Em meio a tecnologias, suplementos e promessas de vida longa, hábitos simples continuam sendo o ponto de partida para cuidar da saúde 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pequenas escolhas de hoje podem fazer diferença no futuro — Foto: Getty Images Dormir melhor, colocar o corpo em movimento, encontrar os amigos, ter tempo para não fazer nada. Parece pouco diante da parafernália que hoje cerca o tema da longevidade. Relógios medem até o que a gente nem sabia que precisava acompanhar, suplementos prometem soluções para quase tudo e novas tecnologias surgem com a promessa de acrescentar anos à vida. Cuidar do futuro pode parecer um projeto caro, complicado e quase uma ocupação. A ciência, porém, continua insistindo no básico. Por trás das novidades, permanecem as mesmas escolhas de sempre. Pouco espetaculares, elas seguem como ponto de partida. — Não tem fórmula mágica. Devemos começar por aquilo que à primeira vista parece fácil, mas exige criar hábitos adequados e ter disciplina — afirma a geriatra Polianna Souza. O movimento vai para o topo da lista. E não exige uma academia de milhões nem um personal à disposição sete dias por semana. Subir escadas, praticar um esporte, dançar ou descobrir uma atividade que dê vontade de repetir são boas alternativas. O importante é fazer do corpo em movimento parte do dia a dia. Um estudo publicado no The Lancet Public Health dá uma dimensão desse impacto. A metanálise mostrou que caminhar cerca de 7 mil passos por dia estava associado a benefícios importantes para a saúde, na comparação com 2 mil passos diários. A lógica é simples. A execução, nem sempre. Trabalho, filhos, trânsito, compromissos, preguiça e cansaço competem com a intenção de treinar, dormir mais cedo ou reservar algum tempo para si. É aí que entra uma palavra que rende menos posts do que qualquer novidade que promete saúde, beleza e juventude, mas faz toda a diferença: constância. Um passo por vez Segunda-feira é o dia oficial das grandes mudanças. Correr cinco vezes por semana, abandonar o açúcar, meditar todos os dias, dormir oito horas, beber mais água. Na quarta, a reunião terminou tarde, a academia ficou para amanhã e apareceu um jantar que não estava na agenda. Vida real. — O plano ideal não é aquele que funciona quando a vida está perfeita. É aquele que continua funcionando quando estamos atribulados nas demandas da vida — diz Polianna. A escolha deve partir daquilo que é possível e se encaixa na rotina. Pode ser andar ao ar livre regularmente, desligar as telas mais cedo, marcar aquela consulta adiada há meses ou reservar espaço para os amigos. Encontrar quem a gente gosta, pasmem, também conta. Essa é uma das partes mais legais da lista. Mas nada disso parece ter muito a ver com o futuro. E aí está a graça. Aos 30 anos, pensar nas próximas décadas soa quase como se preocupar com algo que ainda nem está acontecendo. Cuidar do amanhã, porém, não significa viver em função dele. Escolhas cotidianas podem melhorar disposição, sono, humor e qualidade de vida hoje. Saúde e autonomia lá na frente são o bônus. A avalanche de novidades pode fazer esse repertório parecer pouco sofisticado. Afinal, ir para a cama cedo e caminhar pelo bairro não têm exatamente o apelo de uma cápsula recém-lançada ou de uma máquina com nome impronunciável. Bobagem. O simples continua fazendo bonito. — A maioria de nós nunca precisaria de suplementos se fizéssemos o básico. Exames e tecnologias deveriam se concentrar naqueles necessários para rastreamento e detecção precoce de doenças — afirma a geriatra. Transformar o cuidado em uma coleção de testes também não significa fazer mais pelo próprio bem-estar. Em alguns casos, alterações sem importância clínica geram ansiedade e dão início a novas investigações e até intervenções desnecessárias. Vale lembrar que a imperfeição está prevista nesse roteiro. Um jantar que termina tarde, alguns dias sem exercício, uma sobremesa no meio da semana ou um domingo inteiro no sofá não apagam uma base construída ao longo de meses e anos. — Uma rotina saudável não precisa ser perfeita. Precisa ser sustentável. O importante é o que fazemos na maioria dos dias. Antes de procurar o que ainda falta comprar, medir, cortar ou acrescentar, vale olhar para o que já funciona e encontrar maneiras de fazer isso caber na vida. No fim, cuidar do futuro talvez tenha menos a ver com grandes revoluções do que com repetir, na maioria dos dias, pequenas escolhas que fazem bem hoje. O básico bem feito Pequenas escolhas ajudam a cuidar da saúde no presente e no futuro. O ponto não é fazer tudo. É encontrar o que faz sentido e conseguir repetir. Mexa o corpo: caminhe, suba escadas, dance ou pratique uma atividade de que goste. O mais importante é manter-se ativo com regularidade.Priorize o sono: criar horários mais consistentes e reduzir estímulos antes de dormir pode favorecer uma rotina de descanso.Cultive relações: encontrar amigos, conversar e manter vínculos também fazem parte de uma vida saudável.Cuide da rotina: consultas e exames devem estar de acordo com as necessidades de cada pessoa, sem transformar o cuidado em uma coleção de testes.Busque constância: uma rotina sustentável vale mais do que mudanças radicais que duram pouco.Aceite os desvios: alguns dias fora da rotina não anulam hábitos construídos ao longo do tempo. Uma rotina saudável não precisa ser perfeita. Precisa ser sustentável. O importante é o que fazemos na maioria dos dias Polianna Souza, geriatra — Foto: Arquivo pessoal