No livro, a autora carioca faz paralelos com as crônicas de Paulo Mendes Campos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cerca de 25 mil pessoas frequentaram o Sesc Glória e o Hotel Senac Ilha do Boi, lotando as sessões vespertinas e noturnas — Foto: Sérgio Cardoso/Acervo Galpão IBCA O término do amor que se sente por alguém pode ocorrer em diversas circunstâncias, como afirma Paulo Mendes Campos na crônica “O amor acaba”: numa esquina, num domingo de lua nova, no desenlace das mãos no cinema. Mas o interesse por uma pessoa pode também começar diante do início de um filme, a exemplo do que acontece no romance “O amor na sala escura”, de Clarisse Escorel. Se o cronista sentencia o fim do amor em algum instante corriqueiro ou inesperado, Catarina, narradora do livro, dialoga com o texto do autor, entre outros motivos, por explorar uma ideia paralela, a de que o sentimento também chega dessa maneira: “Não me explicaram que a qualquer momento, sem que você possa se preparar, o amor aparece.” Para ela surgiu quando conheceu um rapaz no cinema. Os dois chegaram no mesmo horário, cumprimentaram amigos em comum com quem haviam marcado, foram brevemente apresentados um ao outro e a luz se apagou para a exibição do filme. Depois da sessão, uma carona foi a brecha para um passeio de carro pela cidade à noite. Não é desse modo, no entanto, que a narrativa começa, e sim em um momento posterior ao rompimento do casal, quando o repentino reencontro no aeroporto provoca uma reaproximação, responsável por questionamentos que a personagem faz a si mesma sobre o próprio comportamento e as atitudes do ex (“Por que não fazer um desvio e evitar o encontro? Por quê?”). As perguntas funcionam no romance como um elemento que conecta ainda mais o leitor à história, tanto pelo interesse nas consequências da insegurança manifestada nas dúvidas da protagonista quanto por se reconhecer na tão humana sensação de não saber o que fazer em se tratando de paixão. Luzes acesas O reencontro de Catarina com Daniel — nomes revelados apenas no final do livro — indica a dificuldade de agir a partir do aspecto racional, suplantado muitas vezes pelo emocional. Não há o desvio, a estratégia para evitar que se esbarrem. Fingir não ver o outro poderia facilitar tudo, mas não, é preciso cruzar os olhares, saber a reação, analisar os efeitos do resgate desse passado. Evocar o amor é também convocar o “E se?”, as hipóteses acerca do que poderia ter sido se agíssemos de outra forma, se fizéssemos outra escolha em determinado momento ou, ainda, é se dar conta de que já não há possibilidade alguma, mesmo que se busque por ela. Todo esse processo implica percepção de mudança, capacidade de enxergar na mesma pessoa uma outra, com a noção de que o tempo a transformou de algum modo (“Eram olhos que apenas lembravam os seus”). Livrar-se do passado, como afirmado em trecho da obra, é impossível, e a protagonista coerentemente o enfrenta, extraindo do tempo decorrido sua ferrugem, suas manchas, mas também resgatando o que não se deteriorou, como se fosse possível o polimento. Como no poema de Drummond, é a escrita quem preserva a memória, com a consciência de que “amar o perdido/ deixa confundido/ este coração”, mas também com a sabedoria de que “as coisas findas/ muito mais que lindas/ essas ficarão”. Em “O amor na sala escura”, essa memória é sustentada por diferentes filmes, seja pela recordação da personagem por ter assistido a algum, seja pelo diálogo da narrativa audiovisual com a escrita. É assim que o texto nos traz cenas como a de “Vidas passadas”, filme de Celine Song a respeito do reencontro, 20 anos depois, de um homem e uma mulher que tiveram a experiência do primeiro amor no fim da infância. Com suas vidas em rumos bem diferentes, ela diz para o rapaz que aquela menina não mais existe, mas segue sendo real, porque ficou com ele quando ela foi embora. Clarisse Escorel, neste romance de estreia, constrói personagens que também deixam suas antigas versões um com o outro, e dessa forma promove um mergulho em luzes que fundem esperança e frustração, solidão e contentamento, desgosto e renovação. O eu de agora avalia o eu de outrora — uma mulher olha para a menina e para a moça que foi em outra época —, e os desdobramentos disso elucidam a profundidade de sua narrativa. *Thaís Velloso é autora de “Teias no céu” (Patuá, 2026), professora e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ Serviço: "O amor na sala escura" Autora: Clarisse Escorel. Editora: Bazar do Tempo. Páginas: 170. Preço: R$ 78. Cotação: muito bom. 'O amor na sala escura', de Clarice Escorel — Foto: Divulgação