Gravação feita por um dos próprios fiscais registra André Weiss criticando colega considerado agressivo nas cobranças e defendendo que o esquema precisa ser vantajoso também para o contribuinte; no mesmo almoço, ele fala em comprar uma sauna para lavar dinheiro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 André Weiss, ex-coordenador da Administração Tributária da Secretaria da Fazenda de São Paulo, alvo de investigação sobre um esquema de cobrança de propina na pasta. — Foto: Reprodução Uma gravação feita durante um almoço entre fiscais da Secretaria da Fazenda de São Paulo registra o que o Ministério Público descreve como uma espécie de “conselho de ética” sobre como cobrar propina sem provocar a reação de quem era cobrado. No diálogo, André Weiss, que chegou ao comando da administração tributária paulista, critica a postura de um fiscal considerado agressivo nas cobranças e afirma que acha que precisa ser “bom para os dois lados”. Caso contrário, segundo ele, o contribuinte poderia denunciar o esquema. O áudio foi gravado em julho de 2023 pelo ex-auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, preso na investigação sobre o esquema envolvendo a Ultrafarma. Segundo a representação apresentada pelo Ministério Público de São Paulo à Justiça, estavam à mesa, entre outros, o então delegado tributário Paulo Sérgio Siqueira Prado — que fechou acordo de delação premiada com o MP —, Weiss, Artur, Valmir Lucas Dornelles, Edgar Ishida e Bruno Alves de Oliveira. A gravação ocorreu menos de um mês antes de uma das primeiras entregas de propina relatadas por Paulo Prado em acordo de colaboração. O trecho sobre a cobrança envolve Daniel Paganotti, então lotado na Delegacia Regional Tributária de Osasco. De acordo com a descrição do Ministério Público, os participantes passam a falar sobre Daniel porque ele seria “muito agressivo” na cobrança de propina. É nesse momento que Weiss faz a ressalva: o pedido, na sua avaliação, deveria ser vantajoso para as duas partes, sob o risco de o contribuinte procurar as autoridades e denunciar o fiscal. Em outro momento do mesmo almoço, os fiscais discutem a divisão dos valores relacionados a grandes contribuintes. Ao ser questionado sobre o assunto de uma reunião reservada com Paulo Prado, Weiss responde com uma palavra: “Rateio”. Na avaliação do Ministério Público, a conversa mostra que a discussão sobre os pagamentos não se limitava a um acerto entre um fiscal e determinado contribuinte, mas envolvia a repartição das vantagens entre diferentes integrantes do grupo. O áudio também registra Weiss falando sobre uma forma de esconder dinheiro em um negócio com grande circulação de espécie. Segundo a representação, ele conta que havia pensado em comprar uma sauna em São Paulo não apenas para realizar reuniões, mas também porque o estabelecimento poderia ser usado para lavar dinheiro. — Em sauna quase todas [as pessoas] pagam em dinheiro. Quem que vai passar um cartão em sauna? Ninguém — disse. A conversa inclui ainda uma preocupação de Weiss com a exposição do patrimônio. Em determinado momento, ele pondera que aparecer com uma Mercedes de cerca de R$ 250 mil poderia chamar a atenção da imprensa e fazê-lo "acabar algemado". Para o Ministério Público, a fala indica consciência sobre o risco de descoberta e sobre a origem ilícita dos recursos discutidos no encontro. Weiss assumiu a direção da Diretoria de Fiscalização em 2023 e, em agosto de 2024, chegou ao comando da Diretoria Geral Executiva da Administração Tributária, posição que deixou em maio de 2026. O Ministério Público afirma que o ex-dirigente recebeu cerca de R$ 4,5 milhões em espécie de Paulo Prado, entregues em mochilas em restaurantes da região de Pinheiros. A colaboração de Paulo Prado descreve que os pagamentos a Weiss ocorreram enquanto ele estava à frente da estrutura tributária. Segundo o relato, Prado teria repassado mensalmente R$ 250 mil a Weiss para permanecer na Delegacia Regional Tributária do Butantã até sua aposentadoria, entre 2023 e 2024. O valor total informado pelo colaborador chegou a aproximadamente R$ 4,5 milhões, entregues em espécie. A investigação sustenta que a conversa do almoço se encaixa em um esquema mais amplo de cobrança de vantagens indevidas para acelerar e destravar pedidos de ressarcimento de ICMS-ST. O Ministério Público afirma que pagamentos eram estabelecidos como percentuais dos valores que os contribuintes tinham a receber — havia referências a taxas de 1%, 1,5%, 2,5%, 3% e até 10%. A representação, porém, trata as acusações como fatos ainda sob investigação. O documento do Ministério Público pede novas medidas de busca e apreensão para aprofundar a apuração sobre a participação de Weiss e de outros servidores e operadores. Em nota, a Secretaria da Fazenda afirmou que desde a Operação Ícaro, em agosto de 2025, a pasta atua em conjunto com o MPSP na apuração dos fatos. De acordo com a Fazenda, as ações já resultaram na demissão de cinco envolvidos, além de um exonerado e 17 servidores afastados sem remuneração. As empresas envolvidas, ainda de acordo com a nota, também estão sendo responsabilizadas, com autuações que já resultaram na constituição de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros. A Secretaria diz colaborar integralmente com as investigações e reafirma o compromisso de apurar e responsabilizar eventuais desvios. No fim da manhã, durante evento de campanha, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) comentou a operação e disse que o servidor preso já estava afastado de suas funções. — A partir do momento que as investigações da Operação Ícaro foram avançando, a gente foi vendo que esse sujeito podia ter um envolvimento com aquele esquema que foi revelado na Operação Ícaro e a gente fez o afastamento dele em maio. Então ele já estava afastado justamente por essa suspeita. Em função da Operação Ícaro, cinco servidores da fazenda foram demitidos, outros seis estão com processo administrativo e disciplinar, e estão também em vias de ter a demissão concretizada — disse o governador. O GLOBO tenta contato com a defesa dos investigados. O espaço segue aberto para manifestação.
'Tem que ser bom para os dois': em áudio, ex-dirigente da Fazenda de SP dá ‘conselho de ética’ sobre como cobrar propina sem ser denunciado
Gravação feita por um dos próprios fiscais registra André Weiss criticando colega considerado agressivo nas cobranças e defendendo que o esquema precisa ser vantajoso também para o contribuinte; no mesmo almoço, ele fala em comprar uma sauna para lavar dinheiro












