Sabrina Sato falou abertamente sobre os desafios que tem enfrentado durante a gravidez e trouxe à tona uma questão que costuma ganhar menos espaço nas conversas sobre gestação: o que acontece com os sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) durante esse período? "Eles interferem na nossa vida. Já tive rótulos de esquecida, desorganizada, atrasada, inquieta e burra. Tive todos os rótulos que podem imaginar. Mas vou fazendo o meu. Às vezes, as pessoas demoram anos para conseguir tirar esses rótulos da cabeça. Quando você se conhece de verdade, não importa o que te chamam. Você sabe o que é de verdade e do que é capaz. Sempre soube do que era capaz e o que queria", declarou em um evento recente, em São Paulo. A gestação provoca uma série de mudanças no corpo e na vida da mulher. Alterações hormonais, cansaço, noites mal dormidas, novas preocupações e uma rotina marcada por consultas e preparativos podem afetar concentração, memória e organização, dificuldades que também fazem parte do quadro de quem tem TDAH. Isso não significa, porém, que a gravidez provoque ou necessariamente agrave o transtorno. Para quem já recebeu o diagnóstico, a questão é mais complexa: as transformações próprias dessa fase podem se somar às dificuldades que já faziam parte do cotidiano e tornar alguns sintomas mais perceptíveis. "Durante a gravidez, a mulher passa por uma série de mudanças que podem interferir na atenção, na memória, no sono e na disposição. Em uma paciente com TDAH, essas alterações podem se somar às dificuldades que já existiam antes da gestação", explica o psiquiatra Rafael Fabri. Segundo o médico, não é possível atribuir automaticamente ao transtorno qualquer piora percebida nesse período. É preciso considerar também fatores como privação de sono, ansiedade, estresse e sobrecarga, que podem afetar a capacidade de concentração mesmo em quem não tem TDAH. Hormônios podem influenciar os sintomas? As oscilações hormonais estão entre os aspectos estudados quando se fala sobre TDAH em mulheres. A gravidez e o período após o parto são fases particularmente marcadas por mudanças no organismo, além de transformações importantes na rotina e nas demandas do dia a dia. Para a neurologista Roberta Machado, essa combinação pode fazer com que determinadas dificuldades se tornem mais evidentes. O diagnóstico, no entanto, não deve ser baseado no que a paciente está vivenciando em um único momento. "O TDAH é caracterizado por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade, com repercussões em diferentes áreas da vida. Durante uma fase de grandes transformações, como a gravidez, algumas dificuldades podem ficar mais perceptíveis porque a mulher passa a lidar com novas demandas ao mesmo tempo", afirma. Por isso, a avaliação deve levar em conta a história da paciente e a forma como os sintomas se manifestavam antes da gestação. Essa análise ajuda a diferenciar uma característica persistente do transtorno de alterações que podem estar relacionadas especificamente ao período. Esquecimento na gravidez é sempre TDAH? Não. Lapsos de memória, dificuldade de concentração e sensação de desorganização podem acontecer durante a gestação mesmo em mulheres que não têm TDAH. Cansaço, sono insuficiente, ansiedade e estresse estão entre os fatores capazes de interferir nessas funções. É justamente essa sobreposição que torna a avaliação individualizada importante. Em uma mulher que já tem diagnóstico, perceber mais dificuldade para cumprir tarefas ou manter o foco não significa, necessariamente, que o transtorno tenha piorado. "Nem toda dificuldade de atenção em uma gestante com TDAH necessariamente vem do transtorno. Sono ruim, ansiedade, estresse e mudanças importantes na rotina também interferem na capacidade de concentração", observa Fabri. E o tratamento do TDAH durante a gravidez? Para quem fazia tratamento antes de engravidar, a descoberta da gestação costuma trazer uma dúvida importante: é seguro continuar usando a medicação? A resposta não é igual para todas as pacientes. A decisão sobre manter, interromper ou modificar um tratamento deve considerar o medicamento utilizado, o período da gestação, a intensidade dos sintomas e o impacto que eles provocam na vida da mulher. "Gestação não é um momento para iniciar, interromper ou modificar uma medicação psiquiátrica sem orientação médica", alerta Fabri. Segundo ele, a escolha deve levar em conta tanto a saúde da mãe quanto as características da gestação e os possíveis efeitos do tratamento, com acompanhamento dos profissionais responsáveis pelo cuidado da paciente. TDAH na gravidez: Sabrina Sato chama atenção para mudanças nos sintomas — Foto: Reprodução Instagram O relato de Sabrina Sato ajuda a ampliar a conversa para além da ideia de que distração e esquecimento são apenas características comuns da gravidez. Para mulheres com TDAH, a gestação — e, depois, o puerpério — pode exigir uma reorganização significativa da rotina e das estratégias usadas para lidar com os sintomas. Mudanças que comprometam de forma relevante as atividades cotidianas, o bem-estar ou a capacidade de cumprir tarefas devem ser discutidas com a equipe que acompanha a gestação. A orientação médica é especialmente importante quando há uso de medicamentos: qualquer alteração no tratamento deve ser feita com acompanhamento profissional.