Embarcar num romance é aceder a uma espécie de eternidade íntima. É viajar à vela, vendo ao longe passarem palmeiras 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 'A leitura de um romance, em particular de um romance denso e volumoso, requer uma mente treinada para o isolamento' — Foto: Reprodução Assisti recentemente, nas instalações da Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo, a uma conversa entre Mia Couto e Fabio Porchat. A determinada altura, Fabio confessou o receio de que as redes sociais estejam prejudicando a nossa capacidade para enfrentar romances longos. Ouço cada vez mais pessoas se queixando do mesmo. Nos dias de hoje, também eu experimento certa dificuldade em concentrar-me para ler um romance. Culpar as redes sociais pelo colapso da literatura me parece um exagero. Primeiro, teríamos de provar que a literatura está em declínio. Contrariando prognósticos insistentes, o mercado livreiro continua vigoroso, e, em muitas partes do mundo, incluindo no Brasil, vem até crescendo. Além disso, as redes sociais ajudam a vender livros. Os críticos clássicos estão sendo substituídos por influenciadores digitais, muitos dos quais contam com centenas de milhares de seguidores. Os melhores destes novos críticos exercem a sua função com seriedade, indicando títulos, e ajudando o leitor a aceder às obras dos seus escritores favoritos. Diversos estudos indicam — isso sim — que estamos viciando o cérebro numa perversa coreografia da atenção. A leitura de um romance, em particular de um romance denso e volumoso, requer uma mente treinada para o isolamento. Só conseguimos ler “Ada ou ardor: crônica de uma família”, “Grande sertão: Veredas” ou “Cem anos de solidão”, se formos capazes de criar uma sólida carapaça entre nós e o mundo voraz. Num qualquer romance é comum personagens surgirem, para logo desaparecerem, retornando tempos depois. Tais ausências e reviravoltas forçam o leitor a recuar, uma e outra vez. O romance exige que nos entreguemos no primeiro parágrafo, em troca de uma recompensa que talvez só surja, numa esquina qualquer, a 200 páginas de distância. As redes sociais tendem a operar no sentido oposto, oferecendo chocolates a cada esquina. Dias após a conversa entre Mia e Fabio, tive o prazer de abraçar o ator na Ilha de Moçambique, onde vivo. Fomos passear de dhow. Os dhows são embarcações tradicionais, fabricadas à mão, peça por peça, com recurso a instrumentos tão antigos quanto os próprios barcos. Também as cordas e as velas costumam ser artesanais. Esta sabedoria ancestral vem sendo transmitida de pais para filhos, desde há inúmeras gerações, em alguns pontos da costa de Moçambique, da Tanzânia ou do Quênia. O primeiro dhow terá surgido no Golfo Pérsico, na Índia ou no Mar Vermelho. Ninguém sabe ao certo. Navegar num dhow é um exercício de lentidão. Quem aceita viajar de dhow renuncia à pressa e à vertigem da modernidade — mas não à modernidade. Não vejo os dhows como uma relíquia de um passado glorioso. Penso neles como um instrumento ajustado ao futuro. São movidos por uma energia limpa e inesgotável, fabricados com materiais locais, e não exigem mais do mar do que aquilo que o mar lhes pode dar. Os romances funcionam de forma muito semelhante. Embarcar num romance é aceder a uma espécie de eternidade íntima. É viajar à vela, vendo ao longe passarem palmeiras. Como os dhows, romances são máquinas feitas para limpar a alma e devolver-nos a justa posse do tempo.
A justa posse do tempo
Embarcar num romance é aceder a uma espécie de eternidade íntima. É viajar à vela, vendo ao longe passarem palmeiras
569 words~3 min read






