Revisão de livro sobre o assunto exigiu retirada do termo ‘ditadura’ para se referir ao governo entre 1964 e 1985 ou troca por ‘regime militar’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Parada militar do 7 de setembro, em Brasília — Foto: Evaristo Sá/ AFP Se há algo que ocorre em longa duração neste país no feriado de 7 de setembro é a realização do desfile militar. Instituído na Primeira República, ele foi usado pela ditadura para reafirmar os valores autoritários que lhe eram caros, em uso intencional do passado. A comemoração do fato com uma parada dessa natureza diz muito sobre a leitura oficial que se consolidou sobre a Independência. Felizmente, nas últimas décadas, essa leitura tem sido contestada: por um lado, por movimentos sociais e grupos discriminados que ganham cada vez mais espaço público; por outro, por profissionais da História, cujas pesquisas têm passado por uma revolução em seus temas, abordagens e na valorização da participação de muitos outros sujeitos na sua história, para além de D. Pedro, José Bonifácio ou D. Leopoldina. Foi pensando na importância de contribuir para a ampliação de seu debate que, no momento do Bicentenário, montamos um blog com o objetivo de difundir interpretações renovadas sobre a Independência, no âmbito da Associação Nacional de História. Desde seu nome, “Independências do Brasil”, já anunciava a intenção de falar na pluralidade de temas, pessoas e grupos que fizeram parte dessa História, a nossa. Textos curtos de historiadores foram publicados semanalmente sobre as mais variadas temáticas. O resultado foi tão bem-sucedido que eles passaram a ser usados em salas de aula, demonstrando a alta receptividade e capacidade didática. Isso nos levou, no final de 2023, a reunir o material e fazer uma proposta de livro para a editora da Câmara dos Deputados. A proposta foi aceita com amplo acolhimento por parte da equipe editorial e logo executada, com cessão dos direitos autorais dos 57 autores. O livro ficou pronto na metade do ano passado, com ISBN e ficha catalográfica para versões impressa e digital. Às vésperas do lançamento, fomos surpreendidos com a solicitação de uma “nova rodada” de revisão encabeçada por uma comissão presidida pelo deputado Lafayette de Andrada (PL-MG). Para nossa surpresa, a revisão incluía significativas mudanças de conteúdo, propondo “intervenções” — essa foi a palavra utilizada — que se traduziam na supressão de termos, de frases e até de parágrafos inteiros. A ação tem claro sentido ideológico e de censura. Primeiramente, por exigir a retirada do termo “ditadura” para se referir ao governo entre 1964 e 1985, em todos os momentos em que ele aparecia, ou sua substituição por “regime militar”. Grande parte dessas menções concentra-se nos textos que discutem como foram as comemorações da Independência nos seus 150 anos, em 1972. As festividades tiveram como centro a vinda dos restos mortais de D. Pedro I para o Brasil, num misto de exaltação da monarquia e do próprio governo ditatorial que estava em seu auge repressivo. Em segundo lugar, os cortes declaradamente propõem abrandar ações do Estado brasileiro: seja ao cortar a referência ao desprezo com que o governo do Brasil historicamente se moveu contra os povos indígenas, seja por retirar a menção a suas pretensões expansionistas, ou mesmo passagens relativas aos “gritos dos excluídos” que reivindicam sua participação. Em pleno século XXI, deputados da Casa legislativa — que foi fechada ao menos duas vezes com o AI-2 e o AI-5 — querem não apenas negar a História, mas claramente manipulá-la. Nós, como cidadãos e historiadores profissionais, não podemos nos calar diante desse ato de censura, uma herança da cultura autoritária que nos custa extirpar. *André Roberto Machado e Andréa Slemian são professores da Universidade Federal de São Paulo, Claudia Chaves é professora da Universidade Federal de Ouro Preto