Flávio. Se por um lado a ofensiva ajuda o candidato a reafirmar sua identidade política e a falar diretamente com um eleitor que espera dele uma postura mais agressiva, ao mesmo tempo, ataques envolvendo impeachment, “ditadura de Moraes” e a promessa de retirar o ministro do STF podem produzir outra leitura entre quem ainda está em dúvida. Para esse eleitor, a discussão pode deixar de ser apenas sobre Moraes e passar a representar o risco de uma nova fase de conflito institucional. Mesmo assim, a campanha não trabalha com a ideia de abandonar o tema, que deve permanecer central nas declarações e nos materiais da campanha nos próximos dias. A orientação é manter Moraes como um dos principais alvos, mas evitar que o candidato transforme a crítica ao ministro em uma contestação generalizada ao Supremo. O cálculo é preservar o poder de mobilização da pauta sem reforçar a imagem de que um eventual governo de Flávio seria marcado por uma disputa permanente com o Judiciário. Foi esse o equilíbrio buscado na Paulista durante o discurso de Flávio no feriado da Independência. Em cima do trio elétrico, o candidato chamou Moraes de responsável por uma “ditadura”, afirmou que o ministro “vai cair”, disse que quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes e prometeu indicar cinco ministros para o Supremo. A fala colocou o ministro no centro de sua narrativa eleitoral e apresentou a eleição também como uma oportunidade de alterar a composição da Corte. Na mesma fala, entretanto, Flávio estabeleceu uma distinção explícita entre Moraes e o STF. — Nós temos que proteger o STF de Alexandre de Moraes. Aquela laranja podre não pode contaminar toda a Corte. O Supremo não é Alexandre de Moraes. O Judiciário não é Alexandre de Moraes. A magistratura não é Alexandre de Moraes. Segundo auxiliares, essa distinção também orienta a estratégia da campanha. Embora Flávio possa explorar o desgaste de Moraes, defender seu impeachment e prometer mudanças na composição do Supremo, a avaliação é que o candidato não deve apresentar o tribunal como um adversário em bloco. A preocupação é preservar a possibilidade de diálogo com outros ministros e evitar que a escalada contra Moraes feche pontes que possam ser necessárias em um eventual governo. Um movimento feito pelo próprio coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN), reforça essa preocupação. Na última quarta-feira, o senador procurou o ministro Gilmar Mendes para discutir o cenário e manter um canal de interlocução com o Supremo. Segundo interlocutores de Marinho e do ministro, a conversa tratou da situação da Corte e da pressão pelo afastamento de Moraes. Gilmar é visto por aliados de Marinho como um dos ministros com maior capacidade de interlocução política dentro e fora do tribunal e, por isso, como uma ponte importante neste momento. A conversa também serviu para que o senador buscasse entender o tamanho da crise e seus possíveis desdobramentos. A movimentação ajuda a explicar a divisão de funções adotada pela campanha. Enquanto Flávio concentra os ataques em Moraes, aliados procuram preservar canais com outros integrantes da Corte. O objetivo é manter a pressão pública sobre o ministro sem transformar o conflito em uma disputa contra o Supremo como instituição. O cuidado também tem relação com a experiência de Jair Bolsonaro, que também em 7 de Setembro de 2021, o então presidente subiu o tom contra Moraes, afirmou que não cumpriria decisões do ministro e disse que ele deveria “se enquadrar” ou pedir para sair. Dois dias depois, diante da crise provocada pelas declarações, Bolsonaro publicou uma “Declaração à Nação” em que afirmou que suas palavras haviam decorrido do “calor do momento”, negou intenção de atacar os Poderes e defendeu o diálogo entre as instituições. A campanha de Flávio tenta evitar que o candidato percorra novamente esse caminho. O senador chegou a ser alertado por pessoas próximas a evitar falas tão contundentes quanto as do pai no evento. Uma das estratégias usadas no último ato foi, por exemplo, terceirizar as críticas mais duras. O pastor Silas Malafaia foi um dos que mais subiu o tom contra Moraes, a quem voltou a chamar de “ditador da toga”. A divisão permite que a campanha mantenha o ministro como alvo central sem fazer com que Flávio seja necessariamente o porta-voz de todas as manifestações mais radicais contra o Supremo.
Flávio amplia ofensiva contra Moraes mas campanha calibra discurso de olho em eleitor indeciso
Candidato aposta no confronto com Moraes para manter mobilizada a base bolsonarista, mas aliados avaliam que endurecimento pode dificultar avanço sobre parcela do eleitorado







